O justo viverá da fé – Habacuque 2:4 no texto original

"Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá"

Luiz Sayão - 13/03/2018 11h15

Uma das frases mais significativas da soteriologia neotestamentária, o justo viverá da fé, tem sua origem num pequeno livro profético da Bíblia Hebraica. Habacuque 2:4 é com certeza um dos versos mais importantes da tradição teológica da igreja cristã. Na verdade, trata-se também de um texto extremamente importante para a compreensão do próprio livro de Habacuque, muito provavelmente escrito entre 605-597 a.C. Podemos dizer que este é o texto central da obra do profeta que viu a queda de Judá na ocasião da invasão neobabilônica. Todavia, ainda que pouca gente possa imaginar, Habacuque 2:4 apresenta muitas dificuldades de compreensão nos manuscritos antigos. No entanto, se queremos fazer boa teologia, é necessário que estudemos com atenção as questões linguísticas e teológicas. Vejamos duas alternativas de tradução conhecidas:

“Eis o soberbo! A sua alma não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá”. (Versão Revisada – Juerp)

“Escreva: O perverso está cheio de orgulho; os desejos dele não são bons; mas o justo viverá pela sua fidelidade”.

O texto hebraico de Habacuque (Texto Massorético) diz literalmente no início do versículo: “eis que está inchada”. O verbo traduzido por essa frase é ‘uplâ, aparece na forma plural e não apresenta sujeito. Aparentemente o sujeito caiu da frase, conforme alguns estudiosos. Todavia, por causa do contraste com a outra metade do versículo, observa-se que é necessário que o verbo seja uma referência ao ímpio. Portanto, poucos exegetas duvidam de que o sentido contextual aqui parece ser, em sintonia com as melhores traduções: “o perverso está cheio de orgulho (envaidecido)”.

A próxima frase do verso diz literalmente: “sua alma não é reta nele”. É muito provável que o termo “alma” (nephesh), tão rico semanticamente no hebraico, seja uma referência às intenções do perverso. Portanto, “seu desejo não é correto” (ou seja, é mau) capta adequadamente a ideia do original.

A parte final do versículo fala do justo. O texto diz literalmente que ele “viverá” pela sua “fidelidade”. É mais difícil especificar o significado exato de “viverá” aqui. Dentre as várias alternativas, no contexto, cabe a ideia mais adequada de “ser preservado, sobreviver”, já que estamos falando da invasão dos babilônios em Judá. No entanto, a frase pode englobar significado mais amplo.

Mas, no caso do termo central do texto, “fidelidade” (’emûnâ) há uma grande discussão. Muitas traduções clássicas preferem traduzir o termo hebraico por “fé” (Revisada, Corrigida, Atualizada). A origem da opção “fé” está ligada ao enfoque hermenêutico dado pela antiga versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX) (pistis). Esse texto grego depois foi citado no Novo Testamento e utilizado no contexto da igreja primitiva. É usado por Paulo (Romanos 1:17; Gálatas 3:11) e pelo autor de Hebreus (10:38). Naturalmente, cada autor neotestamentário faz uso do texto de Habacuque em um novo contexto, adaptando-o para uma nova situação de argumentação. Portanto, é absolutamente plausível e compreensível que o enfoque na fé seja um pouco distinto da ideia original de Habacuque. Isso é até mesmo necessário.

Não há dúvida de que no contexto original de Habacuque o sentido do termo é “fidelidade”. Na verdade, nem existe qualquer contradição da ideia, afinal de contas “fidelidade” é a maneira concreta de expressão da “fé”, termo mais abstrato. O pensamento hebraico trabalha com ideias concretas de modo que fé e fidelidade são as duas faces de uma só realidade.

Todavia, há outra diferença significativa na Septuaginta, onde aparece um sufixo pronominal de primeira pessoa no substantivo traduzido por “fidelidade”. Parece ter havido apenas uma confusão entre duas letras hebraicas muito semelhantes: um vav e um yod. Assim, em vez de be’emûnatô (Texto Massorético) a Septuaginta leu be’emûnatî. Essa pequena diferença faz com que o texto seja lido de modo diferente. Apesar de pequena, a mudança altera significativamente a mensagem central do profeta. Conforme a Septuaginta, o justo é preservado pela fidelidade de Deus, e não por mostrar fidelidade para com Deus. Assim, a Septuaginta traz: O justo viverá pela minha fidelidade. Essa mudança não é acompanhada pelas citações do Novo Testamento. Todavia, a citação de Hebreus 10:38 apresenta “o meu justo”, uma variação que chama a atenção. Mas, não considera a ideia de o justo viver por “minha fidelidade” (de Deus).

Diante de todas essas informações e da peculiaridade dos contextos, devemos seguir o texto hebraico e traduzi-lo à luz das observações mencionadas; assim, chegamos à seguinte tradução:

Escreva: o perverso está cheio de orgulho; o desejo dele não é correto; mas o justo será preservado pela sua fidelidade/fé.

No uso paulino do texto de Habacuque, pode-se entender a relação entre os dois contextos. Assim como no juízo divino, na ocasião da queda de Judá, o justo seria preservado por sua fé comprovada (fidelidade de quem crê), agora também, com a vinda do Messias Jesus, o mesmo princípio que atuou em toda a história bíblica está em ação. A vida, em seu sentido pleno, tem prosseguimento e continuidade através da confiança e dependência de Deus, manifestada concretamente. Nesse novo contexto, Paulo, para enfatizar o princípio prefere nem explicitar o pronome (desnecessário), afirmando que o “justo viverá pela fé”.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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