Fim do mundo? Só depois dos confins da terra!

A comunidade evangélica se vê em turbulência diante dessa discussão com frequência

Luiz Sayão - 25/09/2017 09h20

Fim do mundo? Só depois dos confins da terra! Foto: Pixabay

Se existe um tema que mexe com a cabeça e com as emoções de todos é o fim do mundo! O Apocalipse e o Armagedom já conquistaram até o cinema. É mais do que compreensível! A comunidade evangélica se vê em turbulência diante dessa discussão com frequência. Nos últimos anos, muitos têm procurado vaticinar a volta de Cristo e o fim dos tempos. A combinação de dados astronômicos com uma leitura bíblica inadequada, associadas a elementos do contexto judaico, têm trazido todo tipo de previsão. É preciso estudar o tema com atenção e muito tato.

A Bíblia deixa claro que a esperança final de quem crê nas Escrituras é a segunda vinda de Jesus Cristo, nosso Senhor. Essa expectativa tão destacada e enfatizada no Novo Testamento apresenta algumas características muito definidas:

1. A volta de Cristo será física e real (At 1.11; Ap 1.7). Não é uma utopia ou mera vinda psicológica (no coração de cada um).

2. A Bíblia fala de um milênio (Ap 20.1-6), de uma batalha entre o bem e o mal (Ap 16.13-16) e de um juízo final (Ap 20.11-15).

3. Haverá sinais que a precedem: fome, guerras, terremotos, sinais nos céus e falsos profetas (Mt 24; Mc 13; Lc 21).

4. Muito sofrimento terá lugar nesse momento da história. Virá a Grande Tribulação (Mt 24.21).

5. Acontecerá o que a Bíblia chama de arrebatamento da igreja (1Ts 4.13-17).

6. Um grande desvio da fé virá: a grande apostasia (1Tm 4.1-5; 2Ts 2.3). Ao mesmo tempo, haverá um aumento espantoso de pecado e maldade no mundo (Mt 24.12).

7. O evangelho será pregado a todas as nações (povos, etnias) (Mt 24.14).

8. Surgirá o homem do pecado, o Anticristo (2Ts 2.3-10).

9. Será o momento da salvação de Israel (Rm 11.25-27).

Ao observar essas características ligadas à volta de Jesus, é importante enfatizar que devemos dar atenção a esses sinais, segundo a orientação do próprio Jesus (Lc 21.28-31). O tema não é irrelevante. E muita coisa digna de atenção tem acontecido na história recente:

1. Pela primeira vez o evangelho, de fato, pode alcançar todas as tribos da terra pelo esforço missionário da igreja de Cristo (somente neste século).

2. Além disso, ao mesmo tempo vê-se um aumento da maldade e da libertinagem no mundo enquanto uma cristandade apóstata também é fato.

3. O povo de Israel está de volta em sua terra, ao mesmo tempo em que a fraternidade entre judeus e cristãos bíblicos nunca foi tão forte, e muitos judeus passam a seguir o Messias Jesus.

4. A intolerância e a perseguição contra os cristãos alinhados com as Escrituras têm se intensificado nas últimas décadas. Os regimes marxistas, os países secularizados e os estados islâmicos colecionam milhares de cristãos perseguidos, aprisionados e mortos nas últimas décadas. Sinais físicos no céu e na terra também podem ser constatados. Todavia, apesar de tantos elementos que apontam para o dia da redenção, é preciso ter cuidado e ouvir o próprio Jesus, em Mateus 24.36:

Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai.

Não é correto tentar adivinhar a data da volta de Cristo. Isso não faz sentido. Só por uma análise rápida do que vimos até agora, sabemos que isso não acontecerá até que seja manifestado o “homem do pecado”, o Anticristo. Também o evangelho ainda não chegou a todas as nações (tribos e etnias) da terra. Por isso, o fim ainda não veio. Ainda devemos esperar um antagonismo cada vez maior contra o povo de Deus (Tribulação) e contra Israel (Zc 12.9-14 – profecia pós-exílica), que alcançará sua salvação (redenção – geulah).

A pergunta que se levanta é o que devemos fazer no sentido escatológico da palavra, enquanto o Reino de Deus não chega de maneira plena e definitiva. A resposta está no começo do Novo Testamento. O fato é que a escatologia bíblica não se dirige apenas para o futuro, ela também é presente. Por exemplo: vários anticristos têm surgido pelo mundo (1Jo 2.18), mas haverá o Anticristo no futuro; a tribulação já era realidade no primeiro século, mas haverá uma grande tribulação futura. Essa escatologia bíblica é também uma escatologia inaugurada, realizada. Afinal, o Reino de Deus já está entre nós (Lc 17.20-21). Há uma tensão dialética entre a espera do Reino pleno e futuro e a celebração e a caminhada no Reino já presente.

Pensando nisso, vemos que no início do primeiro evangelho se destacam de modo especial os capítulos de 5-7. Neles encontramos um resumo do ensino de Jesus sobre o Reino de Deus. É uma coletânea que resume o que Jesus compartilhou com seus discípulos à beira do mar da Galileia. O assunto é a chegada do Reino de Deus. Há ali o conhecido Sermão do Monte, que tanto impactou a vida de cristãos e não cristãos. Gandhi e Dostoiévski, por exemplo, confessaram um profundo respeito pelo Sermão do Monte e foram tremendamente atingidos por suas declarações.

Jesus abre suas mensagens tão conhecidas falando sobre as bem-aventuranças. O termo usado em Mateus é makarios, que tem o significado de “feliz” e “bem-sucedido”, tradicionalmente traduzido por bem-aventurado. Na verdade, o termo makarios é usado por Jesus no contexto do anúncio da chegada do Reino de Deus. Esse Reino é entendido a partir da aliança que Deus fizera com Davi no Antigo Testamento (2Sm 7). O Reino implicava na devida submissão a Deus e do reconhecimento de sua soberania e poder. A expectativa indevida da época é que o Reino seria conquistado pela força e por meios militares. Jesus surpreende os seus ouvintes ao anunciar um Reino de Deus que começa no coração, por uma transformação espiritual radical que tem efeitos permanentes.

Assim, esse Reino já presente deve nos levar a fazer do mundo um lugar melhor, a confrontar o erro com os valores do Reino e a anunciar a salvação que chega com a vinda do Reino. É bom destacar que o Reino tem desdobramentos peculiares que fazem toda a diferença. O enfoque de Jesus em Mateus está em contraste com a espiritualidade mística do paganismo e distancia-se do legalismo limitador de grande parte da religiosidade da época, problemas que continuam a prejudicar a espiritualidade de diversas pessoas em todo o mundo.

Por isso, a vida do discípulo de Jesus assume um perfil único e desafiador, perfil radical em seus contornos de compromisso com Deus. O ensino de Jesus é que devemos ser “Sal da Terra e Luz do Mundo”. É hora de fazer diferença na realidade à nossa volta. Não vale a pena continuar tentando descobrir quando será o fim do mundo. Afinal, o fim só virá quando o evangelho alcançar os confins da terra (Mt 14.14; At 1.8). Para que isso aconteça, a igreja precisa focar na missão, precisa ser sal e luz.


Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).