A boa tradução merece explicação: a morte dos seus santos

"Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos". Salmo 116:15

Luiz Sayão - 31/10/2017 16h39

AS MUITAS VERSÕES

No conhecido versículo do Salmo 116:15 as mais diversas versões em português trazem textos bastante diferentes. As versões variam. Por isso, muitos leitores acabam ficando cheios de dúvidas sobre qual tradução é a correta. Se abrirmos as versões bíblicas mais conhecidas, evangélicas e católicas, encontraremos o seguinte:

Preciosa é à vista do SENHOR a morte de seus santos. (Almeida Corrigida)
Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte de seus santos. (Almeida Atualizada)
É custosa aos olhos de Iahweh a morte dos seus fiéis. (Bíblia Jerusalém)
É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus fiéis. (CNBB)
O Senhor Deus sente pesar quando vê morrerem os que são fiéis a ele. (NTLH)
O Deus Eterno fica muito triste quando morre alguém do seu povo. (BLH)
O SENHOR vê com pesar a morte de seus fiéis (Nova Versão Internacional)

A dificuldade prática para muitos cristãos é que esse versículo tem sido tradicionalmente utilizado em contextos fúnebres para consolar pessoas enlutadas. O fato é que, muitas vezes, o texto é interpretado como se estivesse falando de uma espécie de “recepção divina ao salvo que passa para a vida eterna”. Será que isso está correto?

O CONTEXTO DO SALMO 116

O contexto do salmo é facilmente identificável. O texto fala de um homem a quem Deus livrou da morte. Agradecido, ele vai ao templo e cumpre a promessa feita ao SENHOR. Esse salmo de gratidão relata a luta do salmista com a morte (1-4), declara a bondade e a misericórdia do SENHOR (5-7), comprovada pela forma como ele escapou da morte (8-11). Muito feliz, o salmista oferece o sacrifício prometido (12-14) e expressa sua dedicação a Deus, convocando o povo ao louvor do SENHOR (15-19). Para entender o versículo 15 precisamo entender que seu texto deve ser interpretado à luz desse contexto, especialmente do que vemos nos versículos 2-3 e 8-9, isto é, o livramento da morte.

A RAZÃO DAS DIFERENTES TRADUÇÕES

Uma rápida observação nas diferentes versões revelará que elas estão divididas em dois grupos. As versões tradicionais de Almeida e as principais versões católicas são muito semelhantes. A diferença é que nas versões católicas o termo hebraico qadôsh foi traduzido por “fiel” e não por “santo”, para evitar a possível confusão do leitor. Não há dúvida de que a palavra se refere ao indivíduo do povo de Deus que está em aliança com ele. Já as versões evangélicas contemporâneas, como a NVI, a Bíblia na Linguagem de Hoje e sua versão revisada, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, trazem outra tradução.

O foco do problema de tradução está na palavra hebraica yaqar, cujo significado literal é “ser pesado”, tendo adquirido o sentido de “precioso, caro”. A palavra é usada para se referir a pedras preciosas (Sl 36:7). A pergunta que precisa ser feita é qual é o significado do termo no Salmo 116:15. A morte dos santos, ou fiéis, é preciosa para Deus? Em que sentido? O que o texto de fato está ensinando?

Quem lê o texto conforme as versões mais antigas, pode chegar a duas possibilidades:

  1. Que o SENHOR gosta da morte dos seus santos. A morte é algo precioso, caro, desejável. Seria esse o sentido do texto? É claro que não, pois isso não faz sentido, e dá ideia de um Deus que parece ter prazer no sofrimento humano.
  2. Que o SENHOR está presente e cuida do seu fiel, na hora da morte. Essa é a interpretação mais comum. No entanto, essa maneira de entender não tem muita relação com a palavra “preciosa”. A versão popular é mais intuitiva do que exegética.

Devemos concluir que apesar de muito comuns essas abordagens não refletem o significado do versículo no seu contexto original.

A outra alternativa, das versões contemporâneas, principalmente da NVI e da NTLH, é o “SENHOR vê com pesar a morte de seus fiéis”. Como se chega a tal tradução? Por que um texto tão diferente? Aqui a palavra yaqar é vista no seu sentido de “algo de alto custo”, isto é, “precioso”. Isso significa que para Deus a morte de um fiel é algo que custa muito. A tradução de Toombs por exemplo capta bem a ideia: “O SENHOR não é indiferente ao fato de seus fiéis serem ou não mortos”. Numa tradução bem contemporânea poderíamos dizer que para o SENHOR a morte de seus fiéis “não passa em branco”. A morte de alguém que é fiel ao SENHOR recebe a atenção de Deus assim como uma pedra preciosa atrai o olhar de alguém. Portanto, apesar da opção estilística “vê com pesar” não ser perfeita, a ideia fundamental corresponde ao sentido do original. Na verdade, essa opção de tradução está correta, e há duas razões para isso:

  1. Contextual. O contexto do salmo revela a gratidão de um adorador que foi salvo da morte, e não de alguém que passou para a eternidade. O autor fala da morte com enfoque negativo. Não é uma experiência desejável nem pelo autor nem por Deus.
  2. Teológica. Muitas pessoas entendem o texto bíblico de maneira incorreta, lendo o Antigo Testamento como se fosse o Novo Testamento. A verdade é que o Antigo Testamento discute muito pouco a vida depois da morte. Aquilo que conhecemos como escatologia individual só é plenamente desenvolvida no Novo Testamento. Portanto, é muito improvável que um salmo esteja falando do pós-morte, pois o enfoque dos salmos e do Antigo Testamento em geral é a vida na terra.

Apesar de muito conhecida, a versão tradicional do Salmo 116:15 não reflete o sentido do texto original. As versões contemporâneas estão corretas.

Luiz Sayão é professor em seminários no Brasil e nos Estados Unidos, escritor, linguista e mestre em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica pela Universidade de São Paulo (USP).