Onde está a civilidade?

Pouco importa se você é doutor ou "peão", analfabeto ou letrado, constantemente julgamos nosso dia a dia mais complicado do que realmente ele é

Fábio Guimarães - 27/11/2017 14h15

Vivemos um tempo de desrespeito; começamos a conversar sobre isso na semana passada, aqui na coluna, com o artigo: Como liderar em uma época de divisão e desrespeito?. Abordamos especificamente as questões relacionadas ao problema no mercado de trabalho e como um líder pode e deve agir para nortear suas organizações em períodos conturbados de nossa civilização.

Oportunamente, esta semana, vamos abordar a diferença entre a falta de educação e atos de incivilidade que temos no dia a dia. Muitas vezes, agimos sem perceber. No mundo, em geral, e na sociedade brasileira, em particular, vivemos preocupados, com pressa, quase sempre nos descrevemos como pessoas com muito mais tarefas a fazer do que tempo disponível para a execução desses afazeres.

Interessante que pouco importa se você é doutor ou “peão”, analfabeto ou letrado, rico ou pobre, nós constantemente julgamos nosso dia a dia mais complicado do que realmente ele é.

Nesta era da informação, saber administrar nosso tempo realmente é um dom que todos nós precisamos desenvolver com sabedoria e discernimento.

Mas vamos lá, qual a diferença entre falta de educação e incivilidade? Essa diferença é uma linha tênue.

Falta de educação são atitudes reprováveis pela sociedade, atos que devemos evitar sempre. Temos inúmeros exemplos: jogar lixo na rua, som alto incomodando vizinho, usar o celular com áudio sem microfone, deixar de utilizar palavras como desculpa, me dê licença, obrigado, bom dia, boa tarde e boa noite, sempre que a ocasião assim “mandar”. Bem, por mais simples que pareça a descrição dos atos de falta de educação, acredite, muitas pessoas as negligenciam e continuam mal-educadas.

Se você conseguiu romper a barreira da falta de educação e, assim como eu, acha um absurdo essas atitudes: parabéns! Sim, estamos evoluindo enquanto sociedade.

E os atos de incivilidade? O que são? Como evitá-los? Sem recorrer ao dicionário vou arriscar defini-los de forma prática como sendo as atitudes que deveríamos evitar no dia a dia. Não chegam a ser atitudes propriamente de falta de educação, mas é quase isso. Vamos pensar em alguns exemplos?

  • Assentos reclináveis: Você está em um voo e assim que chega à sua poltrona a primeira coisa que faz é apertar o botão e colocá-la na posição “deitada”. Mas você sabe que ainda faltam 15 minutos para o voo decolar e que o cidadão que ficará atrás de você ainda nem chegou no seu assento. Acredite, você vai incomodá-lo, pois ele precisa sentar, arrumar as bagagens no bagageiro; e se estiver no corredor, possivelmente ainda levantará uma ou duas vezes para dar lugar às pessoas que ainda não chegaram e por aí vai. Mas você pode ter um pensamento egoísta do tipo, não estou fazendo nada de errado, nem sendo mal-educado, a poltrona foi feita para ser reclinável e eu estou exercendo meu “direito” de recliná-la, só isso. É verdade que as poltronas são reclináveis, mas seria civilizado você esperar todos se acomodarem para utilizá-las. Eu, por exemplo, além de esperar todos se acomodarem, espero a decolagem. E, ainda assim, antes de abaixar a poltrona, olho para o banco de trás para evitar desconforto ao meu próximo caso ele esteja com os joelhos próximos ou com uma criança. O mesmo raciocínio vale para bancos de ônibus do tipo executivo, de viagens intermunicipais ou mesmo do seu condomínio. Se você não age dessa forma tenha certeza que no mínimo você está exercendo um ato de incivilidade e não seu “direito” de reclinar a poltrona.
  • Escada rolante dos meios de transportes: Outro exemplo crítico, imagine que você está saindo de um metrô ou trem lotado, desses das grandes metrópoles como Rio ou São Paulo, onde todos os usuários estão com pressa, muitos atrasados para chegar ao trabalho e “bater seus pontos”. Aí, você fica parado no lado esquerdo da escada porque está exercendo seu “direito”. Cheguei primeiro nesse degrau, ele que espere… Não! Seria cordial, civilizado, que você, neste caso específico, ficasse à direita da escada rolante caso estivesse sem pressa para chegar ao trabalho.
  • Escada rolante do shopping: O inverso do exemplo acima. Se você está passeando em um domingo à tarde, no shopping, e há um belo casal abraçado nos dois lados do degrau da escada rolante à sua frente, você pode muito bem esperar alguns segundos e não atrapalhar o “love alheio”; o momento é de passeio e nada justifica tanta pressa ou incivilidade da sua parte.

Poderíamos dar infinitos exemplos de falta de educação ou incivilidade; como vimos esses atos estão sempre atrelados ao contexto social e ao momento, porém, o importante aqui é a reflexão e entendermos que, independentemente da correria que é o nosso dia a dia, se nos colocarmos no lugar do outro poderemos entender melhor suas angústias e evitar atos de falta de educação ou incivilidade. Precisamos mudar.

 

Fábio Guimarães é economista, formado pela UFRRJ com MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC-RJ. Palestrante, consultor e debatedor, atuou por mais de 10 anos como gestor nas áreas de trabalho e renda e desenvolvimento econômico.