A tradução da Bíblia: a herança da Reforma

Uma das principais heranças da Reforma foi dar a Bíblia ao povo

Luiz Sayão - 31/07/2017 11h32

A tradução da Bíblia: a herança da Reforma Foto: Divulgação

Cinco séculos depois de Lutero, comemoramos a Reforma Protestante com muita alegria e celebração. Uma das principais heranças da Reforma foi dar a Bíblia ao povo. A Reforma é a mãe das traduções bíblicas. Todavia, as dificuldades envolvidas numa tradução da Bíblia não são muito conhecidas. Poucos sabem como é árdua esta tarefa. A verdade é que não é possível exercer quase nenhum ministério cristão sem ter a Bíblia na língua do povo. Não seria possível pregar e ensinar sem a Palavra de Deus em nossa língua. Graças a Deus pelas vidas de Jerônimo, Ulfilas, Martinho Lutero, Louis Segond, John Wycliffe, João Ferreira de Almeida e muitos outros tradutores da Bíblia. Eles dedicaram a vida no ministério da tradução da Palavra de Deus.

Os problemas enfrentados pelos tradutores da Bíblia são enormes. Embora a tarefa pareça simples para alguns, nada pode estar mais longe da verdade! Há quem pense que basta trocar os termos da língua original pelas palavras em português para traduzir o texto sagrado. Vale a pena considerar aqui a lista de dificuldades pertinentes a esta nobre tarefa.

1. Os Manuscritos Antigos

Ao contrário do que se imagina, não existe um único manuscrito bíblico do qual se possa traduzir o texto bíblico. Deus, em sua soberania, não nos deixou o manuscrito original da Bíblia Sagrada. Na verdade, o que temos são milhares de manuscritos posteriores, cópias feitas por escribas no decorrer dos séculos. Apesar disso, estamos absolutamente seguros de que a Bíblia é o documento antigo mais bem preservado da história da humanidade.

Não há dúvida alguma de que possuímos manuscritos extremamente próximos aos originais. Mas um grande número de pequenas diferenças entre os diversos manuscritos exige uma avaliação cuidadosa dos estudiosos para que seja possível alcançar um texto mais próximo do original. Quando isso acontece, busca-se a ajuda da crítica textual que desenvolveu critérios objetivos e científicos de avaliação do texto bíblico. Com base nos resultados desses estudos criteriosos é possível tomar uma decisão correta sobre que variante textual escolher.

Portanto, todo tradutor da Bíblia tem como primeiro problema avaliar as variantes textuais dos manuscritos bíblicos e tomar decisões com base nessa avaliação. Somente após esse primeiro passo será possível fazer uma tradução fiel e mais próxima do texto original.

No caso do Antigo Testamento, escrito quase todo em hebraico, os manuscritos principais que precisam ser avaliados para uma boa tradução bíblica são o Texto Massorético, o Pentateuco Samaritano, a Septuaginta (famosa versão grega do texto do AT), a Versão Siríaca, os Targuns aramaicos e os famosos Manuscritos do Mar Morto. Já no caso do Novo Testamento, há centenas de papiros antigos, alguns códices (cópias completas do Novo Testamento) e milhares de manuscritos mais recentes.

O resultado do trabalho de crítica textual mais confiável e respeitado pelo mundo acadêmico encontra-se nas edições da Bíblia Hebraica Stuttgartensia (Antigo Testamento) e no Novum Testamentum Graece (editado por E. Nestlé e K. Aland).

2. A Complexidade da Compreensão do Texto

Os autores do texto bíblico e os escribas que fizeram milhares de cópias dos manuscritos bíblicos antigos viviam num mundo muito diferente. Falavam línguas (hebraico, aramaico e grego) que ainda procuramos compreender, pertenciam a uma cultura muito distinta e não redigiam textos conforme a expectativa moderna. Por essa razão, nem todos os textos bíblicos são tão fáceis de ser entendidos, nem mesmo pelos peritos e especialistas nas línguas originais. Às vezes, a construção da frase não segue a gramática comum da língua; em outras ocasiões, ficamos em dúvida sobre onde devemos dividir a frase (a pontuação do texto grego do Novo Testamento, por exemplo, não faz parte do original); em certas passagens bíblicas, há palavras difíceis de ser compreendidas, pois o seu significado comum não cabe no contexto.

Isso quer dizer que, mesmo depois de estabelecido o texto pelos especialistas da crítica textual, nem sempre todos os textos bíblicos serão decifrados e entendidos com facilidade. É por isso que o leitor comum, muitas vezes, já constatou que alguns textos possuem traduções diferentes em versões bíblicas distintas. A verdade é que diversos textos bíblicos admitem mais de uma tradução correta, e, em muitos casos, alguns deles exigem uma atenção especial e um trabalho cuidadoso para que sejam de fato compreendidos.

3. O Desafio da Semântica

A semântica é a ciência dedicada ao estudo do significado das palavras. As principais fontes dessa pesquisa são os dicionários e léxicos acadêmicos. Quando queremos saber o significado de um termo, procuramos um léxico. Isso não é tão difícil quando estamos pesquisando o significado de termos falados atualmente na língua portuguesa. No entanto, quando queremos descobrir o significado das palavras hebraicas, aramaicas e gregas, a tarefa é muito mais árdua. O significado exato de muitas palavras, principalmente hebraicas, ainda é um desafio para os estudiosos.

Talvez, a ideia mais comum sobre o significado das palavras seja a etimológica. Muita gente acredita que o significado de uma palavra está na sua raiz, na sua ideia original. Em muitos casos isso é verdade. No caso da palavra cefaloide, por exemplo, é fácil entender o seu significado a partir da sua etimologia. A primeira parte da palavra, cefal, vem do grego “kephalê”, que significa cabeça; já o sufixo oide expressa a ideia de forma. Assim, cefaloide significa o que tem forma de cabeça. Nesse caso, a etimologia da palavra permite-nos saber com exatidão o seu significado. Todavia, nem sempre tais associações etimológicas nos dão o significado de um termo. Há casos como o da palavra hipopótamo, na qual os radicais gregos significam literal e etimologicamente cavalo (hipos) e rio (potamos). No entanto, ninguém jamais concordará que “cavalo do rio” traduz exatamente o significado de hipopótamo.

Finalmente, descobriremos também palavras cuja etimologia até destoam do significado mais comum das mesmas. Esse é o caso da palavra “embarque”. O termo, originalmente, era usado para o ato de entrar em um barco. Todavia, hoje o termo é usado para referir-se ao embarque de um voo, ao embarque em um trem (ou no metrô). Assim, deve ficar claro que determinar o significado de uma palavra exige mais do que descobrir sua etimologia. Na verdade, é muito importante levar em consideração a importância de outros fatores fundamentais:

– O fator sociológico

O uso de uma palavra depende do uso que os falantes fazem da mesma. Na verdade, as palavras de uma língua não têm nenhuma relação intrínseca com os objetos da realidade. As palavras funcionam como etiquetas que, nós, os falantes da língua, colocamos nos objetos à volta para podermos nos referir a eles. Assim, cada língua cria suas próprias palavras arbitrariamente. Além disso, essas palavras são muitas vezes criadas independentemente de qualquer origem etimológica.

Por essa razão, para que se entenda o significado de um termo é muito importante descobrir em que sentido ele está sendo usado dentro de um texto, pois muitas vezes a sua origem ou raiz não serão úteis na determinação do seu significado.

O termo grego “logos”, por exemplo, significa principalmente palavra quando traduzia um conceito semítico do mundo hebreu, mas para os gregos a ideia básica era a de “razão”. O tradutor do Novo Testamento terá de descobrir em que sentido o autor bíblico (João 1.1) usou a palavra logos. Graças ao trabalho de exegetas e linguistas, hoje temos léxicos que trazem uma avaliação semântica ampla e detalhada de cada termo hebraico, aramaico e grego. Um léxico erudito é uma das ferramentas indispensáveis para a compreensão e a tradução dos termos bíblicos.

– O fator histórico

O aspecto sociológico da semântica leva-nos diretamente ao aspecto histórico. O uso das palavras, bem como o seu significado, sofre variação de acordo com a época em que o texto foi escrito. No caso dos estudos do AT, os estudiosos fazem distinção entre as diversas fases da língua hebraica: o hebraico arcaico, pré-exílico e pós-exílico. A verdade é que há diferença de vários séculos entre um texto e outro. Diante desse fato, não há dúvida de que a mesma palavra pode ter significados diferentes em épocas distintas.

No caso do NT, apesar de todo o texto ter sido escrito em grego, sabemos hoje que esse grego não é o grego clássico (dialeto ático). Não é possível compreender o significado dos termos gregos do NT conhecendo apenas a cultura e a língua helênica clássicas. Além de ser o grego comum (coinê), o grego neotestamentário é também um grego semitizado, ou seja, muito influenciado pela cultura e pensamento hebraicos. Somente com o conhecimento da história da cultura e das línguas bíblicas poderemos conhecer o significado das palavras da Bíblia. Isso nos ajudará a não dar a esses termos um significado não pretendido pelo autor original.

– O fator literário

O estudo aprofundado das Escrituras comprova que não podemos considerar o texto bíblico homogêneo do ponto de vista literário. Cada autor usa certos termos de maneira específica. Nem sempre a mesma palavra é usada no mesmo sentido em todos os autores. Cada autor bíblico escreve com ênfases teológicas específicas, para uma audiência determinada, num contexto histórico particular. Uma avaliação da terminologia usada por Lucas, por João e por Paulo mostra que cada um deles possui particularidades linguísticas e teológicas que precisam ser consideradas numa tradução bíblica. Além disso, é preciso enfatizar que os diversos autores bíblicos escreveram em estilos literários distintos.

A poesia hebraica, por exemplo, não se caracteriza por rima, mas sim por paralelismos. Há construções poéticas como inversões, quiasmos, acrósticos alfabéticos, aliterações etc., que dificilmente podem ser recuperadas plenamente numa tradução. Além disso, temos o problema das expressões idiomáticas e figuras de linguagem. Metáforas, símiles, sinédoques, metonímias são usadas amplamente na Bíblia. Algumas dessas figuras, se traduzidas literalmente, podem não comunicar nada ou até expressar uma ideia errada. Vale a pena citar aqui alguns exemplos:

Em Gênesis 34:30, o hebraico diz:

E disse Jacó a Simeão e a Levi: Vocês me trouxeram problemas, ao fazer-me cheirar mal entre os moradores da terra”.

Cheirar mal é uma expressão que significa odiar. O sentido aqui é atrair o ódio dos moradores da terra (região).

Em Salmos 41:9, o hebraico diz:

Até o meu melhor amigo (homem da minha paz), em quem eu confiava e que partilhava do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar”.

O significado de levantar o calcanhar contra é voltar-se contra.

4. A Peculiaridade das Línguas Bíblicas

Quando alguém tentar traduzir um livro do francês ou do inglês para o português terá uma tarefa não muito difícil. As três línguas são indo-europeias, sendo muito semelhantes em estrutura e em vocabulário. Até mesmo o inglês, língua germânica, tem cerca de metade do vocabulário formado de palavras de origem latina. Quando alguém lê uma obra erudita em inglês, por exemplo, descobre que a proporção é ainda maior, pois os termos gregos e latinos são a base do vocabulário científico e erudito de muitas línguas europeias, mesmo de muitas que não são classificadas como neolatinas. Todavia, quando se faz uma tradução do grego bíblico e do hebraico (ou do aramaico) para o português, a tarefa é muito mais difícil, pois a diferença cultural e linguística é muito grande.

A dificuldade começa pelo vocabulário das línguas bíblicas. Os vocábulos muitas vezes não possuem correspondentes adequados em português. O campo semântico das palavras é muito particular e até mesmo estranho. Especialmente no caso do hebraico, as palavras dessa língua semítica expressam conceitos bastante concretos. Ideias abstratas são raras. A expressão “fazer uma aliança”, por exemplo, é literalmente “cortar uma aliança” em hebraico. É por essa razão que é impossível fazer uma tradução totalmente literal da Bíblia. Muitas frases não teriam sentido em português.

Uma das palavras muito importantes do AT, por exemplo, é o termo “sheol”, traduzido por “hades” no grego do NT. Em algumas versões antigas, a palavra foi traduzida por inferno em quase todos os versos onde aparece. Sem dúvida, a tradução uniforme do termo não é adequada. Sheol se refere ao “mundo dos mortos”, e, em muitos contextos, fala de modo concreto da sepultura. Assim sheol (hades) pode ser traduzido, dependendo do contexto, por palavras diferentes. As possibilidades são: profundezas, morte, sepultura, mundo dos mortos e inferno.

No caso do hebraico, uma característica interessante da língua é o seu aspecto conciso. A antiga língua dos hebreus usava poucas palavras para dizer muito. Os verbos de ligação são dispensados, os pronomes pessoais estão embutidos na maioria das formas verbais e algumas preposições e sufixos de posse aparecem anexadas aos substantivos. Um exemplo disso pode ser visto no Salmo 15:2. O texto hebraico diz literalmente (sete palavras):

Andante integramente e praticante (da) justiça e falante (da) verdade no seu coração”.

Como se vê, é muito difícil entender o sentido do texto, traduzido aqui bem literalmente. Depois de traduzido adequadamente (19 palavras em português), o texto fica assim:

Aquele que é íntegro em sua conduta e pratica o que é justo, que de coração fala a verdade”.

Outra questão é o verbo do grego e do hebraico. Estamos acostumados com a ideia de tempo verbal em português. Para muitos é surpreendente descobrir que o que caracteriza o verbo no grego e no hebraico não é principalmente o tempo do verbo, mas sim o seu aspecto. Em hebraico, por exemplo, importa mais se a ação é acabada ou não do que o tempo do verbo. Em muitas passagens bíblicas somente o contexto determinará se o verbo será traduzido no futuro, no presente ou no passado. O grego conhece formas verbais peculiares e muitas vezes difíceis de serem traduzidas adequadamente. Entre elas destacam-se o aoristo, o modo optativo e a voz média do verbo.

Finalmente, precisamos destacar a grande diferença entre a estrutura sintática das línguas bíblicas e a do português. A ordem comum da frase hebraica, por exemplo, é inversa: começa com o verbo e depois traz o sujeito. As conjunções que intermedeiam palavras e orações possuem funções sintáticas muito diversificadas e podem ser traduzidas de maneira distintas. Os tradutores terão de descobrir se uma determinada conjunção está sendo usada de modo enfático, explicativo, recitativo, condicional etc. Isso exige um estudo minucioso. Somente o estudo de sintaxe de hebraico e de grego poderá revelar a complexidade dessas diferenças.

Conclusão

Diante dessa realidade linguística e do legado que a Reforma deu início, cremos que já é possível ter uma ideia razoável da complexidade da tarefa de tradução da Bíblia.

Estamos certos de que esse artigo nos ajuda a entender o valor e a importância da tradução da Bíblia. Portanto, cada um de nós deve:

  1. Agradecer a Deus o fato de termos a Palavra de Deus disponível em tantas línguas modernas, principalmente em português.
  2. Agradecer a Deus pelos esforços da Reforma, principalmente de Lutero, que abençoaram o mundo com as Escrituras.
  3. Valorizar esse importante ministério e orar pelos milhares de tradutores que trabalham em todo o mundo nessa obra tão importante.
  4. Ser mais flexível e humilde, entendendo que a dificuldade dessa tarefa comprova que toda tradução é imperfeita.
  5. Descobrir que as dificuldades bíblicas não devem abalar nossa fé; ao contrário, descobrimos que Deus é sábio e maior do que nós. A Palavra de Deus é mais profunda e rica do que imaginamos.