A real ameaça à soberania
O inimigo que desafia o Estado brasileiro não fala inglês; ele está armado e chama-se crime organizado
Magno Malta - 16/07/2025 18h38

Sim, a soberania nacional está ameaçada. Mas não é pelas sanções americanas, como tenta sugerir o governo federal. O risco real vem de dentro, silencioso, travestido de normalidade institucional. O inimigo que desafia o Estado brasileiro não fala inglês, não vem do norte e não usa crachá na ONU. Ele está armado, às vezes de fuzil, às vezes de terno, e já ocupa espaços dentro das estruturas de poder. Chama-se crime organizado.
Ironia das ironias: o presidente Lula tem razão ao afirmar que nossa soberania está em risco. Mas é seu próprio governo que, com uma postura ideológica, apática e omissa, tem contribuído para o avanço dessa criminalidade. A negligência é tamanha que, por vezes, se confunde com conivência. E mais uma vez: a culpa é sua, Lula!
Por décadas, tratamos o crime como uma questão de segurança pública localizada, restrita a territórios esquecidos. Hoje, não há mais como disfarçar. O que está em jogo não é apenas a tranquilidade das comunidades, mas a própria autoridade do Estado brasileiro. O que se disputa é o comando de território, a legitimidade para aplicar a lei ou para ignorá-la.
Dito isso, a instalação da CPI do Crime Organizado no Senado, nesse contexto, representa um respiro. Um esforço necessário antes que o país entre de vez na lógica do colapso institucional. Porque a verdade é incômoda, o Brasil está perigosamente próximo de se configurar, na prática, como um narcoestado.
O que na prática isso significa? Trata-se de um país em que o tráfico de drogas e o crime organizado têm controle direto sobre os órgãos políticos, segurança, economia e territórios. E, infelizmente, já vemos esses indícios por toda parte através das organizações.
PCC, Comando Vermelho, milícias. Chamá-los de “quadrilhas” já não dá conta do nível de estrutura que alcançaram. Essas facções são verdadeiras corporações do crime: têm hierarquia, logística, estratégia, controle de qualidade do terror e expansão geográfica planejada.
Operam do campo à cidade, das fronteiras amazônicas às zonas eleitorais do Sudeste. Dominam postos de gasolina, empresas de transporte, mineradoras ilegais e, sim, participam da política. Financiando. Elegendo. Legislando.
Movimentam, segundo estimativas, mais de R$ 140 bilhões por ano. Dinheiro sujo que transita com naturalidade por empresas legalizadas e campanhas eleitorais. E mais, muitas vezes, assumem funções que deveriam ser do Estado. Aplicam normas próprias, cobram tributos, julgam, punem e mantêm a ordem à sua maneira. Onde o Estado não chega, eles mandam.
Mas o mais preocupante não está nos becos armados. Está nos silêncios institucionais. Um narcoestado se consolida não apenas quando há tráfico e armas, mas quando parte das instituições se omite, se acomoda ou, pior, se rende. Quando vozes de vítimas não encontram eco, quando a Justiça falha em proteger o cidadão, quando representantes do povo ignoram sua responsabilidade, quando governadores convivem com o crime como parte da rotina administrativa.
Hoje, a frase “as instituições estão funcionando” virou, para muitos, um deboche. Funcionando para quem? Para o cidadão que não consegue sair de casa sem autorização do tráfico? Para a mãe que enterra o filho atingido por uma bala “perdida”? Para o prefeito que precisa negociar com a milícia para garantir a coleta de lixo?
Ou seja, a CPI precisa acontecer com profundidade e coragem. Sem camuflagem da verdade. Afinal, sabemos que o sistema político brasileiro tem mecanismos bem treinados para sabotar CPIs, esconder provas, blindar figurões. Mas é isso ou nada. Talvez seja nossa última chance de agir enquanto ainda há tempo para salvar o que resta da autoridade republicana.
Mas para que funcione essa comissão, será necessário mais do que discursos indignados. Vai exigir independência, firmeza moral e, sobretudo, coragem de enfrentar o crime e, se necessário, também os que o protegem com silêncio.
Porque, neste momento, a neutralidade deixou de ser prudência, virou covardia.
|
Magno Malta é senador da República. Foi eleito por duas vezes o melhor senador do Brasil. |



















