O que os outros vão pensar?!

Se o que pretendemos é legítimo e correto, por que nos preocupamos com que os outros vão pensar?

Elaine Cruz - 07/12/2017 12h02

Somos pensados pelo outro desde antes do nascimento. São os outros que nos dão nome e sobrenome, que nos inserem (ou não) em uma família, que nos adjetivam como bonitos, feios, comilões, magrinhos, gordinhos, chatos, bonzinhos, bagunceiros, inteligentes, burrinhos, dentre outros. Os outros são nossos espelhos e, mais do que isto, nos formam e/ou deformam.

Algumas aves deixam o ninho materno em horas, e muitos animais em poucas horas estão provendo seu próprio alimento. Mas nós somos muito dependentes ao longo de muitos anos. Dependemos do outro para asseio, saúde, alimentação, e até para afeto. Como uma esponja, assimilamos os gestos, a linguagem, as atitudes e manias dos outros. Sim, eles são muito importantes na construção e constituição da nossa individualidade.

O problema reside no fato de que, especialmente a partir da adolescência, quando o processo de individuação vai se consolidando, precisamos ir definindo que atitudes e valores de outros vamos incorporar. Afinal, nossas escolhas, e não a dos outros, é que devem ser evidenciadas, até porque já entendemos que vamos colher, majoritariamente, o que plantarmos.

Precisamos sempre considerar o outro, com cuidados permanentes para não ferir ou desmerecer os conceitos e valores alheios. A Bíblia nos ensina a não escandalizarmos nossos irmãos, e todos sabemos o limites do bom senso e da educação. Devemos ser gratos pelos ensinos recebidos, pela instrução e conselhos dos que nos amam. Mas precisamos tomar cuidado para não vivermos atrelados só ao que os outros vão pensar ou falar, deixando de arriscar ou de vivenciar coisas simples do dia a dia.

Isto me faz pensar em uma texto que gosto, atribuído a Erma Bombeck:

“Aos 3 anos ela olha pra si mesma e vê uma rainha.
Aos 8 anos ela olha pra si mesma e vê Cinderela.
Aos 15 anos ela olha pra si mesma, vê uma bruxa e diz: ‘Mãe, eu não posso ir pra escola desse jeito!’.
Aos 20 anos ela olha pra si mesma e se vê ‘muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa, com cabelo muito liso/muito encaracolado’, mas decide que vai sair assim mesmo.
Aos 30 anos ela olha pra si mesma e se vê ‘muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa, com cabelo muito liso/muito encaracolado’, mas decide que agora não há tempo para consertar essas coisas. Então, sai assim mesmo.
Aos 40 anos ela olha pra si mesma e se vê ‘muito gorda/muito magra, muito alta/muito baixa, com cabelo muito liso/muito encaracolado’, mas diz: ‘sou uma boa pessoa’ e sai mesmo assim.
Aos 50 anos ela olha pra si mesma e se vê como é. Sai e vai para onde ela bem entender.
Aos 60 anos ela olha pra si mesma e se lembra de todas pessoas que não podem mais se olhar no espelho. Sai de casa e conquista o mundo.
Aos 70 anos ela olha pra si mesma e vê sabedoria, risos, habilidades… Sai para o mundo e aproveita a vida.
Aos 80 anos ela não se importa muito em olhar pra si mesma. Simplesmente põe um chapéu violeta e vai se divertir com a vida.
Talvez devêssemos pôr aquele chapéu violeta mais cedo!”

Se dentro da perspetiva bíblica e relacional o que pretendemos é legítimo e correto, por que nos preocupamos com que os outros vão pensar? Vamos aproveitar a vida. Toda ela é um presente de Deus!

Elaine Cruz é pastora no Ministério Fronteira, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro; Psicóloga clínica e escolar, especializada em Terapia Familiar, Dificuldades de Aprendizagem e Psicomotricidade; Mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense; palestrante e conferencista internacional, com trabalhos publicados no Brasil e no exterior; Mestre em Teologia pelo Bethel Bible College (EUA); e membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil, com oito livros publicados.