Sobre ser elefante

Tenho muito orgulho por nunca ter enganado meus leitores nesses 20 anos de páginas escritas

Helder Caldeira - 20/05/2019 13h10

Nesses 20 anos de palavras escritas, sempre rendi imensa deferência às páginas de opinião. Quando comecei a escrever para jornais, a internet ainda fazia um ruído estranho após a discagem para o número telefônico do provedor de acesso e quando conseguíamos conexão de 56 kb/s era uma festa. Meu primeiro texto foi entregue em 1999 à redação do Jornal de Paraíba do Sul num disquete de 90 mm e publicado três dias depois. Um artigo sobre desenvolvimento econômico e rural. Devia ser bom, já que publicaram na capa. Ou era falta de assunto mesmo. Pouco importa. Comprei cinco exemplares e desnecessário é perguntar o porquê.

De lá pra cá, felizmente, muita coisa mudou. O papel é outro… lato sensu! Hoje, a explosão horizontal da informação na era das redes sociais transformou os modelos de comunicação e impôs novos desafios aos colunistas de opinião, sobretudo opinião política. Nos últimos anos, em especial, o acirramento do duelo entre polos ideológicos levantou poeira sobre a arena da credibilidade jornalística e acabou criando uma jabuticaba azeda: o colunista “isentão”.

“Isentão” é aquela figura que contorce e distorce a própria opinião para que possa defender ou criticar um ponto de vista fingindo estar em cima de um muro imaginário que, supostamente, o tornaria insuspeito. E a informação? Bom, diante do malabarismo, dane-se a informação. O que importa para o “isentão” é sair ileso.

Tenho muito orgulho por nunca ter enganado meus leitores nesses 20 anos de páginas escritas. Posso ter me equivocado em análises, mas jamais ludibriei quem lê quanto ao fato de ali não estar o ângulo de visão do autor. Minha digital nunca foi “ser isento”. Da mesma forma, nunca fui omisso. E mais: sempre desconfio quando um jornalista ou colunista se autoproclama “isento”. Informar é dar forma ao pensamento, moldar a ideia. E isso exige a responsabilidade direta do interlocutor. Quem informa, forma opinião.

É essa memória afetiva e severa que tenho com a palavra escrita e com a formação da opinião que me motiva e, de certa forma, me liberta. Palavras têm em si o vento da liberdade. Elas vão… nunca em vão.

Assim nasce a coluna Radar Político, com o objetivo de informar com opinião. Olhar para a Política e transformá-la em palavras, sem contorcionismos para fingir que sou “isento” de alguma coisa. Nesse sentido, quero publicamente agradecer a gerente de conteúdo Natalia Lopes pelo convite para escrever aqui e à toda equipe Pleno.News pela recepção e pelo espaço aberto. Sou-lhes gratíssimo.

Digo sempre e aqui reitero: o “isentão” é uma serpente escondida dentro do cesto. Prefiro ser o elefante na loja de cristais.

P.S.: Lembre-se: os elefantes nunca esquecem!

Helder Caldeira é escritor, colunista político e palestrante. Há duas décadas atua e escreve sobre a Política brasileira. É autor dos livros ‘Águas Turvas’, ‘Bravatas, gravatas e mamatas’, ‘Pareidolia política’, entre outros. Contato: eventos@heldercaldeira.com.br

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