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O exemplo que vem de Brasília – Parte 2

Aclamação ou declaração?

Jonatas Nascimento - 06/04/2020 12h01

Ainda falando sobre as impressões sentidas na Igreja Memorial Batista de Brasília quando lá estive recentemente promovendo um simpósio, hoje quero falar sobre o estatuto daquela igreja alterado em meados de 2017.

Quanto às finalidades, o novo estatuto não contemplou atividades de educação e assistência social trazidas por lei de 2015 que ficou conhecida como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil. E nisso não reside mal algum. Ela preferiu manter a sua missão precípua, que é a chamada PESCA (Proclamação, Ensino, Serviço, Comunhão e Adoração). Contudo não ignorou a sua vocação social ao inserir em suas finalidades o exercício da “misericórdia e da ação social”, o que significa dizer que ela contempla em seu orçamento uma parte das suas receitas de dízimos e ofertas para assistência aos menos favorecidos e aos desvalidos. Sem recursos externos.

Mas o que me chamou a atenção foi o Capítulo 2, na parte que trata da forma de admissão de membros. Tradicionalmente, os estatutos elencam dentre outras a possibilidade de alguém ser recebido por “aclamação”, mas a Memorial deixou claro que eventualmente poderá receber novos membros por “declaração”, o que é bem diferente, conforme venho falando há muito tempo.

Pergunte a um membro de uma igreja batista de qualquer parte do Brasil quais são as modalidades de ingresso de membros por lá e a resposta será: batismo (por imersão), transferência (por carta) e aclamação.

Abro parêntese: Em que pesem os pressupostos de independência e autonomia das igrejas batistas arroladas na Convenção Batista Brasileira, uma vez a ela filiadas deveriam seguir às suas orientações, mas nem sempre isto acontece, pois vez ou outra algumas delas tomam decisões diversas e acabam criando situações de embaraço para a Denominação. Mas isto é conversa para outro momento. Fecho parêntese.

Sempre entendi facilmente a ideia de batismo por imersão e também o ingresso de novos membros por carta de transferência daqueles crentes oriundos de outras igrejas da mesma fé, ordem e disciplina. A minha resistência é com o termo aclamação, por conta do seu sentido etimológico. Diga-se de passagem, aclama-se alguém quando eventualmente o egresso de igreja batista não consegue obter a sua carta de transferência, que é o documento que atesta que ele foi batizado nas águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Isto além da pressuposição de que o pretendente tenha sido aprovado na sua pública profissão de fé, com base nas doutrinas bíblicas defendidas pela denominação batista.

Feita esta introdução, passo a analisar o verbete aclamar: Os dicionaristas são concordes quanto às suas diversas acepções, mas todos concordam que em primeiro lugar está a ideia de saudar com entusiasmo; dirigir gritos ou brados a (alguém), como forma de saudação, louvor etc. Exemplo: “começaram a aclamá-lo antes mesmo que entrasse no recinto”; “a multidão permaneceu longo tempo a aclamá-lo”. Logo em seguida assim nos ensina o professor Antonio Houaiss: “receber, recepcionar ou reagir a (alguém ou algo), manifestando aprovação entusiástica; manifestar pública e coletivamente aprovação ou contentamento, com entusiasmo e de modo ruidoso, com gritos, aplausos etc. Somente lá no final das diversas conceituações é que está registrada a ideia de eleição ou escolha (de alguém) para cargo ou função, sem necessariamente os gritos e brados sugeridos para o ato de aclamação.

É certo que etimologicamente a palavra aclamar vem do latim e dá a ideia de “dar grandes gritos (de alegria ou raiva), interromper com clamores, apupar, declarar em alto e bom som, proclamar”.

Isto posto, penso ser aconselhável substituirmos a palavra aclamação por declaração em nossos estatutos e demais documentos, pois a rigor é o que ocorre nessas situações. Vamos a um exemplo prático: Determinada pessoa sai da sua terra de origem (Norte) para lugar distante (Sul) e depois de muitos anos resolve procurar uma igreja para se filiar e congregar. Declara que foi batizada, mas não consegue provar que foi batizada por falta de arquivos ou registros, não localização ou mesmo negativa da igreja que a batizou. Neste caso, ela declarará que foi batizada por imersão em uma igreja batista, filiada à Convenção Batista Brasileira, em nome da trindade, para remissão dos pecados, e então é recebida pela nova igreja, porém, sem alardes, gritos ou brados.

Portanto, acertou em cheio a IMB e eu ganhei respaldo para continuar defendendo a minha tese.

Jonatas Nascimento é empresário do ramo contábil na região metropolitana do Rio de Janeiro, graduado em Letras e Direito. Especialista em contabilidade eclesiástica, é autor do livro Cartilha da Igreja Legal.
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