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A cultura da aparência e sua influência

É razoável julgar um livro pela capa? É razoável comprar um produto por causa da embalagem?

JR Vargas - 09/05/2018 15h27

O quanto somos influenciados pela cultura da aparência? Vivemos numa cidade, num país, onde a aparência é muito importante. O mercado de academias tem se desenvolvido grandemente. A caminhada desse tipo de negócio é bem interessante. Se antes ocupavam lugares privilegiados em áreas comerciais, nas ruas, depois migraram para os principais shoppings e condomínios, seguindo o conceito de “cada vez mais perto”.

Saúde, bem-estar e aparência se destacam quando se busca uma academia. Consumir é um verbo conjugado constantemente nesse ambiente. Esse consumo aponta também para a importância da aparência.

Duas perguntas inocentes: O quanto o olhar do outro é importante para você? O quanto o seu olhar define o outro?

Vamos para uma boa livraria! Vamos nos assentar, escolher um livro e tomar um café. É razoável julgar um livro pela capa? É razoável comprar um produto por causa da embalagem?

Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria indica que 75% das empresas que investiram em embalagens tiveram significativo aumento em suas vendas. A pesquisa indica ainda que em produtos semelhantes o consumidor prefere o que possui a embalagem mais atraente, bela e prática.

Li uma reportagem que afirmava que à medida que o tempo passa, compreendemos que aquilo que nossos olhos nos dizem pode não ser tão verdadeiro, principalmente no que diz respeito à imagem pessoal de alguém e descobrimos então ser necessário ir um pouco mais além.

Embora a maturidade nos ajude bastante, psicólogos já sabem que a visão que desenvolvemos de uma pessoa pode não ser decorrente apenas e tão somente de nossas interpretações, mas profundamente influenciada por nosso cérebro primitivo. E, caso ainda você não tenha se dado conta, fique então ciente de que nossas preferências por certas pessoas estarão, de alguma maneira, atreladas àquelas que nos parecem mais atraentes.

Muitos estudos de psicologia já haviam provado a existência do chamado “estereótipo de beleza”, isto é, pessoas mais bonitas são tidas por seus pares como mais inteligentes, mais sociáveis e, finalmente, mais bem-sucedidas. É dessa forma que as pessoas se valem de certos sinais faciais para, automaticamente, poder fazer julgamentos a respeito do caráter de alguém; o que, diga-se de passagem, é uma parte determinante do funcionamento social.

Aristóteles, a esse respeito, dizia: “A beleza é a melhor carta de recomendação”.

“A beleza é uma carta de recomendação a curto prazo”, afirmava Ninon de Lenclos, escritora francesa.

Esse fenômeno tem em sua base uma de nossas tendências biológicas mais ancestrais ao compreender que uma pessoa mais atraente possivelmente será mais saudável e, portanto, com menos risco de carregar e/ou transmitir as doenças que tantas vidas dizimaram nos primórdios de nossa existência. Em épocas em que o conhecimento era escasso e a sobrevivência crucial, formar impressões imediatas a respeito de terceiros pode ter se revelado de grande importância.

De qualquer forma, mesmo que tenhamos avançado bastante no tempo, ainda carregamos essa predisposição.

De alguma forma a humanidade desenvolve esses estereótipos de beleza e força e os associam à credibilidade. Parecem mais confiáveis e seguros. Entretanto, o fato de estarmos imersos numa cultura que valoriza ainda mais a cultura da aparência deve nos levar a uma sincera autoavaliação.

Samuel, filho de Ana, também vivia numa cultura que era fortemente influenciada pela aparência. Vamos observar a escolha de Saul, o 1° Rei de Israel, I Samuel 9:1,2: “Havia um homem de Benjamim, cujo nome era Quis, filho de Abiel, filho de Zeror, filho de Becorate, filho de Afias, benjamita, homem de bens. Tinha ele um filho cujo nome era Saul, moço e tão belo, que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele; desde os ombros para cima, sobressaía a todo o povo”. A apresentação de Saul revela: sua família e sua aparência (beleza e altura).

Quanto essa cultura influenciou Samuel no episódio da unção de Davi? Vamos também à casa de Jessé, I Samuel 16:6-12: “Sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe e disse consigo: ‘Certamente, está perante o Senhor o seu ungido’. Porém o Senhor disse a Samuel: ‘Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração’. Então, chamou Jessé a Abinadabe e o fez passar diante de Samuel, o qual disse: ‘Nem a este escolheu o Senhor’. Então, Jessé fez passar a Samá, porém Samuel disse: ‘Tampouco a este escolheu o Senhor’. Assim, fez passar Jessé os seus sete filhos diante de Samuel; porém Samuel disse a Jessé: ‘O Senhor não escolheu estes’. Perguntou Samuel a Jessé: ‘Acabaram-se os teus filhos?’ Ele respondeu: ‘Ainda falta o mais moço, que está apascentando as ovelhas’. Disse, pois, Samuel a Jessé: ‘Manda chamá-lo, pois não nos assentaremos à mesa sem que ele venha’. Então, mandou chamá-lo e fê-lo entrar. Era ele ruivo, de belos olhos e boa aparência. Disse o Senhor: ‘Levanta-te e unge-o, pois este é ele’”.

Na casa de Jessé, Samuel revela o quanto a cultura da aparência havia dominado a sua percepção sobre as pessoas a ponto de levá-lo ao perigo de ungir o irmão do rei para o seu lugar.

E a gente corre esse mesmo risco hoje de seguir a cultura da imagem e da visibilidade. A questão da visibilidade é tão ampla e com as redes sociais atingiu um grau inimaginável.

A superexposição intencional ganha capítulos inéditos a cada minuto. A vida real parece ficção, mas não é, na verdade é muito pior.

Qual é a solução para isso tudo?

Ver as pessoas sob a ótica de Deus. O olhar de Deus nos leva a ver o outro e a nós mesmos de uma outra forma.

Samuel estava fazendo escolhas de acordo com seu olhar que era influenciado pela cultura da aparência. A escolha de Deus por Davi não leva em consideração o que a pessoa aparentemente é, ou seja, em sua superficialidade, na sua casca, na sua embalagem, mas aquilo que de fato é a pessoa. E o ponto não era a beleza, mas sim a força, que traduzia uma suposta valentia e aptidão para guerrear.

O que essa mudança produz? Uma valorização da sua existência e não da sua aparência. Quando há esse investimento na existência, não quer dizer que a aparência deva ser desprezada. Não se trata de aliança pelo descuido, afinal enquanto templo do Espírito Santo temos muito a cuidar. O que se trata aqui é da valorização daquilo que é verdadeiro e para sempre.

Aparência, por melhor que seja, por mais bem cuidada, não será perene, mas a existência sim. E quem cuida da existência também cuidará da aparência, contudo, nem todos que cuidam da aparência se preocupam também com a existência.

JR Vargas é pai do Lucas Campos Vargas; Pastor Plantador da Igreja Presbiteriana das Américas, na Barra da Tijuca, RJ; Radialista, Apresentador do Debate 93, da Rádio 93FM; Escritor; Graduado e Pós-graduado em Comunicação Social e Teologia.