Rei dos reis e Senhor dos senhores – o Salmo 2

Este salmo discute o papel do rei de Israel e seu Deus no contexto das nações

Luiz Sayão - 23/01/2018 11h00

Um dos salmos teologicamente mais importantes do saltério hebraico, se é que podemos falar assim, é o Salmo 2. Elaborado num contexto da aliança davídica (2 Samuel 7), o salmo segundo discute o papel do rei de Israel e seu Deus no contexto das nações. Para entender o que está em jogo, é preciso retomar o raciocínio do antigo oriente próximo sobre a questão. Um rei não é meramente uma figura política no sentido secular do termo. O rei é um representante divino, um “filho de Deus”, como é o caso do Egito, por exemplo. Assim, o reinado dos monarcas antigos tem a ver com sua religião.

Todavia, surge um problema teológico nesse contexto. Se é verdade que o Deus de Israel, YHWH, é o grande Deus, o Deus acima dos outros deuses, como pode sua nação estar em posição inferior? Por isso, é necessário que o rei ligado a YHWH (SENHOR) reine de fato. Daí surge a esperança messiânica, quando o Ungido (Messias) de YHWH haverá de reinar para que o povo de Deus seja veículo de justiça e paz permanente (Isaías 2, Miqueias 4). As nações devem se submeter ao reinado do rei messiânico. Diante disso, vale a pena prestar atenção ao salmo:

1 “Por que se amotinam as nações e os povos tramam em vão? 2 Os reis da terra tomam posição e os governantes conspiram unidos contra o Senhor e contra o seu ungido, e dizem: 3 ‘Façamos em pedaços as suas correntes, lancemos de nós as suas algemas!’. 4 Do seu trono nos céus o Senhor põe-se a rir e caçoa deles. 5 Em sua ira os repreende e em seu furor os aterroriza, dizendo: 6 ‘Eu mesmo estabeleci o meu rei em Sião, no meu santo monte’. 7 Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: ‘Tu és meu filho; eu hoje te gerei. 8 Pede-me, e te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade. 9 Tu as quebrarás com vara de ferro e as despedaçarás como a um vaso de barro’. 10 Por isso, ó reis, sejam prudentes; aceitem a advertência, autoridades da terra. 11 Adorem o Senhor com temor; exultem com tremor. 12 Beijem o filho, para que ele não se ire e vocês não sejam destruídos de repente, pois num instante acende-se a sua ira. Como são felizes todos os que nele se refugiam!” (Nova Versão Internacional).

De fato, o Salmo 2 é um salmo real, isto é, dedicado ao rei de Israel. Possivelmente deve ter sido composto para a coroação de Davi. Há muitos paralelos do salmo com a passagem de 2 Samuel 7:8-16. O salmo retrata, pelo estilo e pela linguagem, o período monárquico antigo. Sua estrutura é facilmente identificável:

Dos versículos 1-3 – A rebelião das nações contra Deus e o seu ungido;
Dos versículos 4-6 – O desprezo divino e o anúncio do seu rei;
Dos versículos 7-9 – O rei davídico anuncia o decreto divino;
Dos versículos 10-12 – Advertência às nações para submeterem a Deus e seu representante.

Nesse contexto, o rei é denominado “filho” de Deus, conceito compartilhado por outras culturas do antigo oriente próximo, particularmente pelos egípcios. Há uma nítida riqueza literária no texto. É muito provável que os distintos discursos do salmo fossem recitados liturgicamente no culto do antigo Israel.

Com o pano de fundo apresentado, podemos entender o v. 7, quando o Deus de Israel chama o rei ungido (v. 2) de seu filho, aquele que o representa devidamente. Em seguida, vemos que este rei deverá ter as nações como herança, e os reis da terra devem submeter-se ao seu domínio. Nessa manifestação de reverência e reconhecimento de autoridade e de poder, surge o v. 12, muitas vezes mal interpretado, até por causa das traduções divergentes.

A versão Almeida 21, seguindo a linha de outras versões tradicionais, diz: “Beijai o filho, para que ele não se irrite, e não sejais destruídos no caminho; porque em breve sua ira se acenderá. Bem-aventurados todos os que confiam nele” (confrontar também versões Corrigida e Atualizada de Almeida). Mas, outras versões como a Bíblia de Jerusalém e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje apresentam traduções alternativas distintas.

O problema principal do v. 12 está na palavra do texto original bar. O termo quer dizer “filho” em aramaico e não em hebraico. O salmo aparentemente é antigo, da época da monarquia e traz no próprio texto, v. 7, a palavra comum que significa “filho” em hebraico: ben. Além disso, deve-se notar também o problema do significado do v. 11b: causa estranheza o “regozijai-vos com tremor”. O verbo paralelo de 11a é “servir”. Diante disso, muitas alternativas foram propostas.

Algumas versões antigas leem o texto como bôr, isto é, pureza, ou como bar, “puro”, sugestão seguida por Símaco e por Rashi. A Septuaginta não ajuda muito, pois traz uma ideia bem diferente: “Atentai para a disciplina/instrução”. Alguns eruditos sugerem emenda no texto hebraico (Bertholet, 1908). Alguns o fazem com base em ditografia (erro decorrente de repetição de consoante), ou em haplografia (erro decorrente de ausência de consoante), ou ainda em metátese (erro decorrente de transposição de consoantes). Outros ainda sugeriram uma nova divisão e uma revocalização do Texto Massorético. Holladay (1978), seguindo a posição particular de Dahood, traduz por “tu que esqueces o túmulo”. A Tradução em Português Corrente (Portugal) parece basear-se na exegese de Dahood e traduz por “ó mortais”.

No entanto, uma das emendas mais seguidas (Westermann) está presente na Bíblia de Jerusalém. O “tremam e se ajoelhem diante dele” da Nova Tradução na Linguagem de Hoje parece depender dessa leitura.

A tradução da Bíblia de Jerusalém diz nos vv. 11-12a: “Servi a Iahweh com temor, beijai seus pés com tremor”.

Para chegar a uma tradução tão diferente foi feita uma modificação razoável no Texto Massorético. No entanto, a BJ mantém a ideia de reverência devida ao rei.

Apesar das dificuldades do texto e da criatividade dessa exegese, é improvável que uma mudança radical resolva o problema do texto. A liberdade de troca de consoantes hebraicas é muito grande. As outras alternativas não são suficientemente convincentes. Será que é razoável manter o tradicional “filho”? Parece que sim. Há algumas razões pelas quais a posição tradicional deve ser escolhida:

  1. Não é improvável que o aramaico tivesse sido usado no século X a. C, mesmo que isso não seja encontrado em documentos.
  2. Há um uso semelhante de bar em Provérbios 31 (Keil/Delitzsch).
  3. Como o salmo é destinado às nações o autor pode ter usado uma palavra aramaica propositadamente, especialmente por ser este um salmo literariamente complexo.
  4. O autor pode ter usado bar em lugar de ben para evitar o desajeitado encontro de bilabiais causado pela conjunção pen. Assim em vez de usar ben pen, o autor preferiu bar pen.

Assim, devemos reafirmar o texto “Beijem o filho”, conforme as versões tradicionais, a Almeida 21, a Tradução Ecumênica da Bíblia (Prestai homenagem ao filho) e a Nova Versão Internacional. Assim, entendemos que o filho é o rei messiânico, o que se encaixará perfeitamente no Novo Testamento, quando o rei Jesus, que reinará para sempre, é o filho de Deus. Lembre-se disso e glorifique a Deus quando ouvir novamente a composição musical mais gloriosa de todos os tempos: o Messias de Haendel.

 

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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