Opinião à venda, consciência em liquidação
Eu e Rony Gabriel não somos heróis, mas, não aceitamos dinheiro, pois não somos corrompíveis
Juliana Moreira Leite - 12/01/2026 10h10

Escrevo como quem esfrega o pano sujo no centro da sala; não para chocar, mas porque o cheiro já tomou a casa inteira. O escândalo da compra de opiniões, essa indústria paralela na qual influenciadores de direita foram alugados para questionar o Banco Central do Brasil e fabricar a narrativa de perseguição ao Banco Master, não foi um tropeço ocasional do debate público. Foi um método. Um enredo pago em parcelas, com roteiro pronto e consciência terceirizada.
Criou-se a fábula do banco injustiçado enquanto a engrenagem rangia por trás. E quem ousasse perguntar “quem paga?” virava inimigo da semana.
Nesse cenário, eu e Rony Gabriel entramos como o erro de sistema que ninguém conseguiu depurar. Não porque sejamos heróis — heróis são uma fantasia infantil —, mas porque recusamos o dinheiro. Não somos corrompíveis, e isso, num mercado de opiniões precificadas, é o maior dos escândalos. Bagunçamos o arranjo ao dizer não; ao insistir em perguntar; ao não aceitar a cartilha pronta. Quando o script exige unanimidade, a divergência vira crime moral. Quando o Pix dita o tom, o silêncio comprado vira virtude.
Houve, ainda assim, quem não deixasse a história morrer. O trabalho meticuloso e incômodo de Malu Gaspar fez o que o jornalismo faz quando se lembra de si mesmo: seguiu o dinheiro, desfez as cortinas, suportou o ódio. E a equipe da Revista Oeste insistiu quando o cansaço parecia a estratégia do poder.
Do outro lado, o Centrão exibiu sua falência moral com a naturalidade de quem já desistiu de qualquer verniz; Dias Toffoli e Alexandre de Moraes surgem como símbolos de um sistema confortável com a própria opacidade. E os influenciadores — tantos, ruidosos, indignados sob encomenda — todos na folha de pagamento de DV, confirmaram o que sempre se soube: quando a opinião vira produto, a verdade vira sobra.
No fim, o que resta não é a dúvida honesta, mas a certeza cínica de que, aqui, tenta-se comprar até o barulho. E quando o barulho não se vende, chamam de perseguição.
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Juliana Moreira Leite é jornalista especialista em cultura, escritora e curiosa. Nesse espaço vai falar sobre assuntos da atualidades sob a sua visão. |
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