O lado hebraico da Reforma Protestante

Precisamos enxergar e viver a vida, sob a perspectiva hebraica, numa atitude de encantamento diante do sagrado e do divino

Luiz Sayão - 29/08/2018 10h52

A Reforma Protestante, que mudou a história da Europa do século 16, foi um retorno à Bíblia. Sola Scriptura foi o grito de Lutero, acompanhado por Calvino, Zuínglio e outros da grande reforma religiosa. Essa herança construiu história, na Europa Central e Setentrional, na América do Norte, e mais recentemente no Brasil e na América Hispânica.

Na história da Reforma, porém, pouco se conhece de como os reformadores puderam ter acesso outra vez ao texto bíblico a partir das línguas originais. Rompendo com a tradição medieval e o domínio do latim, os reformadores tiveram que pesquisar as Escrituras além da Vulgata Latina, buscando o texto mais próximo do original possível. O estudo do Novo Testamento grego e da Bíblia hebraica teve prioridade na tradição protestante desde o início.

Como foi possível estudar e entender o hebraico antigo? Era necessário aproximar-se dos judeus e do judaísmo.

Essa proximidade pouco comentada, que contrasta com o caminho antissemita da cristandade, marcou história e há muito produziu saudável proximidade entre cristãos e judeus. O movimento é conhecido como filossemitismo. A busca do texto hebraico do Antigo Testamento fez de eruditos judeus mestres de reformados.

Estudiosos da época como Johannes Reuchlin confirmam como as obras e o conhecimento de hebraístas como David Kimhi e Elias Levita foram fundamentais para o aprofundamento nas Escrituras hebraicas. Isso foi reconhecido até mesmo pelo próprio Martinho Lutero. Essa proximidade e terreno comum criaram uma certa simpatia entre as comunidades judaicas e protestantes, o que se verá no continente americano posteriormente. Os Estados Unidos tornam-se um exemplo dessa boa convivência. Os reformadores entenderam que o edifício teológico, eclesiástico e religioso construído no contexto da época tinha se afastado muito da proposta original do cristianismo. O movimento, portanto, era de um retorno às raízes, da primazia da Palavra, da valorização do cristianismo primeiro. E não há como fazer isso sem redescobrir o hebraico, a língua, a cultura e a cosmovisão presentes no texto sagrado.

Mas, a pergunta deve ser feita: O retorno da Reforma foi suficiente? O mundo greco-romano erigido sobre a tradição primeira foi suficientemente afastado para que se pudesse encontrar as raízes dos primeiros discípulos de Jesus?

Cinco séculos depois a pergunta ainda é válida, principalmente em nossa realidade brasileira, quando a confusão reina nos ambientes evangélicos ligados ao Antigo Testamento e a elementos judaicos. A Igreja está confusa: vai do antissemitismo explícito ao movimento judaizante irrefletido e místico. Como lidar com a questão? Que caminho devemos tomar? Enquanto muitos na Igreja brasileira reproduzem um universo mágico, comum em nossa cultura, apropriando-se de símbolos judaicos, ao mesmo tempo, a distância da cosmovisão hebraica e bíblica prevalece no contexto evangélico. Já que a maioria dos evangélicos brasileiros não encontra plena identidade nas tradições protestantes europeias e norte-americanas, a busca da identidade evangélica nacional revestiu elementos de nossa cultura brasileira de símbolos judaicos. Infelizmente, o caminho tem se mostrado pouco promissor.

Diante desse quadro, vemos que é tarefa necessária do protestantismo brasileiro (e mundial) redescobrir o mundo hebraico que fundamenta a Escritura, nossa Regra de Fé. A Reforma não foi completa. Muito do mundo grego e do império romano obscureceram aquilo que definia e delineava o cristianismo primitivo, a comunidade dos discípulos de Jesus (Yeshua). A elaboração mais recente, da teologia bíblica e os estudos comparativos entre a cosmovisão hebraica e a visão de mundo grega, tem sido útil para entender a questão.

De fato, a maneira grega de ser e pensar moldou muito da alma ocidental, e também nossa teologia e cristandade. Parece que ainda hoje nossa teologia cristã do ocidente tem mais sintonia com Platão e Aristóteles do que com Moisés, Amós e João. Nossa referência, muitas vezes, parece ser Roma e Atenas, e não Jerusalém. Chegou a hora de caminhar novamente na direção de um filossemitismo e um filo-hebraísmo. Há muito a ser aprendido, e esse entendimento é especialmente valioso.

Alguns estudiosos desenvolveram considerações muito úteis para o entendimento da questão. Destaque para o norueguês Thorleif Boman, autor de Hebrew Thought Compared with Greek (W.W. Norton & Company, New York, 1960), o estudioso francês Claude Tresmontant, autor de Essai sur la pensée hébraïque (Éditions du Cerf, Paris, 1953), e o norte-americano Max Kadushin, com as obras Organic Thinking (Jewish Theological Seminary, New York, 1938) e The Rabbinic Mind (Jewish Theological Seminary, New York, 1952). O trabalho mais recente é o do israelense Yoram Hazony, The Philosophy of Hebrew Scripture (Cambridge: Cambridge University Press, 2012).

O fato é que o mundo grego e o hebraico são distintos e, às vezes, bem opostos. Talvez, a primeira distinção importante seja a priorização judaica do tempo. Os hebreus construíram uma visão de mundo na qual o tempo é a dimensão fundamental, já a perspectiva helênica valorizava o espaço. Há muitos vocábulos na Bíblia Hebraica para referir-se ao tempo. O foco é o agir de Deus na história humana, categoria predominante do pensamento bíblico. Essa preponderância do tempo desdobrou-se no valor da Palavra. Por isso, para o judeu era importante ouvir (Deuteronômio 6:4), enquanto que, em geral, para o grego, ver sempre foi essencial. Esse era o mundo das esculturas e da arte visual. Ideia e teoria, por exemplo, são palavras nossas que vêm do grego e significam ver. Na visão grega de mundo há um certo desprezo da linguagem, vista como referência inferior. Platão, por exemplo, buscava a ideia pura, pois só através dela seria possível alcançar a verdade. A abstração aristotélica também não se distancia disso. Na Grécia antiga dedicar-se à contemplação e ao mundo das ideias era considerada a mais nobre atividade. No mundo hebraico, a Palavra é tudo. Davar (palavra) também significa coisa e fato. A Palavra une e faz referência tangível à realidade. Deus cria o mundo falando. Sua revelação é o seu NOME. Sua verdade é mediada por sua Palavra. O próprio Jesus é o VERBO de DEUS (João 1:1).

Os gregos são os pais da filosofia. A busca pela “essência” das coisas por meio da razão marcou o gênio helênico. O mundo hebraico é diferente. A realidade é complexa e é criação de Deus. O homem deve reverenciar o Criador e viver em santidade. A criação é bela e não é inferior por ser material. A realidade integrada e complexa deve ser celebrada à luz da revelação do Criador. Por isso, a abstração marca o mundo grego, mas, a Bíblia hebraica não é sistemática, filosófica ou teológica. São textos vivos e dinâmicos que delineiam a relação do Criador com o homem. Thorleif Boman, com razão, afirma: A mente hebraica é “dinâmica, vigorosa e apaixonada, e de vez em quando até explosiva; enquanto a mentalidade grega é estática [harmônica], serena, moderada”. Por isso, o hebraico fala concreto enquanto o grego pensa abstrato. A ideia pura para o grego é o caminho para alcançar a verdade, por isso, lidar com a vida é usar abstrações, modelos que supostamente organizam a realidade. Essa abstração pressupõe um movimento de distanciamento da realidade, de construção de um mundo que não toca o cotidiano. Já a linguagem bíblica é concreta e sensorial; em vez de abstrações, descreve a experiência vivencial do homem em sua relação com Deus. Lutero chamou isso de “energia especial” no vocabulário bíblico. Essa linguagem sensorial dá vida, movimento e um colorido especial ao texto bíblico e à literatura hebraica antiga. Por exemplo: irar-se é “arder as narinas”, ver é “levantar os olhos”, o orgulhoso é aquele que tem “dura cerviz”, revelar ou apresentar algo é “falar aos ouvidos”, preparar-se é “vestir os lombos”.

Com esse enfoque, a realidade bíblica é dialética, em oposição ao reducionismo lógico aristotélico, que tanto tem dominado a teologia. O texto sagrado não se incomoda em afirmar realidades aparentemente opostas (complementares). Deus é um ser infinito, mas pode encarnar num bebê em Belém da Judeia. Deus pode ser um e três ao mesmo tempo. A Bíblia é Palavra de Deus e foi escrita por homens. Somos salvos pela fé e ao mesmo tempo por obra exclusiva do Espírito Santo. Deus é totalmente soberano e nós somos livres e responsáveis por nossos atos.

Enquanto o racionalismo limitado conduz à fragmentação e à polarização do texto bíblico, o enfoque dialético hebraico permite a convivência tranquila e complementar de vários temas importantes das Escrituras. Um realinhamento “hebraico” nos daria mais humildade, menos desejo de “dominar o texto” e mais tolerância e fraternidade. Precisamos enxergar e viver a vida, sob a perspectiva hebraica, numa atitude de encantamento diante do sagrado e do divino, e aceitar que Deus é simplesmente inefável, constatando que a realidade é entrelaçada e complexa. A Bíblia hebraica mantém muitas tensões, sem que isso traga nenhum prejuízo a Deus ou ao mundo criado. Na história do Êxodo, quando Moisés diz ao faraó que deixe o povo ir adorar a Deus, o faraó endurece o coração, mas também diz que Deus endurece o coração do faraó. Nenhuma crise para o pensamento hebraico. Grande complicação para o mundo grego.

É útil observar alguns contrastes fundamentais entre as duas perspectivas aqui:

PERSPECTIVA GREGA

  • DEUS É (ONTOLOGIA)
  • O HOMEM/RAZÃO DOMINAM
  • ANTROPOCENTRISMO/ESTADO
  • DUALISMO: ESPÍRITO/MATÉRIA
  • UNIVERSO ESTÁTICO (REFLEXÃO)
  • CONTEMPLAÇÃO/PASSIVIDADE
  • HARMONIA, COMPOSTURA
  • DESCRIÇÃO LINEAR/RACIONAL
  • PREDOMÍNIO DO ESPAÇO
  • DOMÍNIO/CONTROLE

PERSPECTIVA HEBRAICA

  • DEUS AGE (VALOR DA HISTÓRIA)
  • DEUS É O SENHOR SOBRE TUDO
  • TEOCENTRISMO/TRIBO-FAMÍLIA
  • MATERIAL/ESPIRITUAL ENTRELAÇADOS
  • UNIVERSO DINÂMICO (VIDA/AÇÃO)
  • AÇÃO TRANSFORMADORA
  • MOVIMENTO/VIDA/EMOÇÃO
  • POESIA/METÁFORAS/NARRATIVAS
  • PREDOMÍNIO DO TEMPO
  • SUBMISSÃO/REVERÊNCIA

Se quisermos construir uma Reforma plena, um retorno completo às Escrituras, por meio de uma teologia e de uma Igreja mais viva e apaixonada por Deus e sua graça, e se desejarmos experimentar uma intensa sintonia entre reflexão e espiritualidade e com humildade crescer em tolerância e união em Cristo, é preciso revisitar o mundo hebraico, a matriz fundamental que estrutura e fundamenta o pensamento bíblico. Caso estejamos prontos, quem sabe tenhamos uma nova “Reforma”? Quem sabe venhamos a redescobrir o lado hebraico da Reforma!

Que o Eterno nos abençoe.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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