Como Satanás aparece no Antigo Testamento

A compreensão das referências a Satã no Antigo Testamento é muito importante para nos dar um entendimento mais amplo das Escrituras

Luiz Sayão - 31/07/2018 15h25

Satanás é um dos temas mais enfatizados e discutidos em nossos dias. No entanto, nem sempre as especulações fundamentam-se na Bíblia.

O que diz então a Bíblia sobre Satanás? Como ele é visto no Antigo Testamento em contraste como o Novo Testamento? Que papel Satã desempenha na religião antiga de Israel? Como se desenvolve a revelação bíblica a respeito de Satanás? Pretendemos, aqui, discorrer sobre o assunto de modo mais profundo.

O substantivo hebraico satan que deu origem também ao verbo da mesma raiz, tem o sentido de adversário, contrário, opositor e inimigo nos textos de 1 Reis 5:18; 11:14,23-25; Números 22:22,32; 1 Samuel 29:4; 2 Samuel 19:23.

No Salmo 109:6, o sentido do termo é acusador, e quando aparece com o artigo, como em Zacarias 3:1,2; Jó 1:6; 2:1 e 1 Crônicas 21:1, a ideia é a de um rival, fiscal ou Satã. Há seis ocorrências do verbo e 23 do substantivo. Dessas referências a maioria não trata da figura de Satanás.

O texto de Números 22:22,32, por exemplo, usa o termo para se referir à figura do mensageiro enviado por Deus (ml’k yhwh) que se coloca à frente de Balaão para impedir o seu caminho.

Em 1 Samuel 29:4 Davi também é chamado de satan (adversário) dos filisteus. Já em 2 Samuel 19:23 o termo se refere a Abisai, no episódio quando Davi poupa o rebelde Simei. Em 1 Reis 5:18 o rei Salomão reconhece que Deus o livrou de ter inimigos (satan).

Essa mesma ideia de inimigo militar reaparece (1 Reis 11:14,23,25) quando Hadade e Rezon são mencionados como adversários de Salomão. Já no Salmo 109:6, o termo está em paralelo com râshâ‘, palavra hebraica que se refere ao ímpio, perverso, num contexto jurídico, e tem o sentido de acusador.

As passagens bíblicas do Antigo Testamento que falam de Satanás como ser pessoal são poucas: alguns textos de Jó (1:6-9,12; 2:1-4,6-7), de Zacarias (3:1,2) e de 1 Crônicas (21:1). Além desses textos, é preciso incluir aqui a narrativa da Serpente do Éden em Gênesis 3.

Para um tratamento adequado desses textos será valioso abordá-los historicamente. Não há dúvida de que os textos de Zacarias e Crônicas são pós-exílicos. No caso de Gênesis e de Jó é preciso definir um ponto de partida, pois não há concordância absoluta sobre o período histórico da elaboração final do texto. No caso de Jó, a situação é difícil. Samuel Terrien mostra a heterogeneidade literária e teológica de Jó apontando para o pano de fundo patriarcal, a linguagem, a presença de um chefe edomita e a citação dos caldeus como nômades. É bem possível que o livro tenha origem antiga e tenha sido trabalhado literariamente, pelo menos em grande parte, em torno do século 6 a.C. O livro de Gênesis também mostra sinais de redação editorial final posterior e indefinida. Sua teologia é avançada e complexa.

O relato de Gênesis 3 tem algumas peculiaridades do ponto de vista literário. Não tem paralelos próximos no Oriente Próximo antigo, apresenta uma narrativa distinta, é rico em simbolismo e não tem paralelos na própria Bíblia (o animal fala, e Eva não estranha o fato). Na verdade, no texto, o narrador não procura identificar a serpente com Satanás ou com um anjo maligno. Ela é um animal que Deus mesmo havia criado (3:1). Todavia, vale mencionar que no desenrolar teológico israelita, houve uma associação clara entre os dois elementos, Satã e a serpente.

No livro apócrifo de Sabedoria de Salomão 2:23,24 (século 2–1 a.C.) podemos ler: “Ora, Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o tornou imagem de sua própria natureza. A morte, porém, por inveja do Diabo entrou no mundo, e a experimentarão os que a ele pertencem” (Bíblia Vozes).

No Novo Testamento a conexão é explícita: “O grande dragão foi lançado fora. Ele é a antiga serpente chamada diabo ou Satanás, que engana o mundo todo. Ele e os seus anjos foram lançados à terra” (Apocalipse 12:9 – NVI).

A relação da serpente com o mal apresenta possíveis paralelos muito provavelmente com o monstro do caos, com as religiões de fertilidade de Canaã e ou ainda com algum elemento demoníaco explícito do paganismo. Mesmo que o texto deixe claro que a serpente não é um ser independente de Deus e faz parte da Criação, o caráter da mesma é descrito como perverso. Ela se aproxima de Eva, pondo em dúvida a palavra divina; em seguida induz a mulher à desobediência contra o Criador, incita o desejo de ser como Deus em Eva, de modo que, por fim, é castigada. Fica, portanto, claro porque as tradições judaica e cristã viram a figura de Satã por trás da serpente. Todavia, deve ser ressaltado que o texto deixa claro que Deus não é o autor direto do mal ético; não permite uma perspectiva dualista e conta com a liberdade de escolha humana, rejeitando uma postura determinista.

Nos dois primeiros capítulos do livro de Jó há muitas referências a Satanás. Ali ele aparece conversando com Deus, e dessa conversa ele sai com a autorização de colocar o piedoso Jó à prova, provocando-lhe sofrimento, o que o afastaria de sua fidelidade para com Deus. O que chama a atenção inicialmente é o fato de Satã apresentar-se diante de Deus entre os “filhos de Deus”, ou seja, os anjos. Aparentemente, ele é aqui apenas mais um dos anjos divinos. Não é um ser essencialmente mal. Ele até poderia ser considerado como alguém que acusa os pecadores diante de Deus e até como quem traz sofrimento ao homem, mas não como um ser pecador ou mal-intencionado, e muito menos como um opositor de Deus.

O principal problema surge quando se pretende saber se Satanás vem à presença de Deus como intruso ou não. Será que ele aparece dentro de um grupo do qual faz parte ou não? Por que Deus pergunta de onde ele vem? Trata-se do pedido de um relatório comum ou pede o Criador explicações da presença de Satã ali? Trata-se de uma questão aberta! Além disso, deve-se destacar também o fato de que Satã chega questionando a Deus, duvida da piedade de Jó, termina o livro sem razão e não aparece para desculpar-se por suas acusações infundadas. Aqui, já se delineia uma visão de que o caráter desse ser angelical não é tão bom assim. Todavia, fica muito claro que ele ainda não pode ser descrito como um opositor de Deus, especialmente pelo fato de que ele nunca age independentemente de Deus. Não há nenhum sinal de atitude autônoma.

No livro de Zacarias Satã volta a aparecer. Zacarias é um profeta pós-exílico, contemporâneo de Ageu, e o seu livro pode ser datado em 520 a.C. Estamos aqui no período persa, quando a cultura judaica já estava sofrendo impacto do pensamento dualista do povo persa. O texto de Zacarias 3:1,2 é muito conciso na sua apresentação da figura de Satã. Trata-se da quarta visão de uma série de oito. Satã aparece para acusar o sumo sacerdote Josué, estando à sua direita. Não há muitos elementos novos aqui, mas podemos destacar algo significativo. O contexto é de purificação cerimonial (individual ou do povo), e Satanás aparece como acusador, mas Deus o repreende. Esse fator aumenta já um elemento antiDeus na figura de Satã. Evidentemente, ele ainda está sob o controle total de Deus e deve ser visto apenas como um promotor, mas o elemento da repreensão merece consideração aqui. Parece já haver aumentado um pouco mais a ruptura entre Deus e Satanás na religião de Israel.

Somente em Crônicas vamos encontrar um quadro mais perverso de Satã. O texto de 1 Crônicas 21:1 é uma reelaboração de 2 Samuel 24:1. Em Samuel é Deus que está irado com Israel e incita Davi a levantar o censo do povo. Como se pode ver, trata-se de um enfoque no Deus soberano que é responsável pelo bem e pelo mal.

Em Crônicas, texto posterior a Zacarias, Satã é usado indubitavelmente como nome próprio, sem artigo, como o autor da instigação ao recenseamento feito por Davi. Aqui vemos Satã como um ser mal do ponto de vista ético, instigando um ser humano para agir de forma contrária a Deus. Isso sugere que a reelaboração do texto possa ter ocorrido em função do novo enfoque de Satã no novo contexto, especialmente resolvendo o problema de se atribuir algum tipo de questionamento da atitude divina, pois Deus incita (em Samuel) Davi ao mal e depois o castiga.

Outros autores procuram explicar o problema, argumentando que em Crônicas vemos o elogio da figura de Davi, que aqui teria sua responsabilidade minimizada em função da atuação satânica. Apesar de se considerar Satã como personagem, um ser mau que age contra Deus, ainda não se pode aceitar aqui que ele esteja livre da subordinação a Deus.

A compreensão das referências a Satã no Antigo Testamento é muito importante para nos dar um conhecimento mais amplo das Escrituras. É muito valioso entender como a revelação progressiva, dentro de cada contexto, se apresenta. Esse entendimento deve nos ajudar a interpretar o texto bíblico com cuidado e cautela e nos auxiliar a construir uma teologia equilibrada baseada no texto bíblico, devidamente compreendido.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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