Teologia da incredulidade

Creio que está na hora de colocar em dúvida as nossas próprias dúvidas. Será que podemos levar tão a sério nossa capacidade de duvidar?

Luiz Sayão - 28/11/2018 17h49

Com toda certeza, um dos maiores temores dos defensores da fé é a incredulidade. É a terrível descrença. A falta de fé e a rejeição da verdade bíblica é claramente interpretada como o maior pecado que o ser humano pode cometer para a maioria dos cristãos. Dezenas de textos bíblicos corroboram esse enfoque. Afinal, a própria salvação é alcançada apenas mediante a fé!

Todavia, será que toda dúvida é sinônimo de incredulidade? Existe diferença entre uma dúvida e outra? Será verdade que “nenhuma dúvida vem de Deus”. Como devemos encarar os nossos momentos de dúvida e de questionamento da fé? Serão frutos da “carne”? É uma tentação diabólica? Resultado da ausência divina?

É muito interessante observar que a Bíblia está repleta de textos que expressam os conflitos e perguntas daquele que busca a Deus. É comum, por exemplo, o salmista questionar a demora divina em agir com a frase: “Até quando, SENHOR” (Sl 6.3; 13.1; 79.5; 89.46). O profeta Habacuque age da mesma forma (Hc 1.2). Além disso, quando olhamos para servos de Deus como Moisés, Davi, Jonas e Pedro, podemos afirmar que nem sempre eles mantiveram a fé inabalável em todas as circunstâncias. Muitas vezes vacilaram de maneira impensável!

Todavia, talvez o exemplo mais impressionante de dúvida na história da fé cristã foi o caso de Tomé. Em João 20.24-25 lemos:

24 Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com os discípulos quando Jesus apareceu. 25 Os outros discípulos lhe disseram: “Vimos o Senhor!” Mas ele lhes disse: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei”.

A declaração explícita de incredulidade do discípulo Tomé assusta. Parece um cético que emergiu do século 19, sob a influência do Iluminismo. Como pode um apóstolo do próprio Senhor Jesus Cristo, da época da igreja primitiva, agir e pensar assim?

A história surpreende a todos ainda mais por sua sequência inesperada. Vejamos os versículos 26-28:

26 Uma semana mais tarde, os seus discípulos estavam outra vez ali, e Tomé com eles. Apesar de estarem trancadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “Paz seja com vocês!” 27 E Jesus disse a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia”. 28 Disse-lhe Tomé: “Senhor meu e Deus meu!

A gravidade do pecado da incredulidade, principalmente no caso de um apóstolo do Senhor, levanta uma expectativa de grande castigo divino para Tomé. O que diríamos? Qual seria o veredito adequado? Alguns arminianos pensariam que ele estaria prestes a perder a salvação. Já os calvinistas certamente entenderiam que Tomé não era um eleito. Os conservadores poderiam encontrar nele as raízes do “liberalismo incrédulo”. No entanto, no texto bíblico, mesmo duvidando do Jesus ressurreto, Tomé não é fulminado pelos céus, nem recebe qualquer maldição. É impressionante. Jesus faz questão de dar-lhe a oportunidade de dirimir suas dúvidas. Tomé pode tocar e ver! Quanta misericórdia! Será que ele mereceria tudo isso? Com certeza, não! Finalmente, Jesus dá sua palavra final: “Pare de duvidar e creia”. Diante das palavras de Jesus: Tomé faz uma das maiores declarações de fé da história: “Senhor meu e Deus meu!”, reconhecendo não só que Jesus ressuscitou, mas que ele é o Senhor e também é Deus! Quanta ortodoxia para um incrédulo como Tomé! Demais! A maior expressão de fé nasceu de um momento escuro de incredulidade

A grande verdade é que, muitas vezes, a dúvida faz parte da própria caminhada da fé. De certa forma, o “duvidar” é também uma faceta do “crer”. Não é possível crescer em fé sem enfrentar crises e “momentos de dúvida”. Por isso, tantas vezes vemos na Bíblia que grandes lutas espirituais, marcadas pela dúvida, depois “amadurecem em fé”. De fato, podemos ir até mais longe e afirmar que: “quem nunca duvidou, nunca creu de verdade”. A incredulidade terrível e incurável, distinta do questionar legítimo, manifesta-se realmente através da indiferença e do descaso e não através das dúvidas sinceras.

Diante dessa realidade, creio que está na hora de colocar em dúvida as nossas próprias dúvidas. Será que podemos levar tão a sério nossa capacidade de duvidar? Será que os que duvidam, estão duvidando de verdade? Com toda sinceridade? Ou, quem sabe, muitos aparentes ateus e agnósticos, que se sentem tão incomodados com o evangelho, são na verdade “crentes enrustidos”. Não será por isso que reagem de modo tão emotivo diante das declarações da fé? Diante do “testemunho” de alguns incrédulos (semelhantes a Tomé), digo abertamente: Eu duvido!

 

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

 


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