Vamos sentar à mesa?

Forre uma toalha, espalhe jogos americanos, use as louças reservadas para as visitas. Celebre!

Juliana Dias - 31/08/2018 09h41

Olá, leitores do Pleno.News, começaremos a coluna Papo de Cozinha com um convite para sentar à mesa, lugar oficial da comunhão. A agenda apertada de compromissos tende a trocar o essencial pelo urgente. E, muitas vezes, esquecemos a urgência do essencial, que é estreitar os vínculos e cultivar relacionamentos duradouros. Sentar à mesa não satisfaz apenas as necessidades fisiológicas. Comer junto nutre a alma, alimenta a memória e aproxima pessoas. É lugar de aprender e ensinar sobre a vida.

A norte-americana Devi Titus, autora do livro A Experiência da Mesa: O Segredo para Relacionamentos Profundos, da Editora Mundo Cristão, afirma que “diálogos significativos, que fortalecem o caráter, devem acontecer regularmente durante uma vida de refeições compartilhadas”. Em seu livro, Devi apresenta o Princípio da Mesa, onde reúne uma série de referências bíblicas em que a mesa é central no comunicação e no relacionamento.

No tabernáculo, ou tenda, onde o povo de Israel se reunia para a adorar a Deus, havia uma mesa e, sobre ela, permanecia continuamente o pão da presença, que simbolizava o próprio Deus. Em seus ensinamentos, Jesus passou boa parte do tempo à mesa. E, em sua última reunião com os discípulos, reuniu-se em volta da mesa para partir o pão e beber o vinho, instituindo a refeição como memória.

Devi sugere que as refeições sejam preparadas com a participação de todos os membros da família, e isso inclui principalmente as crianças. “A responsabilidade do preparado deve ser distribuídas antes da refeição”; e “ninguém deve receber a tarefa de tirar a mesa sozinho. É tarefa de cada um tirar o próprio prato até a mesa ficar limpa”. Entre os pontos de partida para “puxar uma conversa” com filhos e filhas, estão as seguintes: “o que você gosta de fazer com o seu tempo livre?”, “qual o seu maior sonho?”, “qual o seu maior medo?”, “como definiria a palavra rico?” e “o que significa ser popular para você?”. Depois que o papo engatar, crie os seus disparadores de conversas à mesa.

Mas não é apenas nos bons momentos que devemos nos reunir para cozinhar e comer à mesa. A autora diz que “preparar refeições em momentos de adversidade cria um ambiente estável para todos. Fomenta um espaço para a família conversar”. E se você mora só, Devi incentiva a criar oportunidades para convidar pessoas para sua mesa. Comece a fazer a lista de convidados e de compras ainda hoje.

É na mesa, espaço também da provisão, onde experimentamos a partilha do alimento, a essência da hospitalidade. Esse é o último ponto tratado por Devi. A carta de Paulo aos Romanos enfatiza a necessidade de praticar a hospitalidade (Romanos 12:13). E, no livro bíblico de Hebreus, capítulo 13, versículo 2, há a orientação de não se esquecer da hospitalidade, pois foi praticando-a que muitos acolheram anjos. A autora explica que hospitalidade não é o mesmo que receber pessoas em casa. Em vez disso é uma atitude do coração. É transformar estranhos em amigos. Por isso, deixe sempre um prato à mesa, ou convide pessoas para partilhar refeições.

Lúcio Grinover, pesquisador na área de Hospitalidade, afirma que uma das primeiras ações que marca a atitude do anfitrião é o gesto de dar de beber e de alimentar. “Sabe-se que o copo d’água ou a xícara de café significam nos países mediterrâneos e latinos: é o gesto de hospitalidade mais espontâneo e mais imediato, como a mesa e o banquete são o centro do lar em volta do qual se organiza a hospitalidade”.

Para Devi, algo acontece na alma, que transcende nosso entendimento quando comemos junto, pois há uma coisa que todos compartilhamos: a necessidade de criar vínculos. O teólogo Leonardo Boff afirma que a mesa é uma das referências mais fundamentais da familiaridade. Antes que um móvel, remete a uma experiência existencial. “É à mesa que todos nós sentimos, de certa forma, membros da família humana”.

Então, dê mais atenção à sua mesa. Forre uma toalha, espalhe jogos americanos, use as louças reservadas para as visitas. Faça refeições temáticas: mineira, italiana, portuguesa, árabe e etc. Mas não abra mão de sentar à mesa para criar um ambiente saudável para o corpo e para o espírito.

Juliana Dias é jornalista e pesquisadora na área de alimentação, comunicação e cultura. Possui doutorado em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia (HCTE/UFRJ) e mestrado em Educação em Ciências e Saúde (Nutes/UFRJ). Coordena os cursos de pós-graduação e extensão em Jornalismo Gastronômico na Facha, integra a Comissão de Gastronomia do Estado do Rio de Janeiro .

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