Opinião JR Vargas: Meus super-heróis

Tenho pensado muito em super-heróis de carne e osso. Falíveis, frágeis, sofridos, feridos, magoados, amargurados e que ainda conseguem, tomar capa e máscara e enfrentar o pior e mais sujo adversário

JR Vargas - 07/03/2018 11h15

Nasci sob o impacto de muitos super-heróis. Da televisão, das telas do cinema, dos livros e quadrinhos, não faltavam histórias emocionantes, aventuras perigosas, mas sempre com um final feliz. Heróis não morrem, aprendi bem cedo. A despeito de surpresas, ciladas e armadilhas, uma virada sempre acontecia e uma vitória retumbante, como todas as demais, aparecia no final, sempre feliz. Esse conceito infantil de imortalidade tende a nos acompanhar. Somos apresentados à morte, descobrimos a finitude, todavia a expectativa de uma mudança incrível no roteiro nos acompanha até, até, até o fim. E, algumas vezes, o final não é exatamente feliz.

Na minha casa conheci muitos pastores. Meus pais, acolhedores e hospitaleiros, recebiam para jantar ou por alguns dias os meus super-heróis preferidos. Eles pareciam grandes, fortes e extraordinariamente inteligentes. Impressionava ver como conheciam a Bíblia, o livro mais importante de todos os tempos, e memorizavam versículos inteiros, contavam diferentes histórias, muitas delas de cor ou lendo uns papéis, que mais tarde aprendi que eram esboços.

O que também descobri, enquanto crescia, foi que meus heróis eram falíveis. Essa descoberta óbvia não foi traumática, mas libertadora. Não para mim, mas para eles. De uma forma curiosa eu mantinha meus heróis num lugar alto, num patamar acima, e, sem conhecimento ou consentimento deles. Eu os coloquei lá e os impedia de sair. Eram eles prisioneiros meus, como aqueles bonequinhos que os meninos brincam jogando dentro da água, uns contra os outros, para cima e para baixo.

A cerimônia de libertação dos meus heróis não foi suave. As turbulências agitaram a minha alma, mas atravessar aquele túnel foi duplamente bom. Eles, finalmente, estavam livres do meu julgamento, deixaram de ser meus brinquedos heróis, e se tornaram plenamente humanos. Para mim, foi excepcional. Primeiro, meu olhar continuou respeitoso e cheio de admiração, porém considerando que são feitos de barro, como todos os demais. Segundo, quando me vi pastor, não projetei uma imagem heroica para parecer maior, mas fiz, e faço, todo o possível para revelar que sou um igual. Sei que estou bem acompanhado nessa busca. Aprendi com Isaías. O relato do capítulo 6 é um primor. Diante da glória de Deus, fala o profeta: “Aí de mim. Eu sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios”. Ele se apresenta como um igual, tal qual o povo. O profeta mostra que quanto mais perto de Deus, mais saberemos quem somos. Diante do Senhor não há forma, nem razão para fingir. Tiago, irmão de Jesus, conta que “Elias era um homem semelhante a nós, sujeito às mesmas paixões”. O conceito da igualdade está devidamente provado, pelo menos para mim. Elias, o profeta mais humano descrito nas páginas do Antigo Testamento é visto por Tiago, líder da igreja primitiva, como um igual, da mesma maneira que ele se inclui no “semelhante a nós”, apesar de sua origem e laços familiares.

Tenho pensado muito nesses super-heróis de carne e osso, falíveis, frágeis, sofridos, feridos, magoados, amargurados e que ainda conseguem, com desmedido esforço, tomar a sua capa, máscara e enfrentar o pior e mais sujo adversário para ajudar a resgatar os que por ele foram atingidos. Duro é encontrar com alguns que nessas ou por causa dessas batalhas acabaram atingidos, caíram e foram largados nos campos de guerra. Há heróis buscando heroicamente sobreviver. Não brinque com eles. Ajude-os antes que seja tarde demais.

JR Vargas é pai do Lucas Campos Vargas; Pastor Plantador da Igreja Presbiteriana das Américas, na Barra da Tijuca, RJ; Radialista, Apresentador do Debate 93, da Rádio 93FM; Escritor; Graduado e Pós-graduado em Comunicação Social e Teologia.