A conspiração para enfraquecer Bolsonaro

Teorias conspiratórias? Teias de articulações? Nada disso

Helder Caldeira - 26/06/2019 15h44

Há quem viva sob o signo das teorias conspiratórias, imaginando teias de articulações em tudo. É um erro crasso, tanto quanto crer que conspirações simplesmente não sejam possíveis. Neste momento, por exemplo, há uma articulação política em curso para desidratar o presidente Jair Bolsonaro, deixando-o sangrar lentamente até 2022, com um governo estagnado e sem recursos para investimentos.

Não há, portanto, um movimento para depor o presidente da República, uma ruptura institucional de grande envergadura que ensejaria o uso das Forças Armadas para “fechar” Poderes, tese defendida pela ala bolsonarista mais radical. Isso é uma bobagem da estatura do ET de Varginha ou da grávida de Taubaté, algo que deveria atiçar a vergonha daqueles que espalham e consomem esse tipo de falácia.

O que existe, na verdade, é um movimento político para enfraquecer o Governo Bolsonaro de tal forma que torne inviável sua reeleição. Água mole, paulatinamente chocando-se contra o rochedo, tanto bate até que fura. Um furo aqui, outro acolá, vão minando de forma progressiva a gestão e a imagem do presidente. Nem é novidade. É o modus operandi de dois partidos, muito semelhantes em essência, que desejam voltar ao poder: PT e PSDB.

Aqui chegamos ao cerne do raciocínio. Vamos à maquinação…

É de domínio público que João Doria tornou-se a figura encarnada do alpinismo político. Seu desejo sempre foi sentar na cadeira de espaldar alto no terceiro andar do Palácio do Planalto. Fez uma passagem-relâmpago pela prefeitura paulistana, galgou o cargo de governador de São Paulo na garupa de Jair Bolsonaro e agora já quer disputar a Presidência da República em 2022.

Nesse sentido, é grande o empenho de Doria para mover o tabuleiro desde já, atuando ferozmente para ampliar seu coeficiente político a partir das eleições municipais de 2020, incluindo a construção de um arco de alianças partidárias que vai do DEM à boa parte dos partidos do chamado “Centrão”, chegando até às agremiações menos extremas da direita-liberal.

Não por acaso, o primeiro alvo do grupo tucano liderado por João Doria é o Rio de Janeiro, Estado politicamente devastado e que passa por um vazio de lideranças locais. O PSDB quer a prefeitura da capital carioca, custe o que custar.

O primeiro cooptado foi o empresário Paulo Marinho, que se tornou popular ao emprestar sua mansão no Jardim Botânico para as reuniões e gravações dos programas eleitorais de Bolsonaro em 2018. À época, Marinho filiou-se ao PSL e acabou nomeado suplente de Flávio Bolsonaro, então candidato ao Senado. Naquele momento, a estratégia era servir-se da “onda” para tentar emplacar a candidatura de Flávio à prefeitura do Rio. Mas, o vento virou…

A pré-candidatura acabou perdendo força, atingida por escândalos. Diz-se, inclusive, que foi justamente com esse fim que figuras notórias do cenário carioca atuaram para inflar os escândalos envolvendo Queiroz e outros assessores, sublimando todos os demais deputados estaduais envolvidos na farra das “rachadinhas”. Sob o mesmo viés, multiplicaram-se os ataques abaixo
da linha da cintura contra o vereador Carlos Bolsonaro, alguns, inclusive, impublicáveis tal é o nível da vileza.

Paulo Marinho, então, saiu do PSL e filiou-se ao PSDB, recebendo de João Doria a missão de reestruturar o partido em solo fluminense e construir um candidato tucano viável para as eleições municipais do próximo ano. Ato contínuo, deu-se a intervenção na Executiva Estadual, destituída, e a ascensão de Marinho à direção da legenda.

Vem daí o entrevero entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador João Doria quanto à sede do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1. Não é uma picuinha pueril, uma pirraça bairrista, como divulgam alguns tabloides brasileiros. Trata-se de retaliação política por conta da intervenção direta de Doria no reduto eleitoral da família Bolsonaro.

São do mesmo naipe as constantes estocadas de Rodrigo Maia no presidente da República. O atual chefe da Câmara dos Deputados está convencido de que, caso o PSDB não encontre um nome viável para disputar a prefeitura do Rio, o tucanato poderia estar disposto a apoiar sua candidatura pelo DEM, aliado de primeira linha nas últimas três décadas.

Vai além: a expectativa é que João Doria revisite a aliança PSDB-PFL que elegeu Fernando Henrique Cardoso e Marco Maciel em 1994 e 1998, concedendo a vaga de vice-presidente ao ex-prefeito carioca César Maia, pai do presidente da Câmara, ou até mesmo ao próprio Rodrigo Maia.

Nesse balaio de fortalecimento do DEM para formar a chapa presidencial de 2022, estamos assistindo, também, às diatribes do presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP), contra o presidente Jair Bolsonaro e seus projetos. Da mesma forma, restou indiscutível a desastrosa — propositalmente? — articulação política de Onyx Lorenzoni (DEM-RS) enquanto ministro-chefe da
Casa Civil, função que, diante das circunstâncias aqui narradas, lhe foram retiradas na última semana.

Não seria um espanto, inclusive, se o truque jurídico do ministro Gilmar Mendes no STF, na última quarta-feira (25), para tentar tirar o ex-presidente Lula da cadeia faça parte dessa engenharia política. Sabe-se que o líder petista não poderá ser candidato em 2022, tendo em vista as condenações já existentes e outras que sobrevirão. Mas, a convulsão social gerada pelos fatos, neste
momento, ajuda João Doria, pois paralisa ainda mais do Governo Bolsonaro em meio às reformas que precisam ser aprovadas no Congresso Nacional.

Por fim, some-se a tudo isso ao estado de calamidade financeira que Bolsonaro herdou. Mesmo quando consideradas as projeções mais otimistas, com todas as reformas aprovadas, o governo passará os próximos três anos com pouca margem de manobra para realizar investimentos e projetos de visibilidade eleitoral num país de cultura imediatista e viciado nas veias assistencialistas do
Estado.

Resumindo a ópera, há uma conspiração de atores e fatos para enfraquecer o presidente Jair Bolsonaro. Não é algo em termos de rompimento com o estado democrático de direito, de atuação de oníricas “forças ocultas” ou uma intentona comunista internacional. Isso é bobagem de quem não está tomando o anticonvulsivante corretamente.

O que temos, na verdade, é um jogo político duríssimo, travado nos bastidores, com o objetivo de construir as narrativas que vão sedimentar a disputa presidencial de 2022. É jogo de xadrez… e não é ilegítimo.

Helder Caldeira é escritor, colunista político e palestrante. Há duas décadas atua e escreve sobre a Política brasileira. É autor dos livros ‘Águas Turvas’, ‘Bravatas, gravatas e mamatas’, ‘Pareidolia política’, entre outros. Contato: eventos@heldercaldeira.com.br

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