Heresia alienante, problema constante

Grupos estranhos, heréticos e proselitistas têm surgido e se multiplicado confundindo e perturbando o povo de Deus

Luiz Sayão - 09/05/2018 17h06

Nas últimas décadas muitos livros evangélicos e seculares foram escritos para esclarecer o problema dos grupos religiosos demasiadamente místicos e alienantes. Grupos estranhos, heréticos e proselitistas têm surgido e se multiplicado principalmente em países como os EUA, o Brasil, a Coreia do Sul e o Japão. Quem lê e ouve a respeito do assunto, imagina que isso é coisa recente, uma aflição dos últimos tempos, uma
enfermidade de nossa época. Não é bem o caso. Os dias do apóstolo Paulo foram marcados por problemas semelhantes e igualmente lamentáveis.

A conhecida carta de Paulo aos colossenses foi escrita entre os anos 60-62. A maioria dos estudiosos entende que Colossenses faz parte das epístolas da prisão. Juntamente com Efésios, Filipenses e Filemom, a carta teria sido enviada por Paulo a partir de Roma, onde Paulo ficou preso, conforme o testemunho de Atos 28.

Colossenses, muito semelhante a Efésios em diversas trechos, tem como alvo auxiliar uma igreja que Paulo não visitara ainda. O ambiente religioso diversificado, místico e efervescente estava trazendo problemas sérios para a nova igreja. O perfil dessa heresia colossense tem sido objeto de estudo de comentaristas e exegetas especializados. Vale a pena dar atenção ao assunto, pois sua pertinência é inconfundível, e sua atualidade, surpreendente.

Os místicos estranhos de Colossos fizeram um verdadeiro sincretismo de tendências religiosas distintas e criaram confusão e desunião na igreja cristã. Tinham influência da religião greco-romana dominante, do judaísmo, de uma espécie de gnosticismo incipiente e das religiões de mistério que proliferavam na Ásia Menor no primeiro século.

Corajosamente, Paulo orienta a igreja de Colossos e confronta o ensinamento prejudicial e equivocado, exortando o povo de Deus a permanecer firme na fé. Isso pode ser percebido em alguns versos da carta: “Antes vocês estavam separados de Deus e, na mente de vocês, eram inimigos por causa do mau procedimento de vocês. Mas agora ele os reconciliou pelo corpo físico de Cristo, mediante a morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação, desde que continuem alicerçados e firmes na fé, sem se afastarem da esperança do evangelho, que vocês ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão debaixo do céu. Esse é o evangelho do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (Colossenses 1:21-23). “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo” (Colossenses 2:8).

Mas, afinal de contas, que perigo a heresia colossense representava? O problema era de fato sério? O que pode ser dito? A pesquisa tem mostrado que a nova tendência teológica herética de Colossos era um grupo que parecia ter experiências espirituais extraordinárias.

Tais experiências os colocava num nível superior acima dos demais. Influenciados por uma cosmovisão do tipo gnóstica, eles entendiam que havia vários níveis de distanciamento entre Deus e o homem. Era necessário galgar esses degraus por meio de experiências místicas ascéticas para chegar a um nível superior. Esse distanciamento enfraquecia o valor de Cristo e de sua obra redentora. Foi por esse motivo que Paulo combateu o esvaziamento de Cristo, proposto pelos místicos locais.

Cristo é suficiente e enche toda a plenitude (o espaço entre o céu e a terra). Vejamos alguns textos importantes:

“… pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia. Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude” (Colossenses 1:16-19).

“Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e, por estarem nele, que é o Cabeça de todo poder e autoridade, vocês receberam a plenitude. Nele também vocês foram circuncidados, não com uma circuncisão feita por mãos humanas, mas com a circuncisão feita por Cristo, que é o despojar do corpo da carne. Isso aconteceu quando vocês foram sepultados com ele no batismo, e com ele foram ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos” (Colossenses 2.9-12).

O tipo de espiritualidade do grupo de Colossos os fazia sentir-se superior, provocando divisão e discriminação na igreja. A decorrência prática era séria. Os prejuízos eram teológicos, éticos e comunitários. Todavia, não faltou criatividade no sincretismo colossense. O texto de Colossenses 2:9-12 fala até de circuncisão. Por que o assunto é levantado? Por incrível que pareça, a heresia colossense misturava elementos
do judaísmo em sua criatividade religiosa. Estranhamente, esse judaísmo vinha acompanhado de um misticismo mágico, principalmente ligado à influência de espíritos maus, também chamados de “princípios elementares”.

Tendo consciência desse cenário, não é difícil entender alguns versículos importantes do capítulo 2:

“Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo. Não permitam que ninguém que tenha prazer numa falsa humildade e na adoração de anjos os impeça de alcançar o prêmio. Tal pessoa conta detalhadamente suas visões, e sua mente carnal a torna orgulhosa. Trata-se de alguém que não está unido à Cabeça, a partir da qual todo o corpo, sustentado e unido por seus ligamentos e juntas, efetua o crescimento dado por Deus. Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, porque, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: ‘Não manuseie!’, ‘Não prove!’, ‘Não toque!’? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos” (Colossenses 2.16-22).

Os hereges legalistas passaram a vigiar a liberdade cristã da igreja e a exigir que eles se abstivessem de alimentos (Lv 11) e de bebidas. Além disso, exigiam também que as festas religiosas judaicas fossem observadas. Todavia, a questão era mais complexa. Acreditava-se que os princípios elementares (potestades espirituais) tivessem poder sobre certas datas. Portanto, a obediência às festas não envolvia apenas ideias
judaicas, mas também o temor pagão dos espíritos maus. Assim, a exigência legalista de regras era muito clara e incisiva. Paulo deixa claro que isso era ensino humano. Eles ensinavam que apenas crer em Cristo era insuficiente. Se os cristãos não fossem legalistas e não “respeitassem” as potestades, teriam problemas.

A pergunta que surge é esperável: Com que autoridade eles faziam isso? É simples! Visões espirituais determinavam o tom da verdade. Os místicos alienantes afirmavam que participavam de um culto de nível superior: a adoração de anjos. Não se tratava de adoração feita aos anjos (o genitivo do grego deve ser lido como subjetivo), mas sim da adoração que os anjos faziam. Eles diziam que adoravam no nível angelical, junto com os anjos. Nessas reuniões místicas surgiam as visões que lhes “autorizava” a dizer o que afirmavam. Tais visões eram contadas detalhadamente e serviam de referência de espiritualidade e autoridade.

Paulo foi inequívoco e direto ao condenar aquela tendência perigosa e destruidora para a igreja primitiva. Ele argumenta que Jesus triunfou plenamente sobre os espíritos, que não precisavam mais ser temidos. “Tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz” (Colossenses 2:15).

Além disso, o apóstolo deixa claro que aquela espiritualidade era doentia e revelava problemas não resolvidos do conflito contra a carne:
“Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne” (Colossenses 2:23).

Em dias teologicamente incertos e confusos, é necessário voltar a ler Colossenses com atenção. É muito atual. Heresia alienante, problema constante. Não é difícil constatar um legalismo aprisionador em certos ambientes evangélicos; rituais judaizantes mistificados também estão presentes. A ênfase exagerada no poder dos espíritos maus aliada a um desinteresse pela centralidade da cruz de Cristo pode ser percebida com facilidade. De fato, a religiosidade alienante voltada para experiências extravagantes e a valorização indevida de anjos em alguns contextos são alguns dos problemas encontradiços nos dias de hoje. Esses equívocos precisam ser confrontados com a sábia e decisiva palavra inspirada de Paulo aos colossenses.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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