Uma análise da música Auê
Na letra não aparece Deus de forma explícita, nem Jesus; a mensagem fica aberta a todo tipo de interpretação
Marco Feliciano - 04/02/2026 11h45

Há muita gente chamando a música Auê de profana; e é importante explicar o porquê. A acusação que circula, nas redes especialmente, é de que, ao citar Zé, Maria, saia, samba, e usar a palavra auê, essa música estaria fazendo referência indireta, ou diretamente mesmo, a religiões de matriz africana ou a entidades espirituais. Esse é o ponto central da polêmica.
Mas essa leitura, nasce mais de uma associação cultural rasa. Ou seja, falta conhecimento, falta uma análise linguística, histórica e até bíblica dessa música.
Começando, por exemplo, pelo nome Zé.
Veja; Zé não é nome de entidade. Zé vem de José, e isso está na língua portuguesa. No nosso idioma, isso se chama hipocorístico; que é a forma popular abreviada ou afetiva de falar um nome próprio.
Assim, no Brasil, José vira Zé, Manuel vira Mané, Francisco vira Chico. Isso é gramática; não tem nada a ver com espiritualidade.
Dessa forma, no português brasileiro, Zé passou a representar o homem comum, o anônimo, o cidadão simples. Por isso, existem expressões como, “Zé das couves”, “Zé da praça”, “Zé da música”, “Zé-ninguém”; e por aí vai.
Portanto, usar Zé não aponta para o mundo espiritual; mas aponta para o povo, para quem não tem sobrenome famoso, para quem nunca esteve no centro das atenções. E é o objetivo dessa música é falar sobre as pessoas que são esquecidas pelas outras.
O mesmo vale para o nome Maria.
Veja, Maria é o nome feminino mais comum da história do Brasil. E representa quem? Maria representa a mulher simples, trabalhadora, a mãe, a mãe solo, gente do povo.
Biblicamente falando, Maria é um nome carregado de significado. O mais conhecido desses significados é que de todas as Marias, uma em especial foi a mãe de Jesus. Uma jovem improvável, invisível aos olhos do sistema, mas escolhida por Deus.
Portanto, dizer que se na música há Zé e Maria é estar invocando entidades é ignorar tanto a língua portuguesa quanto a Bíblia. Isso é puro preconceito!
Agora, quando a letra fala de saia, de samba e de alegria, novamente surge a acusação de que isso faz uma referência religiosa. Preste atenção: não há aqui nenhuma referência religiosa, pois, samba, saia, dança são elementos culturais brasileiros.
É preciso esclarecer que cultura não é entidade espiritual; dança não é pecado; e alegria não é profanação. Na verdade, a própria Bíblia está repleta de celebração, festa, música alta, júbilo e dança.
Note que o problema não está no ritmo, nem na expressão corporal, nem na cultural. Mas é nesse ponto que suge a palavra “auê”. Talvez, a palavra mais atacada de toda essa canção.
Agora, acompanhe comigo, sim? Auê não é entidade, não é ritual, não é invocação espiritual. Etimologicamente falando, ou seja, a raiz da palavra auê remete a uma anomatopeia do português popular. A palavra auê é usada para descrever um barulho coletivo, alvoroço, agitação, comemoração.
Assim, quando há festa, dizemos: “Foi um auê!” Quando o povo se junta para celebrar, dizemos: “Deu um auê”. Isso quer dizer que a palavra descreve movimento e celebração, não espiritualidade religiosa.
Na Bíblia, essa mesma ideia aparece o tempo todo com outros termos: júbilo, clamor, voz alta, celebração pública. Isso quer dizer que quando o povo atravessou o Mar Vermelho, houve um auê. Também, quando Davi venceu Golias, houve um auê. Ainda, quando Jesus entrou em Jerusalém e o povo clamou houve um auê. Note que a diferença é apenas cultural, não espiritual.
O que quero dizer é que auê é barulho, alegria, furdunço. Logo, o que a música faz, na prática, é celebrar a ascensão de alguém que não deveria estar naquele lugar. Alguém improvável, alguém que caiu, alguém excluído. Alguém que não fazia parte daquele circuito.
Inclusive, a música fala, não sei se você prestou atenção, para alguém marcado pela sua origem, pela condição social e pela cor da pele. A mensagem central dessa música é que alguém que caiu pode ser levantado. E que quem foi invisibilizado pode ser visto. Portanto, chamar essa música Auê de profana é um erro de análise. Ela não exalta o pecado, não foca em entidades, muito menos afronta a fé cristã.
No entanto, o único ponto realmente discutível nela não é cultural nem musical. É teológico. E agora quero falar para o meu povo, para os crentes evangélicos, já que essa música foi cantada como louvor dentro de um circuito religioso.
Nessa música não aparece Deus de forma explícita, nem Jesus. Eles não são citados diretamente. Assim, a mensagem fica aberta a todo tipo de interpretação. É claro que isso não torna a música profana, mas a torna subjetiva.
Uma coisa é fato: a arte pode ser subjetiva; os poemas podem ser subjetivos; o culto, por outro lado, não. Ele tem que ser claro. Sim, a intenção do culto precisa ser clara. O restante é preconceito, ignorância ou má-fé mesmo.
Por isso, antes de acusar, é preciso discernir, conhecer a língua, entender a cultura, entender o artista, entender o poeta que escreveu o poema. Essa música é dançante e é inteligente. Os cantores a interpretam muito bem. Porém, nós temos que ter cuidado, temos que agir com muita sabedoria para não acusarmos os outros. E sim, aplicarmos os ensinos da Bíblia também com sabedoria, não com preconceito disfarçado de zelo espiritual.
E agora vem o ponto que quero realmente dar destaque: como disse, a música é bonita, dançante e inteligente; porém, sua mensagem é subjetiva, ambígua. Deus está na ideia dela. A ação da fé está na letra da canção sim; mas nada disso está explícito.
Para ser mais claro: certa vez, ouvi de alguém que, quando Deus não está explícito abre-se uma brecha para colocar o nome de outros deuses onde Ele deveria estar. Para mim, é exatamente isso que está acontecendo com essa música.
Portanto, essa música é o quê? Apenas uma música bonita.
Finalizo pedindo a Deus que nos dê sabedoria e discernimento Nele e que abramos mão dos preconceitos.
|
Marco Feliciano é pastor e está em seu quarto mandato consecutivo como deputado federal pelo Estado de São Paulo. Ele também é escritor, cantor e presidente da Assembleia de Deus Ministério Catedral do Avivamento. |



















