O Salmo 23 e os seus segredos especiais

A grande maioria dos cristãos pouco entende a tão conhecida poesia de Davi

Luiz Sayão - 14/08/2017 10h10

O Salmo 23 e os seus segredos especiais / Foto: Pixabay

Se existe um texto consagrado na memória evangélica é o Salmo 23. É difícil encontrar gente que não conheça o citado e amado salmo. Até mesmo muitos descrentes já ouviram falar do famosíssimo salmo do pastor. Milhares de evangélicos são capazes de recitá-lo de cor e salteado em variadas versões bíblicas. Surpreendentemente, porém, a grande maioria dos cristãos pouco entende a tão conhecida poesia davídica milenar.

Trechos tradicionais como “unges a minha cabeça com óleo”, “o meu cálice transborda” e “preparas uma mesa na presença dos meus inimigos (adversários)” raramente são interpretados de modo correto, pois falta a compreensão adequada do contexto linguístico, histórico e literário.

O propósito desta reflexão é trazer um auxílio para a compreensão desse salmo que expressa grande confiança no SENHOR.

Em primeiro lugar é preciso reconhecer que o Salmo 23 divide-se em duas partes: A primeira vai do verso 1 ao 4, e apresenta o Eterno (YHWH) como um pastor de ovelhas; a segunda envolve os versos 5 e 6, e mostra o Eterno metaforicamente na figura de um anfitrião. Trata-se de uma questão fundamental para a compreensão dos versículos finais do texto. Algumas pessoas interpretam o salmo incorretamente, pois entendem que há uma única metáfora em todo o salmo: a figura de Deus como pastor de ovelhas. Isso não é possível. Não se pode entender que a ovelha tem a cabeça ungida no verso 5, muito menos teria o mamífero lanoso condições de beber um “cálice (de vinho) transbordante”.

A primeira parte do salmo merece algumas considerações exegéticas importantes. Uma tradução literal do verso 3 diria “faz voltar a minha alma”; algumas traduções dizem “refrigera”. É indispensável considerar que o salmista está se referindo especificamente a uma ovelha. Além disso, “nephesh” (alma) em hebraico pode significar “fôlego”, “pessoa”, “eu”, “força” e até “garganta”. Portanto, a ideia do texto é “restaurar ou renovar as forças” da ovelha. O texto quer dizer que o pastor, que é o Eterno, é quem renova o vigor da ovelha. Essa é a ideia correta do texto no original.

Na mesma linha de raciocínio, as “veredas da justiça” indicam os caminhos certos e seguros que a ovelha deve trilhar. A ideia é principalmente de direção para a vida. E o mais extraordinário é que Deus assim age por causa da sua honra, isto é, do seu nome (Êxodo 32.12-14), o que garante o seu pleno cuidado amoroso.

O fato é que a ovelha corria perigo de morte ao andar pelos vales escuros e acidentados da geografia da Terra de Israel, especialmente quando pensamos nos montes de Judá. É por isso que o verso 4 menciona o “vale da sombra da morte” (que aqui nada tem de ‘passagem para a vida eterna’); trata-se de um vale escuro e perigoso que pode levar a ovelha à morte. Essa ovelha não precisa temer o mal, ou melhor, o perigo, porque será “protegida” pela vara e pelo cajado do pastor. O sentido do verbo “nacham” no texto não é “consolar” (tradução tradicional) no seu aspecto psicológico, mas sim “proteger”!

Tendo em vista o quadro das duas metáforas, é possível entender corretamente os versos finais. Os versos 5 e 6 falam agora de um anfitrião que recebe o hóspede honrado de modo cerimonialmente adequado. É provável que esteja em vista uma refeição de um sacrifício de gratidão. O verso 5 começa falando de “uma mesa preparada na presença dos inimigos”. Que imagem estranha! A ideia é que o Eterno serve o seu fiel amado num banquete especial “na cara dos inimigos”. É como se Deus “mimasse” o seu servo numa farta mesa perante o olhar invejoso e perplexo dos inimigos. É uma espécie de “santa pirraça”!

Em seguida surge no texto a menção da unção com óleo. A unção com óleo aqui não tem significado de “cura” nem de “poder espiritual”, como popularmente se sugere muitas vezes. Trata-se de uma unção de honra. Está relacionada com a ideia de deferência destinada a pessoas importantes. Era o caso de sacerdotes e reis que eram ungidos (Êxoso 28.14; 1Reis 19.16) no Israel do Antigo Testamento, o que indicava escolha divina e posição honrosa perante a comunidade. Quando alguém digno de honra era recebido em uma casa, a saudação incluía “uma unção com óleo”; foi por essa razão que Jesus repreendeu Simão por deixar de “ungir a cabeça (de Cristo) com óleo” (Lucas 7.46). Portanto, o que Salmo 23.5 quer dizer é que o Eterno recebe o seu fiel como um anfitrião de uma refeição especial, tratando-o com honrarias.

Algumas versões contemporâneas captam bem a ideia. A NVI diz “tu me honras, ungindo a minha cabeça com óleo”. Nesse mesmo contexto, o anfitrião “enche de vinho a taça do hóspede amado”. Isso significa que Deus enche de alegria transbordante (vinho) o seu fiel amado, além de honrá-lo de maneira especial. Há quem sugira que o cálice transborde de “azeite”. A ideia seria: “Tu me honras, ungindo minha cabeça com óleo de um cálice transbordante”. Parece uma sugestão interessante, mas não é recomendada pela maioria dos estudiosos. De qualquer modo, aqui o salmo fala da provisão e cuidado divinos amáveis que Deus dispensa ao fiel.

O verso 6 traz o desfecho do salmo falando da “bondade e da misericórdia” constantes do Eterno. A inclusão do verso tem a ver com a tremenda confiança que o salmista tem em Deus. Ele está absolutamente seguro de que Deus lhe destinará bondade e misericórdia. O mais interessante, porém, é que a palavra hebraica “hesed”, geralmente traduzida por “misericórdia”, é de fato o amor da aliança de Deus com Israel. Trata-se de um amor inabalável; o termo traz uma dualidade semântica: é amor e fidelidade ao mesmo tempo. É o amor fiel (leal) de Deus. Isso significa que Deus “cumprirá o que ‘assinou’”, movido por seu amor! Ainda mais surpreendente é o verbo geralmente traduzido por “seguir” ou “acompanhar”. “Radaph” em hebraico é literalmente “perseguir”, “correr atrás”. O verbo só é usado dessa forma aqui em Salmo 23.6! A confiança do salmista é tamanha que ele está absolutamente seguro de que a bondade e o amor leal do Eterno vão correr atrás dele! Não o deixarão escapar jamais! É uma “santa paranoia”.

Com esse quadro em vista, a frase final é melhor compreendida. O texto diz “habitarei na casa do SENHOR por longos dias”. Não se sabe com certeza se a forma hebraica traduzida por “habitarei” deve ser derivada de “yashab” (habitar) ou de “shûb” (voltar). Os especialistas debatem a questão. Isso, porém, pouco altera o sentido da frase. O importante é que o salmista está tão confiante e firme na graça do Eterno que ele manifesta o verdadeiro desejo de cultuar. Ele quer permanecer (habitar ou voltar sempre) na casa do SENHOR (no templo) enquanto viver. Jamais poderá deixar de adorar a Deus. A experiência do amor leal de Deus produz verdadeira adoração! É simplesmente extraordinário.

Lembre-se sempre: Para amar a Palavra de Deus e obedecer-lhe é necessário entender exatamente o que Ele quis dizer!


Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).