Por que o aborto tem sido cada vez mais rejeitado?

O que os atores Jack Nicholson e Jim Caviezel, o tenor Andrea Bocelli, a atriz Patricia Heaton e o cantor Justin Bieber têm em comum além de serem celebridades? Os cinco são radicalmente contra o aborto

Luiz Sayão - 24/07/2018 11h09

Não faz muito tempo, a Comissão da Câmara dos Deputados decidiu por uma posição antiaborto (novembro de 2017), afirmando que a vida começa na concepção e mantendo a possibilidade de aborto em caso de estupro, de risco de morte da gestante e na gestação de anencéfalos. Nesse debate polarizado e acalorado, a nova tendência surpreendeu a muitos. Talvez não seja tão difícil entender o que acontece.

A defesa da prática do aborto, tão generalizado na Europa, na América do Norte, na Ásia e no mundo todo, tem sido cada vez mais questionada. Ainda que seja passível de debate cada ponto mais sensível da discussão da lei, permanece a ideia de que o aborto é indesejável, evitável, e que as mulheres merecem mais do que o aborto, especialmente numa época de tantos avanços da humanidade.

Falando sobre essa questão tão delicada, o que os atores Jack Nicholson e Jim Caviezel, o tenor Andrea Bocelli, a atriz Patricia Heaton e o cantor Justin Bieber têm em comum além de serem celebridades? Os cinco são radicalmente contra o aborto.

Com eles, milhões se posicionam em sintonia com essa perspectiva. Por que essa tendência em muitos lugares no mundo? Alguns pontos que têm influenciado esse posicionamento consciente devem ser considerados:

  1. O valor da vida humana é inegociável.
  2. Não é possível comprovar que um feto não é vida de um ser humano.
  3. As decorrências psicológicas para as mulheres que decidiram pelo aborto são trágicas e marcadas por muito sofrimento.
  4. A cifra assustadora e lamentável de 56 milhões de abortos por ano no mundo (cerca de dois por minuto).
  5. A crença ingênua e comprovadamente equivocada de que a liberação do aborto traria uma diminuição da prática.
  6. O viés unilateral presente na grande mídia, pouco aberta ao diálogo com uma posição diferente.
  7. Os possíveis interesses econômicos por trás da prática.
  8. A queda da natalidade do chamado primeiro mundo e suas decorrências econômicas e sociais. A indisposição de pagar uma conta das pessoas que têm um estilo de vida considerado inconsequente.

Muitas vezes, tem sido sugerido que uma pessoa contra o aborto é alguém pouco esclarecido que possui fortes convicções religiosas. Isso não reflete a realidade. Existem até grupos ateus e seculares contra o aborto atualmente, um deles é o Pro-life Humanists. Além disso, muitos dos religiosos que militam contra o aborto se tornaram religiosos recentemente, porque não conseguem mais viver sob o sistema vazio de valores de hoje; estão em busca de alternativas de compreensão da vida e da realidade. Há uma busca efervescente de fé e espiritualidade. Parece que a proposta secular tem se mostrado insuficiente para muita gente. Portanto, essas pessoas querem encontrar uma perspectiva que valoriza e celebra a vida em todos os seus aspectos. Para elas, a vida é sagrada, desde o seu início. É preciso compreender o fascínio bíblico pela vida, que explica a dificuldade de aceitar o aborto com naturalidade.

Voltando a atenção para as Escrituras, ali vemos que Deus é descrito como o Deus que dá a vida e tem poder sobre ela (Deuteronômios 30:15; 1 Samuel 2:6; Neemias 9:6). No Antigo Testamento há uma teologia da vida. Não há lugar para o aborto. O contraste “vida-morte” marca muito a proposta do texto. O primeiro pecado humano tem como retribuição o castigo da morte (Gênesis 2:17). Em seguida, o que é vedado ao homem, que deseja independência de Deus, é a árvore da vida (Gênesis 3:22-24).

Toda impureza ritual vista em Levítico está relacionada com a morte. Os animais ligados à morte (carnívoros e rastejantes) não podem ser comidos (Levítico 11). A impureza do fluxo do homem e da mulher os torna imundos (Levítico 15), pois o que era para ser vida tornou-se morte.

Toda a promessa de bênção para Israel envolve bênçãos da terra e de prosperidade, que são, em resumo, uma celebração da vida. Basta ler as decorrências da aliança de Deus com Israel em Deuteronômio 27-29 e observar como a distinção básica é bênçãos para a vida e ameaças que significam morte.

O salmista louva a Deus e clama ao Senhor por causa daquilo que representa a diferença entre a vida e a morte (por exemplo, o Salmo 30). A renovação das promessas de Deus, por ocasião do exílio, está claramente apresentada por Jeremias: “Ponho diante de vocês o caminho da vida e o caminho da morte” (21:8).

No Novo Testamento, esse contraste permanece, mas, o enfoque é distinto. A qualidade de vida sobe! A vida que está em vista é de qualidade plena e superior é a vida eterna (João 3:16). O próprio Jesus é “o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Já a morte absoluta descrita no Novo Testamento também é a morte eterna.

Como se vê, o Deus da Bíblia cria, enfatiza, valoriza e concede vida e vida em plenitude (João 10:10). Quem crê tem vontade de viver e razão para celebrar a vida. A vida é um valor importante por causa da perspectiva bíblica da realidade. Segundo as Escrituras, o ser humano é imagem de Deus (Gênesis 1:26), o que lhe dá significado e dignidade intrínseca. Possui origem e propósito definidos e caminha teleologicamente para um destino, sob o domínio divino. O ser humano sobrevive após a morte e terá de prestar contas de sua vida a Deus, o justo juiz. Neste sistema bíblico, faz muito sentido viver. Mas, se isso é deixado de lado, o sistema desmorona e passamos a caminhar na direção de uma cultura “da morte”. Infelizmente, muitos têm escolhido esta opção, mas quando encontram o valor da vida, mudam de ideia e de caminho.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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