A festa de nascimento

No banquete do Rei, não há falta

Juliana Dias - 21/12/2018 15h00


“Vá rapidamente para as ruas e os becos da cidade e traga os pobres, os aleijados, os cegos e os mancos”
(Lc 14:21).

O aniversariante mais celebrado em dezembro é Jesus. Menino de origem simples, sua missão na Terra foi estabelecer o Reino dos Deus. E qual a visão desse reinado? Para explicar, Cristo escolheu as parábolas, que significam comparação. É uma linguagem popular, rica em metáforas e imagens, própria dos poetas. Suas narrativas baseavam-se na vida cotidiana do povo da Galileia, Samaria e Judeia do primeiro século. Por isso, utilizou elementos como peixe, azeite, semente, festa de casamento, trabalho agrícola, etc.

A parábola pode ser interpretada de várias maneiras. Frei Betto afirma que esses textos são uma forma inteligente de abordar situações controvertidas, de forma a levar o interlocutor a tirar suas próprias conclusões. Daí sua riqueza pedagógica. A expressão “Reino de Deus” aparece mais de 100 vezes na Bíblia, frequentemente utilizada nas parábolas. Uma das comparações que Jesus utilizou para explicá-lo foi a “Festa de Casamento”.

Nessa história, o rei organizou um banquete para casar o filho. Em seguida mandou seus servos chamarem os convidados, mas eles não quiseram vir. Então, enviou outros servos com o seguinte recado: “digam aos convidados que está tudo preparado para a festa. Já matei os novilhos e bois gordos, e tudo está pronto. Que venham à festa!” (Mateus 22:4) . Mas os convidados não se importaram com o convite. Cada um tinha uma desculpa para não ir ao casamento. Um foi cuidar da cuidar de fazenda; outro, do comércio. Alguns agarraram os servos enviados pelo rei, bateram neles e os mataram. O rei ficou com raiva, mandou matar os assassinos e queimar a cidade deles. Depois chamou os seus servos e disse: “a festa de casamento está pronta, mas os convidados não a mereciam. Agora saiam pelas ruas e convidem a todos que encontrarem” (Mateus 22:08). No Evangelho de Lucas (14:21), conta-se que foram chamados “os pobres, aleijados, mancos e cegos”.

Ao chegar no salão para recepcionar seus convidados, o rei notou que um homem não estava com as roupas adequadas para a festa. Ora, se só haviam pessoas pobres, como esperar que alguém estivesse vestido adequadamente? Mas aí reside um ensinamento. No meio dessa multidão que não ostentava os figurinos da moda, havia alguém trajado com roupas caras e finas. Ou seja, nessa analogia não estava comprometido com os valores do reino, como a solidariedade. Esse cidadão foi retirado do banquete. A parábola encerra com a seguinte afirmação de Jesus: “muitos são chamados e poucos são escolhidos”.

O projeto de Deus se desloca para o mundo dos pobres, marginalizados e excluídos. Com a chegada do Natal, o clima de generosidade se espalha pelo ar. Há um interesse de que, na festa de aniversário homenagem a Jesus, não falte ninguém. Essa parábola, explica Frei Betto, revela o olhar crítico de Cristo sobre as condições sociais de sua época. Muitos estavam preocupados em “tratar de seus negócios”, ocupados com cifrões e não com a presença amorosa de Deus.

Esta é uma realidade bem parecida com a do Século XXI. As agendas saturadas de compromissos “urgentes” ignoram o que é essencial. E, muitas vezes, esquecemos a urgência do essencial. E o que é urgente em nossas redes de comunicação conectadas 24 horas por dia? O sociólogo francês Jean Ziegler, ex-relator especial do Direito Humano à Alimentação (ONU), afirma que a fome é o maior escândalo deste tempo. Em relação aos cerca de 1 bilhão de famintos (FAO, 2018), há uma indiferença glacial que desvela as dinâmicas e estruturas da economia e políticas globais.

Na parábola da “Festa de Casamento”, os convidados da primeira lista declinaram do convite. Já os da segunda, formada por aqueles que vivem em situação desumana, são os que compareceram à festa. Segundo Frei Betto há uma nítida inversão: aqueles considerados “importantes” pelos olhos da sociedade são rejeitados; e os desprezados são os convidados especiais do rei.

É importante lembrar que Jesus nasceu, viveu e ressuscitou no reino de César, título dado aos 11 imperadores romanos. Desde o ano 63 a.C, a Palestina estava sob o império Roma. Toda a atuação de Jesus se deu sob o reinado do imperador Tibério Cláudio Nero César. A Palestina era governada por autoridades nomeadas por ele, como o governador Pôncio Pilatos e a família do rei Herodes. Predominava ali uma sociedade tributária, dirigida por um poder central, mantido pelos impostos cobrados das comunidades rurais e das cidades.

Portanto, falar em outro reino, como Jesus o fez dentro do reinado de César, era o equivalente hoje a defender a democracia. Ao contrário do muitos pensam, o Reino de Deus não é algo apenas relativo ao céu, mas, sobretudo, é algo a ser conquistado nesta vida e nesta Terra. E Ele foi o maior exemplo de como devem ser os homens e mulheres deste Reino: membros da civilização do amor, da justiça e da solidariedade. As bases desse processo civilizatório revolucionário estão na prática e nas palavras de Jesus. Betto destaca que: “se agirmos como ele, esse novo mundo se tornará realidade. Essa é a essência da promessa divina”. Retomando a questão da urgência e do essencial, a prioridade é estabelecer o Reino de Deus em meio à iniquidade e desumanização.

Atualmente, a humanidade produz alimentos para saciar 12 bilhões de habitantes em um planeta com cerca de 7 bilhões de pessoas. Se pensarmos nesse Reino de Deus – comparado a um banquete para os excluídos – não é possível nos conformarmos com a fome e a pobreza em um contexto de crescentes excedentes e recordes de produtividade dos alimentos. Ou ainda, que 8 bilionários no mundo concentrem a mesma quantidade de renda de metade da população empobrecida do mundo (Oxfam, 2017).

Com a proximidade do Natal, essa “festa de nascimento”, marcada por excelência pela solidariedade, devemos refletir como acomodar todos os necessitados à mesa durante os 365 dias do ano. No Reino de Deus, ou na Festa de Casamento, há fartura, provisão, alegria e justiça. O legado desse reinado nos mostra outros mundos possíveis, onde não há espaço para opressão, desigualdades e ganância.

Que na festa natalina você traga o Reino de Deus para a terra através de uma mesa sempre pronta a servir e combater todo tipo de violação de direitos que condena seres humanos iguais a conviveram em realidades desumanas e vergonhosamente desiguais. No banquete do Rei, não há falta.

 

Referências bibliográficas
Betto, F. Parábolas de Jesus: ética e valores universais. Petrópolis (RJ): Ed. Vozes, 2017.
Ziegler, J. Destruição em massa: geopolítica da fome. Trad.: José Paulo Netto. São Paulo: Ed. Cortez, 2013.

Relatórios
A distância que nos une (Oxfam)

O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (FAO)

Juliana Dias é jornalista e pesquisadora na área de alimentação, comunicação e cultura. Possui doutorado em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia (HCTE/UFRJ) e mestrado em Educação em Ciências e Saúde (Nutes/UFRJ). Coordena os cursos de pós-graduação e extensão em Jornalismo Gastronômico na Facha, integra a Comissão de Gastronomia do Estado do Rio de Janeiro .

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