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(In) tolerância religiosa

Ninguém deve impor a outro algo que esse outro rejeita

JR Vargas - 04/09/2017 10h02

(In) tolerância religiosa / Foto: Pixabay

O Jornal Folha de São Paulo veiculou a campanha “Hitler”, criada pela W/Brasil, em 1987, premiadíssima, inclusive com Leão de Ouro no Festival de Cannes, e também foi escolhida como um dos dois únicos comerciais brasileiros e ibero-americanos na lista dos 100 melhores de todos os tempos. No comercial, um pequeno ponto preto aparecia na tela da TV; em alguns segundos, centenas de outros pontos formavam um retrato em preto e branco. Era Hitler, o ditador nazista alemão. A voz falava de suas proezas: “Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo…”. O comercial terminava assim: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade. Por isso é preciso tomar muito cuidado com a informação no jornal que você recebe. Folha de São Paulo, o jornal que mais se compra e o que nunca se vende”.

A campanha foi baseada em uma fala de Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler. Atribui-se a ele a seguinte frase: “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”. A repetição de uma ideia e sua constante exposição pode formar ou deformar o entendimento de alguém sobre um determinado assunto. Se essa exposição for multiplicada por diferentes mídias e inserida no discurso de formadores de opinião, e ainda, se for criada uma ideia no inconsciente coletivo de que isso é o certo a se fazer e quem pensa diferente está redondamente errado, estamos diante de uma gravíssima situação.

Recebemos de Deus a bênção de sermos seres pensantes e assim não facilmente manipuláveis. Ainda que haja uma fortíssima pressão social, o que eu penso será preservado porque aprendi a pensar. Ninguém deve impor a outro algo que esse outro rejeita. Não é falta de respeito pensar diferente dos que pensam diferente de nós. Não se pode querer manipular a mente humana, especialmente das crianças, principal foco para um lado ou outro. O filósofo francês René Descartes aborda a questão da razão humana ao afirmar: “Penso, logo existo”. Pense e não se deixe controlar.

Fala-se muito em tolerar, mas o sentido de tolerância foi desterrado e seu significado original foi depravado, criando-se versões diferentes para a mesma palavra. O Dr. D. A. Carson percebeu esse movimento e elaborou uma importante distinção entre a antiga e a nova tolerância. Ele afirma que: “A antiga tolerância é a disposição para tolerar, permitir ou suportar pessoas e ideias das quais discordamos” – essa é maneira que defendo hoje aqui. Respeitar a quem pensa diferente não é igual a concordar. Tolerar os que defendem a ideologia de gênero, para citar um exemplo, é discordar da ideia, mas respeitar as pessoas. Não se pode, em nome das ideias, partir para a violência ou qualquer tipo de agressividade.

O Dr. Carson discorre sobre o que chama de “nova tolerância”, isto é, a que está em voga em diversas partes do mundo: “Em sua forma mais pura, a nova tolerância é o compromisso social de tratar todas as ideias e pessoas de forma igualmente correta, exceto pessoas que discordam dessa perspectiva da tolerância. Os defensores da nova tolerância sacrificam sabedoria e princípios em benefício de apenas um objetivo supremo: sustentar sua perspectiva da tolerância. Assim, aqueles que sustentam e praticam a antiga tolerância, por estarem inevitavelmente envolvidos com algum sistema de valores, são rotulados como intolerantes e excluídos, não merecendo mais lugar à mesa”.

Prefiro a antiga tolerância, ainda que nem sempre ela seja usada a meu favor. É ela que uso para acolher os que abraçaram a nova.


JR Vargas é pai do Lucas Campos Vargas; Pastor Plantador da Igreja Presbiteriana das Américas, na Barra da Tijuca, RJ; Radialista, Apresentador do Debate 93, da Rádio 93FM; Escritor; Graduado e Pós-graduado em Comunicação Social e Teologia.