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Conheça os 4 países da “Lista da Vergonha”: Eritreia

Eritreia, oficialmente Estado da Eritreia, é um país localizado no Chifre da África

Lawrence Maximo - 10/03/2022 17h41

Refugiados eritreus no Iêmen Foto: EFE/EPA/YAHYA ARHAB

Na última semana, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou, por ampla maioria, uma resolução contra a invasão russa da Ucrânia. Isso, após três dias de discursos de mais de 100 países. O texto “deplora nos mais fortes termos a agressão da Rússia contra a Ucrânia”. Ela é não vinculante, o que significa que, a partir dela, os países não são obrigados a fazer nada. Sua importância, portanto, é política: mostra como a maioria dos países vê a invasão promovida por Moscou. Se você acompanhou os textos de terça e quarta-feira, e optar, pode pular os próximos parágrafos e ir para a breve história da Eritreia.

Boa parte da comunidade internacional acusa a Rússia, de Vladimir Putin, de violar o artigo 2, da Carta das Nações Unidas; que pede aos seus membros para não recorrer a ameaças ou à força para solucionar conflitos. A resolução deixou de “condenar”, como estava inicialmente previsto, para “deplorar nos mais fortes termos a agressão da Rússia contra a Ucrânia”.

Todavia, gostaria de destacar os países que votaram contra a resolução, para entendermos esses atores no cenário da comunidade internacional. Sobretudo, assim como é importante ressaltar as abstenções da China, Índia e África do Sul, aliados da Rússia.

Veja como ficou o resultado:
141 votos a favor (o Brasil votou aqui ao lado de EUA, União Europeia e outros).
5 votos contra (Rússia, Belarus, Coreia do Norte, Eritreia, Síria).
35 abstenções (China, Índia e África do Sul entre outros países).

Portanto, nesse especial, que começou nesta terça e vai até sexta-feira, desejo destacar alguns fatores da geopolítica e religião. Para conhecer melhor os países que votaram contra a resolução da ONU, a favor da invasão russa; são eles: Coreia do Norte, Síria, Eritreia e Belarus; denominados por esse artigo, a “Lista da Vergonha”, dividido em quatro partes, hoje vamos falar da Eritreia.

Migrantes eritreus se lavam ao lado de uma igreja improvisada na França Foto: EPA/ETIENNE LAURENT

BREVE HISTÓRIA
A Eritreia, oficialmente Estado da Eritreia, é um país localizado no Chifre da África. Sua capital é Asmara. Faz fronteira com o Sudão a oeste, com a Etiópia ao sul, e com o Djibuti ao sudeste. As partes nordeste e leste da Eritreia têm um extenso litoral ao longo do Mar Vermelho. E na outra margem estão a Arábia Saudita e o Iémen.

A Eritreia é um país multiétnico, com nove grupos étnicos reconhecidos em sua população. A maioria dos residentes falam línguas da família afro-asiática, seja das línguas semíticas etíopes ou dos ramos cuchíticos. Entre essas comunidades, os tigrínios constituem cerca de 55% da população; com o povo tigré constituindo cerca de 30% dos habitantes. Além disso, há várias minorias étnicas nilóticas de fala nilo-saariana. A maioria das pessoas no território adere ao cristianismo ou islamismo.

A criação da Eritreia moderna é um resultado da incorporação de reinos e sultanatos independentes e distintos (por exemplo, Medri Bahri e o Sultanato de Aussa) resultando na formação da Eritreia italiana. Após a derrota do exército colonial italiano, em 1942, a Eritreia foi gerida pela administração militar britânica até 1952.

Após a decisão da Assembleia Geral da ONU, em 1952, a Eritreia teve um governo com um parlamento local em uma federação com a Etiópia por um período de 10 anos. Contudo, em 1962, o governo da Etiópia anulou o parlamento da Eritreia e formalmente o anexou ao seu território.

CENÁRIO POLÍTICO
Os eritreus que defendiam a completa independência de seu país, desde a expulsão dos italianos em 1942, anteciparam o que estava por vir e em 1960 organizaram a Frente de Libertação da Eritreia; resultando em uma guerra de independência contra a Etiópia.

Em 1991, após 30 anos de luta armada, a população do país votou pela independência da Etiópia em um referendo supervisionado pela ONU, vencendo por uma grande maioria. Isso possibilitou que a Eritreia declarasse oficialmente sua independência e ganhasse reconhecimento absoluto internacional em 24 de maio de 1993.

O primeiro ministro etíope, Abiy Ahmed e o presidente da Eritreia, Isaias Afewerki Foto: EFE/ Stringer

Em termos de liberdades civis, os governos ocidentais e as organizações de direitos humanos consideram a Eritreia como um dos países mais repressivos do mundo. Comparando-o com a Coreia do Norte, o Turcomenistão e o Irã. Por exemplo, lá o protesto político não é permitido e a imprensa é restrita a ponto de não haver organizações de mídia independentes no país.

Aqueles percebidos como pertencentes à oposição ou como uma ameaça para a estabilidade da Eritreia são detidos e tratados com dureza. Estima-se que no país haja mais de 300 locais, oficiais e não oficiais, em que mais de 20 mil pessoas são detidas sem julgamento e fiquem sem contato com o mundo exterior.

Sobre política e ajudas externas, o regime da Eritreia manterá a cooperação com a China, o Irã e os países do Golfo e resistirá à pressão do Ocidente para abrir as portas a organizações não governamentais ocidentais, incluindo as cristãs. O regime, sem dúvida, continuará a violar os direitos humanos dos cidadãos e a reprimir o cristianismo, como também formas do islamismo que não sejam percebidas como nativas, na tentativa de promover a harmonia social.

A Eritreia é um dos países mais corruptos do mundo. De acordo com um relatório divulgado em 2019, pela Transparency International, o país ocupa a 160ª posição entre 180 países. Isso envolve principalmente o exército que controla muitos aspectos da vida no país.

CENÁRIO RELIGIOSO
Para entender o cenário religioso de hoje é necessário olhar para a história da Eritreia. O reino de Axum, cobrindo grande parte da Eritreia atual e do norte da Etiópia, foi estabelecido durante o primeiro ou segundo séculos. No entanto, adotou o cristianismo em meados do século IV.

Nos tempos medievais, grande parte da Eritreia caiu sob o reino de Medri Bahri. O cristianismo dominou a vida dos eritreus por muitos séculos. O islamismo foi introduzido pelos árabes nas áreas costeiras do Mar Vermelho durante o século VII.

Em 1890, a Itália reivindicou a propriedade da Eritreia como uma colônia. A presença de turcos e egípcios tornou os muçulmanos na área costeira muito poderosos. Os escoceses (cristãos), porém, ganharam algum terreno quando a Eritreia se tornou uma colônia italiana. A Itália foi derrotada na Segunda Guerra Mundial e a Grã-Bretanha assumiu o controle da Eritreia em 1941.

Atualmente, aproximadamente metade da população eritreia é muçulmana. Uma vez que os muçulmanos residem principalmente nas terras baixas ao longo da costa do Mar Vermelho e na fronteira com o Sudão. Os muçulmanos eritreus estão mostrando uma tendência ao radicalismo, em parte devido ao aumento da militância islâmica na região. Isso significa que os cristãos que vivem nessas áreas são particularmente vulneráveis, especialmente os convertidos do islã.

O ministro das Relações Exteriores da Eritreia, Osman Saleh Mohammed com o colega chinês Wang Yi Foto: EPA/THOMAS PETER / POOL

Os tipos de perseguição são: paranoia ditatorial, protecionismo denominacional, corrupção e crime organizado e opressão islâmica. A conversão ao cristianismo é vista como uma traição à fé comunitária, familiar e islâmica. Apesar de quase metade da população se identificar como cristã, os cristãos na Eritreia continuam enfrentando perseguição extrema. O país continua sendo um dos lugares mais difíceis do mundo para seguir a Jesus.

O governo reconhece apenas três denominações — ortodoxa, católica e luterana. Enquanto isso, convertidos do islamismo e da Igreja Ortodoxa da Eritreia enfrentam maus-tratos das famílias e das comunidades. Aqueles que não fazem parte desses grupos estão em risco de perseguição severa nas mãos do Estado. Vulneráveis à vigilância diária imposta pelo Estado, com celulares monitorados, banda larga mantida lenta e uma rede de cidadãos encarregados de espiar os vizinhos.

Reuniões são invadidas e cristãos presos. As condições enfrentadas por cristãos nas prisões podem ser desumanas. Alguns pastores estão encarcerados há mais de uma década e enfrentam confinamento solitário. Possivelmente, há mais de mil cristãos presos na Eritreia, sem nenhuma acusação formal. Esse nível de monitoramento invasivo leva a Eritreia a manter o título de “Coreia do Norte da África”.

Finalmente, único país da África que votou abertamente a favor da Rússia, a Eritreia mantém relações com o governo russo há quase 30 anos. O presidente Isaias Afewerki chegou ao poder em 1993, após liderar o movimento de guerrilheiros pela independência do país em relação à Etiópia. Ele instituiu um partido único — que se mantém até hoje no poder, sem eleições.

Entre 2009 e 2018, o país viveu sob sanções impostas pela ONU, e estreitou relações com a Rússia, que vendia commodities — como milho, soja e fertilizantes — e armamento ao país africano. A China também ficou mais próxima.

Lawrence Maximo é analista político, professor universitário e escritor. Mestrando em Ciências Políticas Internacionais: Cooperação Internacional, Mestre em Missiologia, Pós-graduado em Ciência Política: Cidadania e Governação e Pós-graduado em Antropologia da Religião. Historiador e Teólogo. Escreve artigos para o jornal Gazeta do Povo e Revista Esmeril.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News.

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