Comida de verdade

Escolher alimentos estritamente pelo seu valor nutricional pode excluir outras dimensões fundamentais da alimentação

Juliana Dias - 11/01/2019 10h02


“Não coma nada que sua bisavó não reconheceria como comida”
(Michael Pollan, autor do livro Em Defesa da Comida: Um Manifesto).

Você já ouvir falar em comida de verdade? A expressão “comida de verdade” tornou-se corriqueira para diferenciar alimentos saudáveis, tanto para a saúde humana, como para o planeta. Trata-se de alimentos cultivados e preparados por pessoas reais, com rosto, nome e sobrenome. O jornalista norte-americano Michael Pollan foi pioneiro em falar sobre real food em seus livros, a partir de 2006.

No Brasil, o termo começou a circular com mais visibilidade a partir de 2014, com a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira (http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf). Dentre os princípios, afirma-se que “a alimentação é mais do que nutriente”. Por isso, importa o contexto social, cultural e ambiental das práticas alimentares. Escolher alimentos estritamente pelo seu valor nutricional, pode excluir outras dimensões fundamentais da alimentação.

Em 2015, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) lançou o manifesto da comida de verdade, com a assinatura de quase 2 mil representantes da sociobiodiversidade brasileira. Durante 15 anos esse conselho, formado em sua maioria por cidadãos e cidadãs com as mais distintas origens sociais, profissionais e regionais, aconselhou diretamente à Presidência da República nas questões relacionadas à alimentação e nutrição. Além de importantes contribuições para a sociedade brasileira no campo da garantia do direito à alimentação, produção e consumo alimentar, meio ambiente e culturas alimentares, o manifesto trouxe um sentido ampliado sobre a complexidade do comer. Oficialmente, o Consea funcionou até o dia 31 de dezembro de 2018.

Esta compreensão conecta todas as dimensões da existência humana, inclusive a espiritual. Segundo o texto, a comida de verdade é:

(…) salvaguarda da vida. É saudável, tanto para o ser humano quanto para o planeta, contribuindo para a redução dos efeitos das mudanças climáticas. Além disso, garante os direitos humanos, o direito à terra e ao território e a alimentação de qualidade e em quantidade adequada em todo o curso da vida(…)
Começa com o aleitamento materno. Comida de verdade é produzida pela agricultura familiar, com base agroecológica e com o uso de sementes crioulas e nativas. É produzida por meio do manejo adequado dos recursos naturais, levando em consideração o princípios da sustentabilidade, os conhecimentos tradicionais e suas especificidades regionais. É livre de agrotóxicos, de transgênicos, de fertilizantes e de todos os tipos de contaminantes.

Para colocar em prática essa visão da comida de verdade, as recomendações do Guia trazem 10 passos da alimentação saudável. Nesta semana, destacarei dois deles:

  • Desenvolver, exercitar e partilhar habilidades culinárias;
    Se você tem habilidades culinárias, procure desenvolvê-las e partilhá-las, principalmente com crianças e jovens, sem distinção de gênero;
    Se você não tem habilidades culinárias – e isso vale para homens e mulheres –, procure adquiri-las. Para isso, converse com as pessoas que sabem cozinhar, peça receitas a familiares, amigos e colegas, leia livros, consulte a internet, eventualmente faça cursos e… comece a cozinhar!
  • Programe o uso do tempo para dar à refeição o tempo que ela merece;
    Planeje as compras de alimentos, organize a despensa doméstica e defina, com antecedência, o cardápio da semana;
    Divida com os membros de sua família a responsabilidade por todas as atividades domésticas relacionadas ao preparo de refeições;
    Faça da preparação de refeições e do ato de comer, momentos privilegiados de convivência e prazer. Reavalie como você tem usado o seu tempo e identifique quais atividades poderiam ceder
    espaço para a alimentação.

Então, que tal começar 2019 com uma agenda saudável de verdade? Exercite suas habilidades culinárias e planeje um tempo para sua refeição com a receita abaixo!

Compota de abacaxi e uvas

Ingredientes:
1 abacaxi grande e maduro;
125g de uvas verdes;
125g de uvas roxas;
2 colheres (sopa) de suco de laranja;
2 colheres (sopa) de mel.

Modo de fazer
Retire a coroa e descasque o abacaxi. Corte a polpa em cubos, descartando o miolo;
Corte as uvas ao meio e retire as sementes (se preferir);
Arrume as frutas em uma tigela grande de vidro, despeje o mel e o suco de laranja. Vire uma ou duas vezes para misturar;
Deixe na geladeira por pelo menos 2 horas;
Sirva pura, com creme de leite ou iogurte natural.

Fonte: A cozinha vegetariana para todos, de Rose Elliot (Ed. Zahar).

DICAS:

  • Experimente grelhar rodelas de abacaxi no azeite e incrementar suas saladas;
  • Congele as uvas em formas de gelo. Vira um sorvete de fruta refrescante, a criançada curte e é uma boa maneira de introduzir frutas;
  • Utilize as cascas do abacaxi para fazer um suco com folhas de hortelã ou um chá gelado. Que tal? Lave bem as cascas, de preferência com uma escova. Não se esqueça de coar o suco. Para o chá, basta colocar as cascas em água fervente e deixar por uns 10 minutos. Você pode servir gelado;
  • Coma lentamente e saboreie com reflexão.
Juliana Dias é jornalista e pesquisadora na área de alimentação, comunicação e cultura. Possui doutorado em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia (HCTE/UFRJ) e mestrado em Educação em Ciências e Saúde (Nutes/UFRJ). Coordena os cursos de pós-graduação e extensão em Jornalismo Gastronômico na Facha, integra a Comissão de Gastronomia do Estado do Rio de Janeiro .

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