Por que tanta intolerância? Chega de preconceito!

Está na hora da sociedade, principalmente a classe dominante brasileira, discutir religião e tirá-la da marginalidade

Luiz Sayão - 02/01/2018 09h15

 

A ação do Ministério Público contra o Supermercado Hirota, em São Paulo, proibindo a distribuição de um devocional evangélico, causou transtorno e revolta. Mas, na cartilha da desigualdade discriminatória, a explicação é simples: “Os religiosos são cheios de preconceitos”. Cuidado com religião! Por que a discriminação? Há em nossa sociedade um preconceito disseminado que vê “a religião” como artigo de perfumaria. Uma espécie de “esquisitice” de alguns. Um gosto pessoal tolerável por amor à liberdade. No entanto, toda pessoa “instruída” sabe que ideias religiosas não são nada científicas. Por isso, na sociedade secular, humanista, com pressupostos opostos ao da fé, particularmente do cristianismo, a religião é cuidadosamente vigiada. Por exemplo, muitos veículos de comunicação a ignoram. Quase não há uma coluna sobre religião. Não há espaço para religiosos, exceto se houver razões políticas. Todo tipo de ideologia merece espaço na educação formal, mas falar de religião é quase proibido: Não pode! Nos Estados Unidos até dizer “Feliz Natal” acabou se tornando problema. A União Europeia tentou extirpar Deus da sua constituição. Entrar em um país como religioso, inclusive nos Estados Unidos e na Europa, é se expôr à humilhação. Jogadores de futebol que expressam sua fé em campo são criticados e repreendidos. Mesmo que mais de 90% do povo brasileiro se afirme religioso (87% cristãos; 29% evangélicos), isso é problema deles. Os cursos de Teologia enfrentaram uma imensa batalha para serem reconhecidos.

Por que a intolerância? De onde vem essa marginalização? A origem é histórico-dogmática. De acordo com os dogmas seculares do século 19, a religião era vista como fenômeno irracional, uma espécie de etapa evolutiva inferior. Os positivistas, por exemplo, a viam como o primeiro de três estágios da história humana. A etapa científica era o culminar de um processo que havia passado pelas fases religiosa e filosófica. Todavia, a verdade é que a fé é uma das experiências tão autênticas quanto à arte. Nunca foi encontrado um só povo em toda a história humana que não tenha expressado algum tipo de fé. Apesar disso, a religiosidade humana tem sido considerada neurose ou fruto da ignorância. Os preconceituosos antirreligiosos do século 19 ficariam perplexos diante do declínio do racionalismo e do ateísmo estéril e do crescimento do misticismo religioso nas sociedades industrializadas de hoje.

As principais interpretações hostis à religião, especialmente ao cristianismo podem ser resumidas. Ludwig Feuerbach, sob o agnosticismo metafísico de Kant e o ceticismo de David Hume, entendeu o fenômeno da fé como essencialmente psicológico. Feuerbach afirmava que Deus fora inventado pelo homem. Deus seria uma espécie de projeção psicológica de todas as qualidades mais excelentes do ser humano. A consciência de Deus é autoconsciência. Não foi Deus quem criou o homem, mas foi o homem que criou a divindade. Já Sigmund Freud, o pai da psicanálise, escreveu uma obra chamada O Futuro de Uma Ilusão. Nela Freud esboça suas críticas à religião. Para Freud a religião era uma neurose desenvolvida pela sublimação dos instintos; Deus não passa da projeção da figura do pai. O religioso é uma espécie de “doente da alma”. Outro crítico feroz da religião foi Karl Marx. Rejeitando o judaísmo e posteriormente o cristianismo, o ateu Marx definiu a religião como o “ópio do povo”. Para ele, o fenômeno religioso era apenas uma arma dos opressores, útil para a manipular as classes dominadas. Suas ideias estão presentes no Brasil. No caso de Friedrich Nietzsche, filho de pastor, a ideia era oposta! Ele via a religião como uma defesa dos fracos contra os fortes. O ódio de Nietzsche pelo cristianismo se expressava na crítica de que a fé cristã elogia o pobre, o humilde, o necessitado e destina o rico e poderoso à condenação; a religião era, portanto, uma arma ideológica dos miseráveis e inferiores contra os aristocratas e superiores.

Mesmo que o cenário contemporâneo de estudo da religião tenha se libertado dos preconceitos do século 19, a realidade prática não mudou. Vale mencionar a abordagem do filósofo e pastor Sören Kierkegaard que ajudou a tirar a religião da marginalização cultural. Ele via a religião não limitada à lógica. Kierkegaard definia o estágio superior da experiência humana como o estágio religioso. Só se chega a ele por meio da intuição e da fé. O homem crê em Deus não pela razão, mas apesar dela. Defendia uma fé subjetiva e apaixonada. A verdade religiosa era de natureza distinta das verdades objetivas da ciência. Todavia, era uma verdade tão sublime que o crente ousa morrer por ela, enquanto que por uma lei da ciência, por exemplo, ninguém jamais morreria. Outro destacado estudioso do assunto foi Rudolf Otto. Entendia a categoria do sagrado como o numinoso, isto é o inefável, indefinível, além da razão. A relação com o sagrado traz uma dualidade: a repulsa e a fascinação. A repulsa é o mysterium tremendum, que envolve o aspecto de temor do sagrado; o fascínio, mysterium fascinans diz respeito à bondade, à graça e a tudo que atrai no sagrado. Poderíamos ainda mencionar Mircea Eliade, Paul Tillich e Schleiermacher, que ajudaram a reconhecer o fenômeno religioso como autenticamente humano e essencialmente positivo.

A discussão sobre esse assunto é vital, pois hoje o problema principal do mundo é religioso. Os adeptos da “religião elitista” do ocidente, o humanismo secular, há muito trabalham para “varrer” o cristianismo do Ocidente. As ideias de amor, perdão, graça, repressão voluntária das paixões más, e o valor intrínseco do ser humano, vindas de Jesus de Nazaré, incomodam e perturbam a sociedade pós-cristã que adora o “deus-dinheiro” e vê grandes perdas financeiras caso a consciência ética cristã tenha espaço e prejudique as “indústrias da morte, do sexo e da alienação”. Centenas de milhares de cristãos foram assassinados por sua fé nas últimas décadas. A atenção da mídia é mínima! Todavia, o cenário está complicado. Esquerdistas são simpáticos ao islamismo! Que ironia! Mas seculares ateus estão tendo confronto com o mundo islâmico, desde as charges da revista Charlie Hebdo. Acostumados a vilipendiar o cristianismo, agora há um grande impasse. Como será o conflito dessas duas religiões, que não seguem as palavras do homem de Nazaré: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso!” (Mt 5:43-46).

Está na hora da sociedade, principalmente a classe dominante brasileira, discutir religião e tirá-la da marginalidade. Chega de preconceito! Basta de intolerância. Seguir cegamente ideias falidas do século 19 que semearam ideologias de muitos milhões de mortos, não dará em nada. Não se pode tapar o sol com a peneira, principalmente.

Afinal, como diz a Bíblia:
“Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” (Ec 3:11). “Diz o tolo em seu coração: ‘Deus não existe’. Corromperam-se e cometeram atos detestáveis; não há ninguém que faça o bem” (Sl 14:1).

 

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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