A geração que não sabe mais falar

Para viver a vida com sabedoria, bom senso, e para se alcançar felicidade e êxito é preciso aprender a caminhar pela senda bela e emocionante das palavras

Luiz Sayão - 17/10/2017 15h49

A maioria dos problemas entre casais e entre pais e filhos seria resolvido se eles apenas conversassem

Há alguns anos, numa visita a Hong Kong, fiquei surpreso: ao lado de nossa mesa no restaurante estava um casal de namorados. O rapaz e a moça permaneceram todo o tempo sem trocar uma única palavra. Os dois mexiam e teclavam no celular de modo intenso e desenfreado. Nem se entreolhavam! Talvez estivessem “namorando” de modo digital. Pensei estar diante de um relacionamento sem palavras. A realidade de Hong Kong, porém, não é apenas local. É universal.

Para quem vive nesse mundo cibernético, pós-moderno e freneticamente movido a imagens e vídeos de ação, a própria menção do verbo “falar” parece ultrapassada e “desconectada”! O fato é que a geração icônica e pictórica está tão saturada de imagens e vídeos que já nem sabe mais falar. Muitas vezes, ao ser interpelado por um cidadão “pós-icônico”, ouço apenas o gaguejar de monossílabos desconexos e frases que desafiam a mais profunda hermenêutica! O que está acontecendo? Parece que estamos vendo uma geração que desaprendeu a falar! Criou uma nova forma de interação! O problema não é só o analfabetismo ou o analfabetismo funcional! É também a incapacidade de se comunicar de modo verbal. É a atrofia da linguagem! Se isso, por si só, já é um problema descomunal, para um cristão convicto é um dilema monumental!

A grande verdade é que o mundo que nos rodeia é feito de palavras. Como demonstraram destacados filósofos e linguistas, não temos acesso à realidade sem a mediação das palavras. É falando que apreendemos o mundo e o delimitamos. Como dizia o estudioso dinamarquês L. Hjelmslev, a realidade é um “continuum amorfo” recortado pela linguagem, que interpreta o mundo. Nada podemos conhecer sem a linguagem!

A prioridade da linguagem e da palavra encontra espaço nos textos sagrados das Escrituras. A Bíblia abre suas páginas de sabedoria afirmando que Deus criou o universo, falando. Por diversas vezes o texto do primeiro capítulo de Gênesis traz a frase: “e disse Deus”. A primazia do homem se delineia quando Adão dá o nome a todos os animais (Gn 2.19-20), tão decantado por Bob Dylan e Zé Ramalho! Mais adiante, no livro de Êxodo, quando Deus quer se dar a conhecer ao seu povo, quando o próprio Deus se revela, ele o faz através de seu NOME, isto é, de uma palavra. Não temos acesso à imagem divina. Ela não nos é sequer permitida. Nós conhecemos a Deus pelo seu NOME, YHWH!

Prosseguindo pelo tema da revelação de Deus ao homem, vamos descobrir que a vontade de Deus revelada ao ser humano também chega a nós por meio de um livro. Deus não enviou um quadro nem uma escultura ao homem, tampouco deu-nos uma sinfonia para que pudéssemos conhecê-lo em profundidade. Sua revelação específica para a humanidade é a sua Palavra! As Escrituras! Poderíamos parar por aqui, pois já temos mais do que o suficiente para valorizar a palavra e o discurso. Mas há ainda muito mais! Pois não é só a revelação escrita de Deus que é palavra! O próprio Jesus Cristo, o Deus-homem, encarnado para trazer-nos a salvação eterna é o Verbo de Deus (Jo 1.1). Conforme nos ensina o consagrado texto de João 1.14: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

A verdade é que para viver a vida com sabedoria, bom senso, e para se alcançar felicidade e êxito é preciso aprender a caminhar pela senda bela e emocionante das palavras. Quem sabe usar as palavras é sábio e sempre terá veredas promissoras. É necessário voltar-se para a tônica da literatura sapiencial do hebraico das páginas da Bíblia. Conforme nos ensina o livro de Provérbios, dependemos inteiramente da força da palavra. Ouçamos alguns de seus conselhos:

“A palavra proferida no tempo certo é como frutas de ouro incrustadas numa escultura de prata” (25.11).

E há também sabedoria singular nas palavras não ditas. É o discurso do silêncio:

“Quando são muitas as palavras, o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato” (10.19).

E quem pode descrever o poder da palavra? Leiamos:

“A língua tem poder sobre a vida e sobre a morte; os que gostam de usá-la comerão do seu fruto” (18.21).

E para completar, vejamos o que a palavra pode produzir nas relações humanas:

“A resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira. A língua dos sábios torna atraente o conhecimento, mas a boca dos tolos derrama insensatez (15.1,2).

Os estudantes, os empresários, os casais, os vendedores, os profissionais liberais precisam desesperadamente da sabedoria das palavras. Como alcançar a tão desejável sabedoria?

A verdade é que para trilharmos esse caminho promissor e pleno na vida é preciso dar o primeiro passo: “ouvir as palavras”. Quem ouve é sábio! A verdadeira sabedoria começa quando “ouvimos a Palavra, isto é, a Palavra divina”. Ela é a nossa esperança diferenciada e singular! Ouça a Bíblia. Sem a sublime capacidade de ouvir acabaremos perdidos em nosso mundo interior disforme e existencialmente confuso. O segundo passo a ser dado é aprender a falar. O falar saudável, refletido, ponderado e controlado é poderoso. O falar cura, liberta, reanima, adverte e traz vida. Há uma certa “mágica” na esquecida arte de conversar. A maioria dos problemas entre casais e entre pais e filhos seria resolvido se eles apenas conversassem. É o “exercício físico” das relações. Sem conversar, a “circulação” das boas relações fica comprometida. Quem sabe usar corretamente as palavras sempre terá uma trajetória abençoada. Finalmente, deve ser dito que “falar também é dominar”. Em Gênesis, como mencionamos, quando Deus criou Adão, ele deu nome a todos os animais. Que trabalho árduo! O homem é o homem porque pode falar. Somos o “homo discursus”. É bem verdade que este domínio que vem do falar é poderoso e perigoso, mas pode ser salutar. Não precisa ser o domínio da destruição, mas pode ser o da construção. Se quisermos ouvir, se reaprendermos a falar, e, soubermos dominar, ao bem-estar pessoal, relacional e familiar iremos chegar. Mas, há um mistério aqui. Como bem disse Fernando Pessoa: “Trocar palavras é fácil, difícil é interpretar os silêncios”. Antes de dominar o mundo para fazer dele um lugar melhor, é preciso ser dominado pelo Senhor da Palavra, conduzir nosso interior com palavras adequadas e quebrar o silêncio do próximo com a palavra sábia e ponderada. Só se muda o mundo, mudando o coração; somente as palavras conhecem o caminho até o coração.

 

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).