O apóstolo Paulo: Pouco seguido, muito perseguido

Os adeptos do judaísmo não gostam de Paulo. Os liberais quase o crucificam. As feministas o veem como machista recalcado. Até alguns conservadores o rejeitam

Luiz Sayão - 09/01/2018 10h17

O apóstolo Paulo é o primeiro e o maior teólogo da fé cristã. Para muitos estudiosos, é o “fundador” do cristianismo do ponto de vista teológico. Basta ler Romanos para entender a razão da sugestão. Não podemos nos esquecer de que Paulo é o autor das cartas: Gálatas, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Romanos, Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom, e 1 e 2 Timóteo e Tito (contestado por autores mais liberais). Faz-se necessário dizer que o pensamento de Paulo é a principal fonte de teologia propriamente dita, cristologia elaborada, hamartiologia e soteriologia do Novo Testamento, sem falar em sua escatologia. É fato conhecido que o protestantismo clássico sempre considerou a justificação pela fé e a reconciliação do homem com Deus por meio de Cristo o âmago da teologia paulina. O erudito alemão Adolph Harnack considerava Paulo a principal fonte da história do dogma.

Apesar disso, o ex-perseguidor da fé cristã, tem sido talvez o mais perseguido e desprezado cristão de todos os tempos. Os adeptos do judaísmo não gostam de Paulo: eles o rejeitam mais do que o próprio Jesus! Os liberais quase o crucificam. As feministas o veem como machista recalcado. Até alguns conservadores chegam a dizer em certos textos: “Isso é opinião de Paulo”. No entanto, sem Paulo não há cristianismo neotestamentário. Vamos dedicar algumas linhas ao grande mestre, ex-perseguidor e, depois, perseguido. Afinal quem era Paulo? E o que se tem escrito a seu respeito?

O nome de Paulo é Shaul, nome provavelmente dado pelo fato de ele pertencer à tribo de Benjamim. Contra a crença popular, ele sempre conservou seu nome hebraico Shaul, e seu nome latino Paulo. O cidadão romano Paulo nasceu em Tarso, antiga capital da Cilícia, centro de cultura grega, com cerca de cem mil habitantes. Paulo cresceu na tradição judaica religiosa, muito bem instruído na Torá hebraica (At 26:4-8). O grande apóstolo cresceu aprendendo o grego, o hebraico, o aramaico (língua comum entre os judeus na época), e tornou-se também fazedor de tendas (At 18:3). Ainda bem jovem, Paulo foi estudar com o famoso rabino Gamaliel, neto de Hilel (At 22:3). Como fariseu, Paulo tornou-se um estrito seguidor da lei e da tradição judaica (Fp 3:5).

Perseguidor do cristianismo primitivo (At 8:3), Paulo converteu-se a Cristo na estrada de Damasco (At 9:1-19). Em sua conversão, ele recebeu sua chamada apostólica para pregar o evangelho ao mundo gentílico (At 9:15). Isso deve ter ocorrido em 32-35, e foi seguido por uma viagem à Arábia (Gl 1:17) e a Damasco (2 Co 11:32). É possível que no ano 35 ou 38 Paulo tenha visitado Pedro em Jerusalém (At 9:26-30; Gl 1:18). Depois, o apóstolo foi para as regiões da Cilícia da Síria (Gl 1.21), onde ficou cerca de dez anos (35/38-45/46). Sua segunda visita a Jerusalém deve ter ocorrido em 46 (Gl 2:1).

A partir do ano 46 começam as grandes viagens missionárias do apóstolo dos gentios.

  • A primeira viagem de Paulo deve ter ocorrido entre 46-48. Teve início em Antioquia da Síria e é descrita em Atos 13-14. Acompanhado de Barnabé e de João Marcos, Paulo evangeliza Chipre e a região da Galácia. Essa viagem parece ter sido a causa do Concílio de Jerusalém, realizado no ano 49 para resolver o problema da relação entre crentes judeus e gentios (At 15:1-35).
  • A segunda viagem missionária ocorre entre 49-52. Com Silas, Paulo evangeliza e fortalece as igrejas cristãs formadas na primeira viagem na Ásia Menor. Diversas cidades da região da atual Turquia, e da Macedônia (Filipos, Tessalônica e Bereia) e da Acaia (Corinto e Atenas) são visitadas por Paulo (At 15:36-18:18). Filipos e Corinto, onde Paulo permanece por cerca de um ano e meio, merecem particular destaque.
  • A terceira viagem aconteceu provavelmente entre os anos 52-57, sendo descrita em Atos 18:23-20:6. A base do trabalho de Paulo nessa terceira viagem é Éfeso, onde ele ficou por cerca de três anos. De Éfeso, a partir da escola de Tirano, Paulo evangeliza gente de “todo o mundo”. Em Éfeso são escritas as cartas aos coríntios.

No final da terceira viagem, Paulo viaja para Jerusalém por ocasião da Páscoa. Lá é preso, acusado pelos líderes religiosos da cidade de ter levado o gentio Trófimo ao templo. Depois de passar dois anos preso em Cesareia, capital romana da Judeia (57-59), o apóstolo apela para César e é levado para Roma. A viagem é interrompida pelo naufrágio em Malta. Depois de passar o inverno nessa ilha mediterrânea, impossibilitado de navegar por razões meteorológicas, Paulo vai finalmente para Roma no começo da primavera do ano 60. Em Roma (At 28) fica numa prisão domiciliar, possivelmente até o ano 62. Pela desistência de seus acusadores, Paulo acaba sendo libertado e prossegue seu ministério apostólico. Assim, chegamos ao fim do livro de Atos.

O período que vai do final de Atos até a morte do apóstolo é difícil reconstruir. Algumas fontes clássicas como a epístola de Clemente, o Cânon Muratoriano e até o livro apócrifo dos Atos de Pedro falam de uma viagem à Espanha (Rm 15:24-28). Além disso, as epístolas pastorais sugerem uma intensa atividade paulina nesse período. A partir de várias referências das epístolas pastorais sugere-se que, entre os anos 62-67, Paulo tenha estado em Roma, Espanha, Creta, Mileto, Colossos, Éfeso, Filipos, Nicópolis e Roma novamente na ocasião de sua morte por martírio em Roma no ano 67.

Tendo sofrido releituras profundas desde o iluminismo e o liberalismo, Paulo chega a ser reescrito quase que inteiramente por muitos teólogos contemporâneos. Mais recentemente, uma nova abordagem da teologia paulina tem sido divulgada no mundo acadêmico. É conhecida como “nova perspectiva”. Três estudiosos estão ligados a esta interpretação de Paulo: Krister Stendahl, E. P. Sanders e James D. G. Dunn. O britânico Dunn, já publicado em português, denominou o novo enfoque de “nova perspectiva”. O movimento teve origem em 1961, com o erudito sueco K. Stendahl, que reagiu contra a interpretação luterana tradicional de Paulo. Em 1976 Stendahl, seguindo a sugestão de Schweitzer, defendeu a ideia de que a doutrina da justificação pela fé não podia ser o centro da mensagem paulina de salvação (Paul Among Jews and Gentiles).

Em 1977, E. P. Sanders, redefiniu o enfoque paulino, afirmando que o judaísmo palestino não acreditava em justificação pelas obras, rediscutindo o significado da aliança do Antigo Testamento. Conforme Sanders, a aliança do Sinai é a grande dádiva de Deus para Israel. O acesso a ela não foi conquistado por Israel, mas foi dado pela graça divina. Os israelitas continuarão na aliança se permanecem nela. Quando pecam, devem arrepender-se e oferecer sacrifícios. O conflito entre cristianismo e judaísmo não era fé e obras, pois no primeiro século o judaísmo não era uma religião de justificação por obras, mas sim uma religião de graça. Logo, esse não era o problema do judaísmo para Paulo. Segundo ele, Paulo considerava a participação em Cristo muito mais importante que a justificação, o que desloca essa doutrina para uma posição periférica.

De modo semelhante, James Dunn amplia a mesma abordagem em sua obra sobre a teologia de Paulo. Dunn afirma que o judaísmo antigo conhecia a justificação pela fé e nela cria, tendo como único deslize o exclusivismo que rejeitava os gentios. Dunn pensa que Paulo desejava apenas uma igualdade soteriológica entre judeus e gentios diante de Deus. Portanto, a justificação pela fé não tem centralidade na teologia paulina; é antes uma estratégia pragmática para facilitar sua missão aos gentios.

A nova perspectiva afirma que a teologia paulina tem sido mal interpretada pelo enfoque da Reforma, e não traduz o verdadeiro pensamento do apóstolo. Segundo o novo enfoque, Paulo nem se percebia numa nova religião (o que faz sentido), mas entendia que tinha a tarefa de levar o judaísmo para os gentios. Os questionamentos de Paulo sobre a lei devem ser lidos apenas sob a luz de sua missão aos gentios.

Esclarecendo: os argumentos de Paulo contra as “obras da lei” não diziam respeito à questão da justificação pela obediência à lei, mas simplesmente aos emblemas judaicos de identidade que separavam os judeus dos gentios. Tal avaliação, ainda que muitos dos adeptos da nova abordagem discordem, entenderá que há duas vias soteriológicas na história da salvação: o nomismo da aliança do Antigo Testamento é o meio de salvação de Israel, e o evangelho livre da lei é o meio divino de salvação para os gentios. A abordagem pretende suavizar o conflito judaico-cristão e desviar o embate soteriológico entre as duas perspectivas, parecendo ignorar muito do conflito perceptível tanto em Romanos como em Gálatas. A nova análise não subsiste. É muito difícil rejeitar a importância e centralidade da justificação pela fé no pensamento paulino. Além disso, não é difícil perceber a importância da graça na Bíblia Hebraica (AT), mas é pouco provável que o movimento farisaico dos dias do NT tivesse esse enfoque em vista, conforme o próprio relato dos evangelhos.

Paulo (ou Shaul) incomoda, e sempre incomodará. Tudo indica que Paulo continuará causando problemas e sendo relido a partir de novos enfoques, mas seu ensino e ênfases teológicas estão disponíveis a todos nas páginas do Novo Testamento.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

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