A teologia da cidade

A realidade urbana na Bíblia

Luiz Sayão - 12/07/2017 11h03

A teologia da cidade
A teologia da cidade

Nos dias atuais, infelizmente, as grandes cidades se tornarem palco de dor e desventuras. No século 21, a desumanização e a violência delineiam um quadro perverso nas metrópoles de hoje. O alto índice de homicídios, a realidade da dependência química, incêndios e enchentes, a vida insalubre e a difícil mobilidade descrevem os grandes descompassos da realidade urbana. A vida no Rio de Janeiro, ou em São Paulo, e até em outras grandes metrópoles do mundo, já não é tão atraente como já foi no passado.

Na Bíblia, o tema da cidade é muito relevante. É fundamental. Num contexto de transição entre a vida nômade e pastoril para a vida nas primeiras cidades, dependentes da agricultura, o texto sagrado aborda a questão de forma curiosa e sensível. Na verdade, o surgimento da cidade na Bíblia tem origem na arrogância humana e na independência do homem em relação a Deus. É a linhagem do perverso Caim que dará início à cidade:

Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque”. Gênesis 4:17b

Caim representa a autossuficiência humana no texto bíblico. Tendo perdido o Éden, o homem está diante da ruptura ecológica da terra que agora produzirá “espinhos e ervas daninhas” (Gênesis 3:18). A solução humana é a aposta de Caim, que não só se revela ingrato para com Deus, mas comete o primeiro assassinato da história bíblica, quando mata seu irmão Abel. Assim, Caim amplia a ruptura com Deus, com o próximo e com a terra. A solução para os seus problemas é uma só: “fundar uma cidade”.

Portanto, a cidade surge como a marca maior da arrogância humana contra Deus. Em Gênesis 4, acompanham a cidade, o surgimento da ciência, da economia e da arte (4:20-22). O ápice desse progresso perverso aparece quando o texto bíblico afirma que o sétimo depois de Adão, pela linhagem de Caim, Lameque, torna-se o primeiro bígamo da história, rompendo com a proposta inicial monogâmica da criação. O discurso de Lameque é contundente; é quase uma convocação de um “Lampião”:

Ada e Zilá, ouçam-me; mulheres de Lameque, escutem minhas palavras: Eu matei um homem porque me feriu, e um menino, porque me machucou”.

Não muito tempo depois, a situação da cidade parece ainda pior. Em Gênesis 11, os homens decidem construir uma cidade para invadir o céu. No mesmo espírito de Caim, eles agora aprofundam a arrogância humana, dizendo:

Vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance os céus. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra”. Gênesis 11:4

A gramática hebraica vai mostrar que a expressão “cidade, com uma torre” é mais bem traduzida por “cidade que cresce para o alto”. Como os antigos achavam que o céu estava bem próximo da terra, a ideia era “invadir o céu”. Era uma espécie de movimento dos “sem céu”, ou dos “invasores da morada celestial”. Os homens, já “sem terra” e “sem céu”, tornam-se agora “sem comunicação”! As línguas serão confundidas. O movimento inicial das cidades cresce desordenadamente e é um desastre no texto sagrado.

Mas a proposta bíblica é de esperança e de redenção. Assim, Deus age, entra em ação para salvar o enredo humano. De forma inesperada, Deus resolve dar início à redenção da cidade por sua própria iniciativa. Por incrível que pareça, Deus constrói a partir da soberba e rebeldia humanas. A ação salvífica de Deus na história destaca-se na monarquia davídica. A figura do rei surgira em Israel como sinal da rebeldia e arrogância humana (1Samuel 8:5-7). Ao pedir um rei, imitando os demais povos, Israel estava rejeitando a Deus. No entanto, em sua ação redentiva, Deus, surpreendentemente, escolhe um rei, Davi, e também elege uma cidade: Jerusalém. Os símbolos maiores da autonomia e independência humanas são ressignificados: serão símbolos da intervenção divina de redenção. A suprema derrota transforma-se em vitória plena! O texto bíblico é claro:

Darei uma tribo ao seu filho a fim de que o meu servo Davi sempre tenha diante de mim um descendente no trono em Jerusalém, a cidade onde eu quis pôr o meu nome”. 1 Reis 11:36

Não jurem de forma alguma: nem pelos céus, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o estrado de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei”. Mateus 5:34, 35

Como podemos ver, a monarquia davídica e a cidade de Jerusalém serão protagonistas da intervenção divina na história em favor do homem falho e pecador.

Todavia, a história não termina aqui. O mais surpreendente na abordagem bíblica da cidade aparece em Apocalipse, quando o desfecho da trajetória humana traz de novo a figura da cidade. O texto sagrado é de “parar a respiração”:

Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia. Vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém, que descia dos céus, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido. Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: “Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou”. Apocalipse 21:1-5

Que coisa! A história termina com a redenção da cidade. Surge a Nova Jerusalém que é descrita como o Éden “urbanizado”. Aqui, ela representa o povo de Deus, redimido, mas sua descrição impressiona: parece que o antigo jardim passou por um projeto de “arquitetura celestial”. O Éden da redenção é melhor do que o da criação! A cidade que marcou o início do pecado humano é agora marca máxima da redenção. Há um contraste: a cidade humana (Babel) subiu da terra; a cidade de Deus desce dos céus. A cidade humana é efêmera; a de cidade de Deus é eterna. A cidade humana trouxe fragmentação e dor; a cidade de Deus traz união e cura. Deus faz questão de mostrar sua vitória e sua salvação a partir do resgate do símbolo máximo do poderio e independência humanos. É surpreendente e verdadeiro: Deus traz a redenção a partir da pior desgraça humana.

Diante desse quadro, a proposta bíblica é de plena esperança. A ideia é que o homem autônomo pode construir muito, mas sua autossuficiência e arrogância trarão problemas a todos. Mas a relação de sintonia com Deus e seus princípios sempre podem realinhar a trajetória humana. A marca do fracasso torna-se a referência da vitória. Grande é a sabedoria do texto sagrado. Maior ainda é a sua promessa de esperança.