Violência não tem clemência

O fato é que estamos vivendo numa cultura de violência

Luiz Sayão - 05/09/2017 11h10

Violência não tem clemência / Foto: Pixabay

Vivemos em tempos muito difíceis. Violência é a palavra de ordem. São meio milhão de homicídios no planeta. E um milhão de suicídios! É uma loucura. Nossa sociedade é marcada pela violência. Todo o imenso progresso científico e tecnológico dos últimos duzentos anos parece só ter feito o homem aprimorar a arte de matar. São mais de 100 milhões de mortos só nas guerras dos últimos 100 anos. Somente as atrocidades dos regimes comunistas já beiram essa cifra, especialmente na China e na ex-União Soviética (Stálin). É um pesadelo. A vida não é mais a mesma. É apavorante! Os noticiários terríveis estão em toda a parte.

Deus tem conhecimento da violência. Na Bíblia, a palavra ocorre cerca de 60 vezes, sendo a vasta maioria no Antigo Testamento, principalmente nos profetas. Em hebraico, violência se diz “hamas”. Parece ironia. O Deus que se revela a Israel confronta a violência. Ele a condena e, por causa dela, em seu juízo, destruiu a terra na ocasião do dilúvio (Gênesis 6). Mas, no contexto da história do povo da aliança, os profetas de Israel e de Judá são os principais arautos divinos contra a violência. Só em Habacuque o termo aparece cinco vezes. A violência é estranhada, rejeitada e confrontada nas Escrituras.

Infelizmente, as guerras, os conflitos étnicos, políticos, religiosos, os movimentos jihadistas e os homicídios já fazem parte do cotidiano do homem de hoje. Paquistão, Iraque, Nigéria, Sudão, Coreia do Norte, França, Inglaterra, Brasil e Venezuela são alguns nomes de países que evocam medo e morte por variadas razões. E se falarmos em Caracas, Lagos, Detroit, Rio de Janeiro, Cidade do Cabo, Estocolmo e Paris, a sensação é semelhante.

O fato é que estamos vivendo numa cultura de violência. Os games inspiram violência, o cinema e a televisão transformaram a violência em entretenimento. Quase todas as áreas da vida estão hoje invadidas pela terrível violência que assola a humanidade. O problema é mundial. Cerca de 60 milhões de abortos são feitos no mundo anualmente. O Brasil concentra por volta de 10% dos homicídios do mundo. A Suécia tem uma das mais altas taxas de estupro do mundo. A máquina de guerra americana coleciona uma maioria de negros e latinos pobres mortos nas últimas guerras. Em muitos países da Ásia, o tráfico de crianças para a prostituição é comum. Países como Alemanha e EUA registraram casos de canibalismo! É simplesmente horroroso!

A crença popular é que a violência surge da pobreza e da falta de oportunidade. Ao contrário do que se imagina, isso não se verifica. Essa leitura marxista da sociedade permite a conclusão superficial de que a violência tem origem na miséria e na “revolta do proletariado”. Isso não é verdade! Em primeiro lugar, essa afirmação sugere que nenhum pobre possui dignidade. Basta uma pessoa não ter recursos para roubar e matar. Chega a ser ofensivo! Conheci milhares de pessoas pobres que são incapazes de se apropriar do que é alheio. Alguns devolvem até as moedas do troco que não lhe pertence. Por outro lado, muitas pessoas ricas, como políticos, empresários e “gente de bem” são capazes de muita desonestidade e violência.

A prova de que isso não é verdade está no fato de que muitas cidades da Namíbia (África), da Costa Rica, do Nepal, da Armênia e do Marrocos possuem pouquíssima criminalidade. Pobreza não é sinônimo de violência.

A grande verdade é que a violência é a intensificação do pecado humano na sua dimensão horizontal. É o afastamento de Deus e de seus princípios que causa a violência. Muita gente hoje é religiosa e mística, mas carece de ética. A imoralidade sexual e o desrespeito à autoridade e à lei provocam o esfacelamento da família e a destruição da sociedade. A verdade é que quem não respeita os próprios pais e não tem referência de lei e autoridade não dará ouvidos ao policial, ao professor, ao pastor da igreja e a ninguém.

Sendo de fato uma expressão do pecado humano, a violência é, de fato, filha da ganância. Aqui está o esclarecimento necessário da relação entre pobreza e violência. Os crimes das grandes cidades são fruto de um desejo ganancioso de muita gente de ser como “os ricos”. A ideologia da sociedade consumista e fútil expressa nos meios de comunicação sugere que o acúmulo de bens, principalmente dos que trazem prestígio são “a razão de ser” da vida. Assim, a massa da população começa a correr atrás de uma lista de mercadorias inúteis que lhes trazem valor social. É lamentável! É assustador! Numa busca frenética, abandonam valores essenciais e absolutos que têm sido a sabedoria de comunidades por séculos.

Esse desvario alucinado favorece a prostituição, o jogo, o lucro fácil, os negócios desonestos, o tráfico de drogas, o tráfico de armas e até o tráfico humano. No fundo, a velha Bíblia continua com a razão, pois é o amor ao dinheiro a maior razão da violência. Isso explica em grande parte porque uma sociedade abastada como a norte-americana é marcada por muita violência!

As palavras de Paulo em 1 Timóteo 6.7-10 são esclarecedoras: “…pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar; por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos. Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos”.

Precisamos dar uma parada na máquina desvairada desse mundo violento. É hora de valorizar a conversa entre pais e filhos, dar atenção à família, meditarmos em silêncio na palavra divina e orar escutando música de qualidade ao fundo! Não é a mudança de sistema que resolverá a luta contra a violência. O problema é pessoal, profundo, individual e espiritual. Quando cada um de nós ouvir com atenção o Sermão do Monte e alinhar o coração com os ensinos de Jesus, a violência perderá lugar.


Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).