A convicção da existência de Deus

A discussão sobre a existência de Deus não é pertinência exclusiva da teologia, como se poderia pensar

Luiz Sayão - 21/11/2018 13h33

A existência de Deus é uma constatação histórico-antropológica. O ser humano sempre se mostrou um ser religioso. O ateísmo que conhecemos em nossos dias é fenômeno recente e decorre do secularismo contemporâneo. A fé e suas decorrências rituais, existenciais e espirituais sempre esteve presente na experiência humana.

A rigor, a discussão sobre a existência de Deus, não é pertinência exclusiva da teologia, como se poderia pensar. Na verdade, na trajetória da história do pensamento ocidental, Deus é uma questão que está presente na filosofia. Pensadores clássicos da antiguidade grega como Platão e Aristóteles abordaram a questão inescapável. Os desdobramentos da genialidade grega clássica se mostraram presentes na filosofia medieval também.

Naturalmente, a filosofia distingue-se da teologia. As duas disciplinas utilizam-se da razão para abordar questões semelhantes, mas a teologia parte da revelação bíblica e procura explicar a realidade a partir dos dados da revelação entendidos pela luz da razão. A filosofia, por sua vez, parte unicamente dos dados da realidade e da instrumentalidade da razão para a explicação da realidade. Na verdade, cada uma delas tem o seu lugar. Da perspectiva teológica, a Bíblia não foi escrita para nos revelar todas as coisas. As Escrituras nos falam principalmente daquilo que Deus quis nos revelar sobre seu plano de redenção para a humanidade. Deus não revelou tudo sobre si mesmo, nem sobre o mundo criado, nas páginas da Bíblia. A revelação bíblica não tem o propósito de ser exaustiva. Se assim fosse, não haveria espaço nem para a pesquisa científica. A Bíblia tem propósitos específicos; ela nada nos diz sobre a alimentação dos tamanduás, nem sobre as regras do raciocínio lógico. Nem seria necessário que dissesse, pois nunca foi seu propósito.

Portanto, a verdade é que filosofia e teologia se complementam. Não há como negligenciar métodos lógicos, emprestados da filosofia, para analisar a revelação bíblica. Por que motivo temos tantas linhas distintas de reflexão sobre Deus? Não temos todos a mesma Bíblia? O fato é que o texto sagrado traz a revelação, mas a tarefa da interpretação e relação com nossa experiência e cultura cabe à teologia, que por sua vez usará o instrumento da filosofia. É séria e dura a tarefa de interpretar a Palavra de Deus com coerência e responsabilidade. Todavia, como cristão, preciso reconhecer que o conhecimento humano é limitado, e que apesar de todos os esforços filosóficos eu nunca poderia conhecer a Deus adequadamente apenas por meio da razão, do contrário não teria sido necessário que ele nos desse sua revelação nas Escrituras.

A discussão sobre Deus a partir da história da filosofia grega parte do pressuposto de uma realidade metafísica. O termo significa literalmente “além da física”. Trata-se da disciplina da filosofia que “estuda as causas primeiras e os primeiros princípios”, sendo o cerne da preocupação filosófica clássica. O fato é que a preocupação metafísica sistemática existe desde os filósofos pré-socráticos. Parmênides é o considerado o primeiro filósofo propriamente metafísico. Platão via o ser numa realidade superior distinta do mundo em que vivemos, o mundo das ideias. Mas, a discussão da metafísica e sua relação com a existência de Deus tem sua referência mais importante em Aristóteles. O célebre estagirita afirma que o objeto de investigação da metafísica é “o ser enquanto ser e as propriedades que necessariamente o acompanham”. A pergunta é por que as coisas são em vez de não serem? O ser é a essência de algo; é a qualidade essencial de um ente sem a qual ele não pode subsistir.

Aristóteles via o ser nas próprias coisas e não fora delas. Para ele, Deus era o Ser Absoluto, a referência ontológica maior. Em suas ponderações, Aristóteles partia da ideia de que o mundo era eterno e caracterizado pela mudança, o movimento perene, isto é, o devir. Todavia, esse devir é sinal de imperfeição. Assim, o mundo precisa de um ser que não se modifica e é ao mesmo tempo a causa de tudo, sendo o motor que a tudo move, e permanece imóvel. Assim, Deus é o motor imóvel que a tudo movimenta. Sua existência é necessária, já que é a base metafísica, ontológica, de tudo o que existe.

A filosofia cristã medieval estabeleceu relação entre o Deus cristão e as teorias metafísicas gregas, de modo que Agostinho (séc. 4) segue Platão e Tomás de Aquino (séc. 13) baseia-se em Aristóteles. Assim, a escolástica medieval, irá se fundamentar do ponto de vista filosófico no pensamento aristotélico, e o grande pensador Tomás de Aquino irá elaborar sua conhecida síntese entre Aristotelismo e Cristianismo. Tendo em conta a contribuição de pensadores de expressão como Anselmo, Aquino se tornará a maior referência medieval da filosofia.

Para Aquino a perfeição máxima é o ser; já os seres criados, os entes, participam da perfeição do ser. A verdade consiste na correspondência entre pensamento e ser. Deus é o ser que subiste por si mesmo. O mundo surgiu da comunicação do ser divino.

Tomás de Aquino elabora os famosos cinco argumentos em favor da existência de Deus:

De modo bem sucinto, Deus é descrito como (1) o motor não movido; (2) a causa última de tudo; (3) o ser necessário; (4) o ser perfeito; (5) a razão da ordem universal.

Vamos considerar os argumentos:

  1. Argumento: Deus como o “primeiro motor não movido”:

O movimento existe, o que é evidente aos sentidos. Ora, se aquilo que se move é movido por alguma força, por algum motor, não é possível pensar que cada motor de cada movimento seja movido ele próprio por outro motor, sendo este, por sua vez, movido por outro motor, que seria movido por mais outro, e assim indefinidamente ao infinito: é razoável que exista uma origem primeira do movimento, ou um motor que move sem ser movido. Esse primeiro motor imóvel tem que ser Deus, o Criador de todo movimento.

  1. Argumento: Deus como “causa primeira”:

Se todo efeito tem uma causa e cada causa é, por sua vez, o efeito de outra causa, temos o mesmo ciclo indefinido e infinito do problema anterior, o que nos leva à pergunta inescapável: Qual seria a causa primeira das outras causas, uma causa que não seja causada por nenhuma outra? A resposta é a causa primeira, suprema, que só pode ser Deus.

  1. Argumento: Deus como “ser necessário”:

Se todos os seres são finitos e contingentes, isto é, “são e deixam de ser”, então todos os seres deixariam de ser e, em determinado momento, nada existiria. Isso não faz sentido, como também não se pode afirmar que aquilo que existe passou a existir a partir do nada, sem uma causa primeira e um motor não movido. A própria existência dos seres contingentes implica a de um ser necessário. Esse ser é Deus.

  1. Argumento: Deus como o “ser perfeito”.

Não é difícil perceber que uma coisa é maior ou menor que outra, ou menos ou mais verdadeira que outra, o que significa que somos capazes de compreender que os seres finitos têm maior ou menor grau de perfeição, mas nenhum deles tem a perfeição absoluta. Todavia, a perfeição precisa existir, já que há seres que a possuem em algum grau. Necessariamente, a plena perfeição do ser precisa existir e este ser é Deus.

  1. Argumento: Deus como a “inteligência que a tudo ordena”.

Todos os seres tendem a um ponto teleológico, a um fim, e isso não pode ser mera obra do acaso. Há uma inteligência que os direciona. Conclui-se que é preciso que exista um ser inteligente que a tudo ordene e encaminhe para a sua finalidade: esse ser inteligente necessariamente é Deus.

Deixando os argumentos da história da filosofia, devemos nos perguntar sobre a revelação bíblica. Como as Escrituras Sagradas tratam a questão da existência de Deus? Quais são “suas provas”?

A pressuposição das Escrituras é que é evidente que Deus existe. Nem é necessário provar sua existência. A ideia é que não há apenas alguma coisa, ou ideia, poder a que se possa aplicar o nome de Deus, mas que há um ser pessoal, consciente de si mesmo, auto-existente, que é a origem de todas as coisas e que transcende a criação, sendo ao mesmo tempo imanente na própria criação. Logo, a rigor, a existência de Deus não é passível de demonstração lógica que não deixa lugar para questionamentos. Sua base maior está na fé na Revelação. Embora a existência de Deus seja por si só muito razoável, não se define a questão apenas por meio de uma argumentação racional. De fato, a questão se define por pressupostos. As opções são partir de uma cosmovisão teísta, panteísta ou ateísta. As decorrências são muito significativas.

Se partirmos do pressuposto da verdade da existência de Deus pela fé, devemos recorrer às Escrituras, como Palavra de Deus inspirada, como referência primeira. Como dissemos, a Bíblia não procura provar a existência de Deus. Argumenta a partir da indiscutível realidade da existência do Criador:

Sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam. Hebreus 11.6

No princípio Deus criou Deus os céus e a terra. Gênesis 1.1

É muito claro que nas Escrituras Deus é visto como o Criador de tudo, e também como o Sustentador do universo e da história. Deus age em tudo de acordo com o conselho da sua vontade e revela a realização do seu grandioso propósito de redenção no eixo da história. Essa revelação de Deus constitui a base da nossa fé na existência de Deus. Quem nega a realidade divina nas Escrituras é descrito como um louco (Sl 14; 53) ou como alguém que rejeita Deus por seus propósitos perversos (Rm 1.18-32).

Para alguém que pensa em sintonia com a revelação bíblica é fácil explicar porque a ideia de Deus é praticamente universal na raça humana. É encontrada até mesmo entre as mais diversas etnias e tribos do mundo. É facilmente assimilável para qualquer criança. Parece de fato uma ideia inata, primordial. A negação divina é posterior. É artificial. Embora seja razoável considerar a argumentação racional de ateus e agnósticos, parece que ninguém nasce assim. É preciso negar essa consciência transcendental. Geralmente, suas raízes têm origem em experiências traumáticas com o sofrimento e o universo religioso. O que é muito surpreendente é como muitos ateus militantes se incomodam com a ideia de Deus e lutam contra algo que supostamente eles têm certeza de que não existe. É curioso.

Finalizando, talvez as considerações sobre uma visão teísta da realidade, que pressupõe a existência de Deus, conforme a filosofia e as Escrituras Sagradas, devem chegar a elementos práticos, que nos afetam diretamente, na realidade no cotidiano. Devemos nos perguntar se o nosso pressuposto é verdadeiro considerando também suas decorrências. A base para o significado da existência, para o valor do ser humano, para uma construção da ética, para a liberdade e a construção da sociedade, parece ser muito frágil a partir de uma cosmovisão que nega a existência de Deus. O secularismo presente em nossa sociedade atual não parece estar apontando para uma realidade promissora. É difícil destoar, sem enormes prejuízos, da tão valiosa convicção que construiu toda a tradição judaico-cristã e nos deu o que chamamos de civilização ocidental: Creio, logo existo. Que Deus nos abençoe.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).

 


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