Sacrilégio sacerdotal: Lições para uma geração que perdeu o temor

A dificuldade que temos é que geralmente achamos que um problema entre as pessoas é algo muito sério, mas quando se trata da nossa relação com Deus, não é tão sério assim

Luiz Sayão - 04/12/2018 13h30

O início do livro de Levítico apresenta as principais ofertas que eram trazidas ao SENHOR no culto israelita primeiro, no Antigo Testamento. O povo de Israel, tendo um perfil pastoril e originalmente nômade, só poderia oferecer a Deus o que tinha: os seus animais. Daí a lógica da predominância dos sacrifícios. Quando chegamos ao capítulo 6 de Levítico, vemos que as ofertas são retomadas, repetidas. O texto aborda a oferta do holocausto, depois do cereal (indevidamente chamada de manjares), oferta pelo pecado, pela culpa e a oferta de comunhão; mas, agora o enfoque é um pouco diferente, pois na repetição das ofertas destaca-se o papel do sacerdote, de Arão e seus filhos, e seus descendentes.

Levítico fala sobre como é que eles devem lidar com a regulamentação para cada uma das ofertas exigidas por Deus. Por exemplo, em Levítico 6.16 lemos: “Arão e seus filhos comerão o restante da oferta, mas deverão comê-lo sem fermento e em lugar sagrado, no pátio da Tenda do Encontro”. Esse mesmo tipo de orientação aparece também no capítulo sete, reforçando a proibição de comer gordura, de comer sangue, e o final do capítulo trata da porção dos sacerdotes.

Prosseguindo em Levítico, nota-se que os capítulos 8-10 vão falar mais especificamente de Arão e de sua família. Arão e seus filhos recebem a atenção do texto:

“Traga Arão e seus filhos suas vestes, o óleo da unção, o novilho para a oferta pelo pecado, os dois carneiros e o cesto de pães sem fermento; e reúna toda a comunidade à entrada da Tenda do Encontro. Moisés fez como o Senhor lhe tinha ordenado, e a comunidade reuniu-se à entrada da Tenda do Encontro”. (Lv 8.1-4).

Foi nessa ocasião que Arão e seus filhos são consagrados como sacerdotes. E logo eles começam efetivamente seu ministério, conforme se vê no capítulo 9 de Levítico.

Todavia, a grande questão: O que é de fato um sacerdote? Como é que essa função deve ser vista no Israel antigo? O sacerdote é uma figura que aparece inicialmente no livro de Êxodo e que tem a ver com a intermediação entre Deus e o homem. Assim, o sacerdote se distingue, por exemplo, do profeta. O profeta traz a Palavra de Deus ao homem, ou seja, ele apresenta Deus aos homens. Já, o sacerdote, ao contrário, apresenta o homem a Deus. Sua função é atuar nessa intermediação entre Deus e o homem por causa da realidade do pecado. Assim, nessa provisão da graça divina, o sacerdote era a figura desse intermediário que oficiava esses sacrifícios e ofertas para reestabelecer a comunhão entre a pessoa e Deus. É a partir dessa compreensão que vamos entender que Jesus é o nosso sumo sacerdote, no sentido em que ele estabeleceu essa intermediação entre Deus e o homem, em sintonia com esse enfoque que começa com a figura de Arão e seu sacerdócio.

Arão, irmão de Moisés, é descrito na Bíblia como o primeiro sacerdote e também sumo sacerdote, que estava na posição de exercer esse ofício de estabelecer a comunhão entre o antigo israelita e o próprio Deus. No Novo Testamento, fica claro que Cristo é o sumo sacerdote por excelência e definitivo. Vale ressaltar que o sumo sacerdote era responsável pelo tabernáculo e pelas ofertas e sacrifício diários que deveriam ser oferecidos, inclusive em todas as festas de Israel, a Páscoa, o Pentecoste (Shavuot), Tabernáculos (Sucot) e também no Dia da Expiação (Yom Kippur).

O sumo sacerdote usava vestimenta especial, compatível com sua função. Na cabeça ele usava um turbante (mitra) com uma coroa, e se vestia com um calção de linho, depois uma túnica branca e uma túnica azul; sobre essa túnica era posto um manto sacerdotal (éfode). Esse manto sacerdotal trazia sobre si o peitoral com as pedras que lembravam as doze tribos de Israel. No peitoral estavam o Urim e o Tumim, e nas ombreiras as pedras de ônix. A importância do sumo sacerdote era suprema. Afinal, ele lidava com Deus, com o sagrado, distante do homem pecador. Todo o sacerdócio tinha o objetivo de fazer com que a aproximação de comunhão entre Deus e o homem se tornasse uma realidade. Assim, Êxodo e Levítico nos revelam como o sacerdócio se estabeleceu, como foi iniciado com Arão e sua família, e como isso se tornou permanente depois na comunidade de Israel, na relação cúltica entre Deus e o seu povo.

Assim, Levítico nos relata a consagração de Arão e de seus filhos, do início do seu ministério, no capítulo 9, ministério extremamente abençoado por Deus, pois quando terminou a consagração, o texto diz (v. 23-24): “Moisés e Arão entraram na Tenda do Encontro, e quando saíram, abençoaram o povo e a glória do SENHOR apareceu a eles. Saiu fogo da presença do SENHOR e consumiu o holocausto e as porções de gordura sobre o altar. E, quando todo o povo viu isso, gritou de alegria e prostrou-se, rosto em terra”. Deus mostrou sua aprovação, sua glória e seu poder neste momento especial. Foi extraordinário.

No entanto, o que nos surpreende nesse momento de tanta glória, de bênção desmedida da parte de Deus, é que o capítulo 10 nos traz um relato muito surpreendente, que chama a atenção:

“Nadabe e Abiú, filhos de Arão, pegaram cada um o seu incensário, nos quais acenderam fogo, acrescentaram incenso, e trouxeram fogo profano perante o SENHOR, sem que tivessem sido autorizados. Então saiu fogo da presença do SENHOR e os consumiu. Morreram perante o SENHOR. Moisés então disse a Arão: “Foi isto que o SENHOR disse: ‘Aos que de mim se aproximam santo me mostrarei; à vista de todo o povo glorificado serei’. Arão, porém, ficou em silêncio”. (Lv 10.1-3)

O que nos impacta tremendamente, porém, é que os filhos de Arão trazem um fogo não permitido perante Deus e são mortos na hora pela sua atitude de desprezo com respeito a santidade de Deus. Logo depois da ordenação sacerdotal, já aparece o fracasso humano. No momento mais sublime da história, ocorre a maior desgraça. E o texto prossegue mais adiante quando Moisés chama alguns integrantes ligados à família de Arão. Ele diz: “Venham cá; tirem os seus primos da frente do santuário e os levem para fora do acampamento” Aqueles que tinham morrido, Mizael e Elzafã tiraram os cadáveres de seus parentes.

“Então Moisés disse a Arão e a seus filhos Eleazar e Itamar: Não andem descabelados, nem rasguem as roupas em sinal de luto, senão vocês morrerão e a ira do Senhor cairá sobre toda a comunidade. Mas os seus parentes, e toda a nação de Israel, poderão chorar por aqueles que o SENHOR destruiu pelo fogo. Não saiam da entrada da Tenda do Encontro, senão vocês morrerão, porquanto o óleo da unção do SENHOR está sobre vocês”. E eles fizeram conforme Moisés tinha ordenado. Depois o SENHOR disse a Arão: “Você e seus filhos não devem beber vinho nem outra bebida fermentada antes de entrar na Tenda do Encontro, senão vocês morrerão. Vocês têm que fazer separação entre o santo e o profano, entre o puro e o impuro, e ensinar aos israelitas todos os decretos que o SENHOR lhes deu por meio de Moisés”. (Lv 10.6-11)

A função do sacerdote era uma função um tanto quanto complicada. Ele corria o risco de se acostumar com as coisas de Deus, com as coisas sagradas, porque elas faziam parte do cotidiano. Poderiam perder o respeito e a reverência por Deus e pelas ordenanças do SENHOR. E, aqui, foi o que os filhos de Arão fizeram e, por isso, morreram fulminados. Vale ressaltar o que Deus diz: ‘Façam separação entre o santo e o profano, o puro e o impuro”. Isso significa: vocês não podem lidar com o sagrado de qualquer maneira. A coisa é muito séria! É a determinação divina.

Prosseguindo, o capítulo 10 vai encerrar a discussão sobre o fato ocorrido, e o texto nos diz assim:

“Quando Moisés procurou por toda parte o bode da oferta pelo pecado e soube que já fora queimado, irou-se contra Eleazar e Itamar, os filhos de Arão que ficaram vivos, e perguntou: Por que vocês não comeram a carne da oferta pelo pecado no Lugar Santo? É santíssima; foi-lhes dada para retirar a culpa da comunidade e fazer propiciação por ela perante o SENHOR. Como o sangue do animal não foi levado para dentro do Lugar Santo, vocês deviam tê-lo comido ali, conforme ordenei”. Arão respondeu a Moisés: “Hoje eles ofereceram o seu sacrifício pelo pecado e o seu holocausto perante o SENHOR; mas, e essas coisas que aconteceram comigo? Será que teria agradado ao SENHOR se eu tivesse comido a oferta pelo pecado hoje?” Essa explicação foi satisfatória para Moisés”. (Lv 10.16-20)

O texto nos mostra o perigo terrível. Com fogo santo não se brinca. Na sequência do texto, vemos que os outros filhos de Arão ainda mostravam uma atitude de falta de compreensão da tremenda santidade dos sacrifícios que eram apresentados a Deus. A atitude era relapsa e indevida. A grande verdade é que há uma distância entre Deus e o homem, uma distância marcada pela realidade do pecado humano e de nossa condição de criatura limitada. O reconhecimento de Deus, de seu poder e de sua presença, deve nos trazer uma atitude de profunda reverência e respeito, e a profunda compreensão sobre o que significa santidade.

Nesse texto, nós vemos uma ironia terrível, pois, os próprios filhos de Arão, o maior sumo sacerdote da história, não souberam agir de modo adequado diante de Deus. De quem mais esperamos vem a maior decepção. Foi Arão que fez o bezerro de ouro, foram os seus filhos que cometeram sacrilégio. Todos os que lidam com o sagrado correm grande risco, se não se lembrarem como são frágeis, pecadores e dependentes do único Deus. É impressionante, mas foi por oferecerem um fogo bem diferente, um fogo profano, que eles acabaram sendo mortos pelo próprio SENHOR.

Mas, a pergunta ainda fica no ar: Que fogo é esse? O fogo aqui é chamado de fogo profano. Em algumas versões antigas da Bíblia traduzem por “fogo estranho”. Não faz muito sentido. O texto não traz maiores detalhes. Todavia, não é difícil perceber que se trata de um fogo não autorizado. A questão que está envolvida aqui é que Deus tinha dado suas regulamentações detalhadas que tratavam dos sacrifícios e ofertas, e da relação deles com a sua santidade. Não sabemos exatamente o que eles fizeram. Mas, sabemos com que atitude fizeram. Trouxeram um fogo, um sacrifício, sem se preocupar com a ordem e determinação dada por Deus. É o suficiente! Isso mostra desrespeito, desconsideração, uma atitude de total repúdio ao que Deus ordenou. Por isso, eles foram tão severamente punidos. A dificuldade que temos é que geralmente achamos que um problema entre as pessoas é algo muito sério, como o homicídio, mas, quando se trata da nossa relação com Deus, não é tão sério assim. É possível dar um jeito. Aqui, vemos que Deus está mostrando que a sua santidade, a sua pessoa, precisa ser devidamente respeitada e adorada. Errar nisso é fatal.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

 

  • Adicione nosso número de WhatsApp: +55 (21) 97150-9158 e envie sugestões direto para a redação.