Coluna Fábio Guimarães: Centenário de um exemplo de vida!

O mundo precisa de pessoas que falem menos e digam mais

Fábio Guimarães - 01/01/2018 08h00

Amigos do Pleno.news, hoje nossa coluna está longa, mas vale a leitura. Desista não! (Risos).

Escolha bem suas referências, isso é fundamental em sua vida. Semana passada na coluna, Equilíbrio, prioridades e liderança, falamos sobre abordagens para 2018. Hoje, no primeiro dia do ano, vou dedicar nossa coluna aos ensinamentos de uma pessoa especial em minha vida. Vocês vão gostar!

Aproveitem a reflexão para pensarem naquela pessoa especial para vocês e o que ela ou ele ensina(ou) e como tirar proveito desses ensinamentos para termos um ano de 2018 abençoado. Vamos lá:

Era uma quinta-feira ensolarada, dia 10 de janeiro de 1918. A Primeira Guerra mundial estava sendo travada; os Aliados estavam conquistando cada vez mais espaços. Longe da guerra, no noroeste fluminense nascia a “Dona Ana”, na roça, de parteira, uma guerreira nascida durante a guerra.

“Dona Ana” nasceu e cresceu na roça, não conheceu sua mãe, seu pai faleceu quando ela tinha 12 anos, suas memórias afetivas familiares eram mínimas, era analfabeta, como a maioria das mulheres pobres da época, trabalhava na lavoura de cana-de-açúcar.

Se casou cedo, com 24 anos, teve nove filhos, dois morreram ainda criança. Mas criou sete filhos, e um deles com paralisia infantil, deficiência física e mental.

E você aí achando que sua vida está difícil? Você ainda não viu nada…

Quando ela tinha uns 50 anos viu que a vida na roça estava ficando insustentável, tinha uma escadinha de filhos de todas as idades e precisava prover o mínimo de educação, trabalho e possibilidade de futuro para eles. Não pensou duas vezes, arrastou todos para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro e recomeçou a vida do zero como lavadeira e passadeira. Depois como vendedora de roupas de porta em porta.

Naquele momento, o importante, para ela, era possibilitar aos filhos estudar e trabalhar. Uns estudaram e outros trabalharam, mas todos evoluíram e tiveram, ou ainda têm, uma vida bem melhor do que imaginaram que podia existir naquela roça de outrora.

Era evangélica, com quase meio século de vida dedicado ao trabalho na Primeira Igreja Batista de Queimados, Rio de Janeiro.

Daqui a dez dias, no dia 10 de Janeiro de 2018, “Dona Ana” completaria 100 anos. Seu centenário merece ser lembrado com carinho por quem a conhecia e seus ensinamentos valem para todos, pois era uma pessoa especial. Ela faleceu exatamente no dia 10 de janeiro de 2014 quando completou 96 anos. Quatro anos depois a saudade é enorme, mas a satisfação de ter convivido e aprendido com ela é indescritível. A certeza de que ela exerceu com maestria sua passagem por aqui é reconfortante.

Abaixo uma breve descrição de como era a vida para a “Dona Ana”.

Exemplo de Vida!

Vó, infelizmente não posso mais lhe desejar muitos anos de vida, mas, me recuso, a não lhe dar o seu merecido PARABÉNS no próximo dia 10 de Janeiro. PARABÉNS por seus 96 anos vividos e por este centenário imortalizado por seus ensinamentos!

Acho que há pessoas que são especiais, tem um brilho, Deus deve mandar essas pessoas a Terra por um motivo específico, não sei qual é, mas arrisco um:

“Apontar para nós, pessoas normais, que Deus existe, é bondoso, misericordioso e habita dentro de cada um de nós através do seu Espírito Santo!”.

Por que tu sempre foste especial e nós pessoas normais?

Poderia ficar horas citando motivos, segue alguns:

Há pessoas que falam muito, mas dizem pouco, se filtrar o que elas falam, o aprendizado é mínimo. Já pessoas especiais, como você, às vezes falam pouco, muito pouco, mas dizem muito. E o mundo precisa disso, de pessoas que falem menos e digam mais! Você sempre ensinou sem estar lecionando, com seu exemplo de vida, seus gestos, bondade e, às vezes, também com palavras.

Mais? Sua genialidade! Sempre entendeu toda a complexidade da vida com uma SIMPLICIDADE ímpar. Os problemas, quase sempre complexos, foram enfrentados e vencidos por você com soluções tão simples, mas tão simples, que só gênios, pessoas especiais, conseguiriam tais respostas.

Mais? Sua Bondade! Incapaz de falar mal do próximo seja esse próximo “juntinho de nós” ou a quilômetros de distância.

Julgar outrem? Nem pensar!!!

– Fulana tem esse defeito terrível, vó!!! – 99% de nós, enfatizamos o defeito do próximo, às vezes com adjetivos ainda mais perversos que a realidade, defeitos reais, diga-se de passagem.

E o que você sempre fez? A resposta estava pronta, fulana tem esse defeito, mas em COMPENSAÇÃO tem essa, essa e essa qualidade e é nisso que temos que pensar.

Essa bondade sempre fez refletir em ti o Espírito de Deus, reflexo esse que confesso, nunca pude ver/perceber em nenhuma outra pessoa com tanta intensidade como em ti.

Lembro certa vez, numa das muitas tardes que tive o prazer de ficar conversando/aprendendo com você a seguinte frase: “Fulana assinava com o dedo”, essa sempre foi a VERDADEIRA IDENTIDADE do seu coração, identidade de uma sociedade onde temos o dever de buscar soluções, de ser felizes, mas podemos sim flexibilizar os problemas, onde os estereótipos não podem e não devem ser motivo de julgamento para ninguém! Para você vó, nunca existiu um A-NAL-FA-BE-TO, com toda a discriminação que a palavra soletrada carrega, apesar de sempre ter incentivado o estudo de todos os filhos e netos, para ti, a sociedade era dividida em pessoas que assinavam com caneta e outras com “tinta nos dedos”. Simples assim! Isso bastava!

Amigos leitores, esses ensinamentos que trago comigo partilho com vocês e desejo que todos vocês possam refletir sobre os ensinamentos que receberam e assim possamos construir um feliz 2018!

Fábio Guimarães é economista, formado pela UFRRJ com MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC-RJ. Palestrante, consultor e debatedor, atuou por mais de 10 anos como gestor nas áreas de trabalho e renda e desenvolvimento econômico.