Amar ou gostar? Eis a questão

Pedro declarou que amava ou gostava de Jesus?

Luiz Sayão - 19/07/2017 10h35

Amar ou gostar? Eis a questão

Há muitas expressões que se tornaram “vacas sagradas” no contexto evangélico de hoje. Como a maioria sabe, essa expressão refere-se a ideias tradicionalmente enraizadas na mentalidade popular, que dificilmente podem ser mudadas em função da força da tradição. Mas, quando falamos da interpretação do texto bíblico, é necessário questionar essas “vacas sagradas”. Além disso, o maior problema é que algumas dessas ideias populares estão completamente equivocadas.

É muito provável que grande parte dos que leem estas linhas já teve a oportunidade de ouvir aulas, sermões e explicações sobre a famosa diferença entre os verbos “agapao” e “fileo”, no grego. A suposta diferença entre os dois verbos é especialmente mencionada em João 21.15-17. No texto, Jesus pergunta a Pedro: “Você me ama?” (agapao) por duas vezes, e Pedro responde que gosta de Jesus (fileo). Diante disso, Jesus desiste de exigir tanto de Pedro e lhe pergunta se o frágil apóstolo, pelo menos, gosta dele (fileo). Assim, Pedro repete o que dissera nas duas vezes anteriores: “Eu gosto” (fileo).

Nunca me esqueço de um professor de grego que conheci que afirmou que um dos maiores problemas da exposição bíblica de hoje não é não conhecer grego e hebraico, mas sim conhecer apenas – um pouco do assunto, e assim, tirar “grandes conclusões”.

Essa distinção dos termos aqui não está correta. Uma avaliação adequada de qualquer vocábulo, grego ou hebraico, em um léxico de peso e respeitável mostrará que o campo semântico de uma palavra deverá ser definido a partir de sua etimologia, da literatura em vista, do autor que a utiliza, da época em que é usada e do contexto. Portanto, nunca podemos simplesmente dizer que tal palavra do original tem um significado definido na Bíblia sem fazer uma devida pesquisa do assunto. Um bom léxico mostrará em uma sequência de números todas as nuances e variações semânticas de um determinado vocábulo.

Por isso, afirmar que agapao sempre significa amor “divino” e que fileo se refere ao amor “humano e imperfeito” não resiste aos fatos. Surpreendentemente, o controvertido Orígenes foi o primeiro a documentar a suposta distinção entre os dois termos em João 21. Outros Pais da Igreja, como Crisóstomo e Cirilo de Alexandria, negavam qualquer distinção substancial entre os termos. Além disso, tanto Agostinho como os tradutores da Versão Ítala trataram os dois vocábulos gregos sem considerá-los tão distintos.

Na verdade, a suposta importante distinção entre os dois termos em João 21 teve origem com estudiosos britânicos do século XIX, principalmente Trench e Westcott. Autores populares de comentários bíblicos como Lenski e Hendriksen contribuíram para difundir a ideia incorreta. Todavia, estudiosos mais recentes, com maior bagagem linguística, começaram a mostrar que a distinção entre os dois termos gregos não pode ser feita em João 21. Entre eles destacamos Moffatt, Bonsirven, Bultmann, Barrett, Brown, Morris, Haenchen e Beasley-Murray.

A avaliação dos argumentos responderá por si mesma (fonte principal: nota técnica da New English Translation):

1. João tem o hábito de dizer a mesma coisa, repetindo-a com uma mera variação estilística. Veja, por exemplo, o texto de João 3.3,5 e 7.34 e 13.33. Isso significa que uma variação de termos em João deve ser examinada com cautela.

2. Há 142 ocorrências do verbo agapao no NT, sendo 32 delas em João. Já fileo apresenta em João 12 ocorrências das 26 do NT. Uma observação atenciosa dos dois termos no quarto evangelho mostra que os dois são intercambiáveis. Os dois se referem ao amor de Deus pelo homem (3.16 e 16.27), ao amor do Pai pelo Filho (3.35, 5.20), falam do amor de Jesus pelos homens (11.5 e 11.3), do amor entre os próprios seres humanos (13.34 e 15.19) e do amor humano por Jesus (8.42 e 16.27). Para se ter uma ideia de como os termos são usados no evangelho de João, é importante notas que o amor que os homens têm pelas trevas é agapao (3.19) e amor do Pai pelo Filho é fileo (5.20).

3. A maioria dos estudiosos concorda que a conversa entre Jesus e Pedro foi em aramaico (talvez, hebraico). Nesse caso, não haveria distinção de palavras no contexto linguístico semítico. A conhecida versão siríaca (um tipo de aramaico) traduz os dois verbos por um só termo.

4. Quando Pedro responde sempre afirmativamente a cada pergunta, sua resposta não faria sentido se Jesus quisesse saber que tipo de amor o apóstolo Pedro tem por ele. Todavia, a maior dificuldade é que Jesus acabaria “aceitando” esse “amor inferior” de Pedro sem fazer qualquer observação relevante sobre isso no final do texto. Isso não faz sentido no contexto da restauração do nosso querido Pedro.

Diante destas observações e argumentos relevantes e objetivos, a maioria das versões bíblicas e comentários eruditos têm rejeitado a conhecida distinção popular entre os dois verbos gregos. Eles são apenas sinônimos em João 21.