Será que estética precisa de ética? E de palavra profética?

Desde o início a relação entre fé e arte foi de suspeita. De onde veio essa ruptura?

Luiz Sayão - 18/09/2017 14h45

Será que estética precisa de ética? E de palavra profética? / Foto: Pixabay

O sagrado e o belo nem sempre entraram em diálogo. Na história da fé cristã, as crises foram muitas. Essa relação teve uma trajetória traumática. Desde o início a relação entre fé e arte foi de suspeita. De onde veio essa ruptura? Qual é a explicação? Judeus e cristãos primitivos contemplaram as manifestações artísticas pagãs e dificilmente dissociavam uma coisa da outra. A arte dos egípcios, babilônios, filisteus, gregos e romanos era repleta de idolatria e imoralidade. Era chocante para judeus e cristãos essas expressões estéticas. Além disso, foi o próprio Deus que proibiu a confecção de imagens de escultura (Êx 20.4-5) como objeto de culto. O mandamento foi levado a sério pelos judeus. Não há quase nenhuma escultura hebraica dos tempos bíblicos. No cristianismo primitivo, a tendência prosseguiu. Todos sabem que a controvérsia das imagens foi um dos principais problemas da história da igreja. Até hoje, católicos e protestantes têm linhas demarcadas em torno da questão.

Na área da música, as coisas também foram complicadas. O Novo Testamento fala pouco de música cantada na igreja. A igreja cristã sempre temeu que a música se tornasse um ídolo que prejudicasse a adoração genuína. O canto gregoriano tornou-se um estilo musical que evitava os desvios da alma. O problema persistiu na época da Reforma. O zelo por uma espiritualidade genuína e o medo da idolatria muito limitaram essa arte. Instrumentos musicais foram vistos com desconfiança. Alguns calvinistas mais radicais mostraram essa ruptura. Houve até mesmo destruição de órgãos na Escócia, ainda que a tradição luterana alemã valorizasse em muito a música. Todavia, essa tradição de medo da arte teve efeito no evangelicalismo anglo-saxão e chegou também ao Brasil.

Em terras brasileiras, a arte entre evangélicos teve um agravante. Como era proibido construir templos no início da história protestante, nossos templos se tornaram “caixotes da fé”, com pouquíssima referência estética. Além disso, por sua identidade anticatólica, símbolos como a cruz, entre outros, também foram abolidos. Em resumo, nossa herança estética é mínima. Todavia, nas Escrituras, a arte é melhor compreendida.

Na gênese da arte nas Escrituras, ficamos assustados. Tudo começa com a família de Caim. A arte começa num ambiente antiDeus, marcado pela independência de Deus, imoralidade e violência. O toque final da estética de Caim aparece na figura da Cidade, resumo daquela civilização antiDeus:

Lameque tomou duas mulheres: uma chamava-se Ada e a outra, Zilá. Ada deu à luz Jabal, que foi o pai daqueles que moram em tendas e criam rebanhos. O nome do irmão dele era Jubal, que foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Zilá também deu à luz um filho, Tubalcaim, que fabricava todo tipo de ferramentas de bronze e de ferro. Tubalcaim teve uma irmã chamada Naamá. Disse Lameque às suas mulheres: “Ada e Zilá, ouçam-me; mulheres de Lameque, escutem minhas palavras: Eu matei um homem porque me feriu, e um menino, porque me machucou. (Gn 4.19-22 – NVI)

A arte começa maculada na Bíblia, mas será que isso compromete sua razão de ser? O problema está na arte ou no coração humano? Deus criou tudo bom e bonito (tôv em hebraico: Gn 1.31). Deus é o Senhor de toda arte! Ele é o Deus da estética. Isso pode ser visto em outros textos nas Escrituras. Em Êxodo 31.1-7, há um texto que surpreende:

Disse então o Senhor a Moisés: “Eu escolhi Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal. Além disso, designei Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã, para auxiliá-lo. Também capacitei todos os artesãos para que executem tudo o que lhe ordenei: a Tenda do Encontro, a arca da aliança e a tampa que está sobre ela, e todos os outros utensílios da tenda…

Como pode o Deus que proibiu “fazer imagens de escultura” ordenar a confecção artística do tabernáculo (Êxodo 25-40), o que incluía a confecção da imagem de dois querubins!? E mais: a capacidade estética de criar e expressar o Belo aqui é concedida pelo enchimento do Espírito de Deus! Começa aqui uma história de redenção da arte. Deus condenava a idolatria, mas nunca foi seu objetivo destruir a própria arte.

Prosseguindo pela Bíblia, vamos encontrar arquitetura e estética espacial no templo de Salomão, música muito elaborada nos Salmos e em outras partes, muita poesia cuidadosamente trabalhada em grande parte da Escritura. Há inclusive uma espécie de encenação teatral nos profetas (Ezequiel). Deus é o Senhor de toda arte! Mesmo que a motivação de muitos cristãos tenha sido sincera, muito da teologia da estética presente na Bíblia não foi percebido por eles. Por isso, herdamos um cristianismo de expressão tão sisuda, e às vezes melancólica, que tem dificuldades de dialogar com a cultura.

A questão é muito séria, afinal a arte se tornou fundamental na sociedade atual. É o principal meio de veiculação de conteúdo. Francis Schaeffer criticou a atitude de afastar-se da arte comum do evangelicalismo americano no início do século XX. Isso foi mortal para a igreja, pois a música e o cinema tornaram-se monopólio do pensamento secular. O conservadorismo entregou as novas formas de expressão artística ao mundo não cristão, facilitando a formação de uma geração secular e pagã! A igreja precisa redescobrir o valor e o poder da arte. Mesmo que seu início na história bíblica seja maculado, e de fato seu transcurso histórico esteja muito marcado pelo pecado, na Bíblia Deus é criador e redentor da arte. Hoje, vemos ritmos que surgiram longe dos arraiais da fé serem usados por Deus para o benefício do Reino. O que era para o mal se tornou em bem! O Apocalipse termina a Bíblia cheio de arte e de bela música. A Cidade, símbolo da arte e do progresso do mal (Gn 4), é transformada em bênção final (Ap 21.1-4)!

Mas, falando tanto em arte e Escritura, afinal, o que é uma obra de arte? Como definir a estética? Quando falamos em estética, do ponto de vista filosófico estamos tratando do belo. Mas, afinal o que é o belo? O que define e caracteriza uma obra de arte? Que critérios podem ser utilizados para determiná-los? Quem já entrou em um museu de arte com certeza já se perguntou qual é a amplitude do critério de avaliação artística. Será que uma obra de arte deve ter finalidade ou justificativa? Além disso, que relacionamento deve ter a estética com a ética?

Os caminhos da história da filosofia no campo da estética são fascinantes. Uma das primeiras teorias da arte é a chamada mimética: a arte como imitação. Platão é o pioneiro dessa perspectiva. A natureza é uma imitação das ideias, portanto, arte é a imitação da natureza. Assim, a arte deve imitar a Beleza. Também Aristóteles seguiu a hipótese mimética, mas considerava que o belo apelava para a capacidade cognitiva do homem, despertando-lhe prazer. Segundo o filósofo estagirita, a ordem, a simetria e a determinação estabelecem a beleza de uma obra de arte.

Vale ressaltar que essa perspectiva levou os filósofos clássicos, tanto os gregos como os cristãos medievais, a ver que arte tem finalidade pedagógica. A arte deve favorecer a educação. Por esse motivo, Platão condenou a arte teatral, pois afirmava que esta despertava as baixas paixões do homem. Ele ainda defendia o uso da música como arte que deve ser cultivada, pois educa e produz harmonia na alma. Já Aristóteles acreditava que a arte tinha também uma função catártica, permitindo ao homem libertar-se das paixões e alcançar a purificação.

Já nos tempos da modernidade europeia, a partir do século XVII, alguns filósofos como Giambattista Vico e Georg W. F. Hegel viam a finalidade da arte como teórica e metafísica. Para o conhecido filósofo alemão, por meio da arte se conhece a natureza profunda das coisas, do Absoluto. A obra artística, para Hegel, é vista como uma manifestação concreta do Absoluto. A partir do século XIX, a arte adquire novos contornos e passa a ser vista como expressão do homem, de seus sentimentos e fantasias. É parte integral da manifestação das capacidades humanas ditas não racionais. O idealista Immanuel Kant, por exemplo, via na arte a possível captação do universal, que se exprimia no particular; para Kant é a expressão do “númeno no fenômeno”. Assim, o prazer estético produziria uma profunda harmonia entre as faculdades opostas dos sentidos e do intelecto. Outros pensadores menos conhecidos também refletiram sobre a arte. Para alguns, como George Santayana, a arte é prazer, o belo é visto como o bem último da vida; outros, como Arthur Schopenhauer, a definiam como uma via de escape, uma espécie de ópio, quase redentora da experiência humana.

Em nossos dias, as perspectivas estéticas passaram a valorizar muito a expressão individual, a criatividade e a originalidade. Nesse caso, o artista não imita, não pretende comunicar realidades superiores; ele apenas cria algo totalmente novo. É o triunfo do olhar novo, da expressão pessoal. A partir desse enfoque, a arte passa a ser vista como autônoma. A arte tem como finalidade a própria arte. O que vale é a própria manifestação do artista. A avaliação pelo conteúdo, ética ou pedagógica é descartada, ainda que se fale de arte indesejável e “politicamente incorreta”.

Para entender a forma de pensar atual, é preciso observar que alguns filósofos sugerem que a arte é amoral; é independente da ética. É compreensível que uma obra de arte deva ser avaliada predominantemente por seu aspecto estético. Todavia, não é possível isolar a obra de arte dos outros aspectos da vida. Parece que há uma ideia de que o artista tem acesso a uma forma superior de apreensão da realidade, acima do bem e do mal. É como um sacerdote inquestionável, uma espécie de ser superior. Não é adequado pensar assim. Afinal, a arte envolve a expressão de ideias. Devemos permitir a divulgação de um filme nazista em nome da liberdade artística? É correto incitar o ódio racial? Prestigiar a pedofilia? Achincalhar objetos de fé cristão, budista, islâmica, judaica, espírita etc? Por que a grande mídia tem diferença de critério? Será que fatores políticos e econômicos têm peso nessa “liberdade artística”. Com toda certeza, ninguém avalia uma obra de arte apenas esteticamente, pois ela sempre promoverá ideias. Não se pode esquecer a grande lição do que aconteceu na época do nazismo. O movimento racista supremacista “ariano” foi fruto de uma obsessão estética de um artista frustrado chamado Adolf Hitler. Vale muito apreciar o excelente documentário sueco de Peter Cohen Arquitetura da Destruição (Undergångens arkitektur) para entender os desdobramentos do “grande sonho estético” que se tornou o maior pesadelo humanitário da história. Sem falar no fato de que toda a ideologia nazista só pôde ter sucesso mediante a grande máquina de propaganda artisticamente trabalhada para difundir suas ilusões e sonhos estéticos de uma pretensa raça superior. Imunidade absoluta ao artista é um absurdo. Somos ao mesmo tempo um ser moral, religioso, estético, metafísico etc. A arte deve, portanto, ser benéfica ao homem. A estética precisa de ética e até mesmo da Palavra Profética.


Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).