A trilha sonora de cada um de nós
David Lisboa Neto - 24/06/2017 12h52

Música sempre fez parte da minha vida. Meu avô era organista e regente do coral da igreja da qual fazíamos parte. Nossos encontros e comemorações em família eram sempre regados à música, normalmente cantada em “vozes”. Cada um já sabia a voz correspondente ao seu naipe, e a harmonia fluía fácil e afinada. Todos levavam à sério a regência doce e ao mesmo tempo firme do “vovô David”, que, antes de descer a batuta indicando o início da canção, murmurava a primeira nota de cada naipe aos ouvidos atentos de todos. Era uma festa! Ao final de cada canção, entreolhávamos com um sorriso orgulhoso, porém discreto, em reconhecimento da boa performance.
Logo meu interesse passou a ser por instrumentos musicais. Comecei a estudar piano erudito, mas sempre gostei mesmo de “tocar de ouvido”. Meu avô me ensinou os primeiros acordes.
No início da adolescência descobri o rádio e passei a gastar horas ouvindo e esperando para ouvir as “levadas” de Earth, Wind & Fire que acabaram me seduzindo a aprender (sozinho) a tocar baixo. Eu usava as quatro cordas mais graves do violão e tentava reproduzir o que ouvia.
Foi nessa época que as memórias musicais começaram a se formar em mim. Não é incrível como apenas algumas notas de uma canção são capazes de nos transportar quase que instantaneamente a lugares, momentos e situações que vivenciamos?
Já ouvi muitos amigos dizerem que a música da “nossa época” é que era boa ou que já não se fazem mais músicas como antigamente. De fato, acredito que estamos num momento de “seca” de boas músicas. Músicas com letras bem elaboradas, com uma poesia cuidadosa e que busca soluções harmônicas, melódicas, e na sua forma (estrofe/coro/ponte), menos óbvias e repetitivas; que se arriscam e fogem do lugar comum ― da fórmula batida que garante, ou pelo menos pretende garantir, um “hit”.
Mas será que, de fato, é só uma questão de qualidade das músicas que impede que essa percepção positiva se forme em nós, gerando o mesmo tipo de sensação que aquelas canções de “antigamente”? Ou haverá algum comportamento que nos faz perceber e consumir música de maneira que anule essa percepção agradável?
Quando eu era garoto, tinha uns poucos LPs ― que, na verdade, eram do meu pai ― os quais eu ouvia à exaustão. O rádio se resumia a uma ou duas emissoras que basicamente tocavam os mesmos “sucessos”. Quando finalmente tive acesso a um gravador K-7, pude começar a fazer a minha própria seleção de músicas dos LPs e das tentativas de gravar das rádios as músicas que eu conseguisse. Essas compilações valiam ouro! Mesmo com a chegada dos CDs, ainda era muito difícil conseguir alguns títulos. Quando raramente encontrados, eram caríssimos.
Acredito que essa escassez acabou por nos forçar a consumir as mesmas músicas repetidas vezes; isso, talvez pela repetição e insistência, foi marcando nossas emoções e nos levando a apreciar melhor aquilo que tínhamos disponível ― aquela coisa de “água mole em pedra dura”, sabe? Não era raro achar um disco chato na primeira vez e depois, com o tempo, ir se “acostumando” com ele até que se tornasse um favorito, não é verdade?
Hoje, ao contrário, temos à nossa disposição, literalmente, uma infinidade de músicas em uma infinidade de mídias. CDs, DVDs, mp3, YouTube, Spotify, Deezer. Só para citar algumas.
O Spotify sozinho tem um catálogo de mais de 30 milhões de músicas. Não. Eu não errei o número. Mais de 30 milhões de músicas de acordo com o próprio site! Numa conta rápida, se eu passar os próximos 50 anos ouvindo música 12 horas por dia, considerando 4 minutos a duração média de cada música, ao final desses 50 anos terei ouvido apenas 10% do catálogo atual do Spotify. Dá para imaginar?
Sem dúvida, aplicativos de streaming como Spotify são uma solução incrível. Ouvir o que quiser a qualquer hora e em qualquer lugar parece muito atraente.
Mas a experiência comum com esse tipo de tecnologia é que, depois de criar minha playlist com minhas músicas favoritas, acabo ficando apenas nelas, e todo esse universo acaba permanecendo desconhecido. Romper com esse paradigma é o desafio das novas plataformas digitais.
A música mudou. As mídias mudaram. Eu também mudei. Cresci, amadureci. Todavia, a música sempre será um instrumento para tocar a alma e estabelecer marcos na nossa vida. A trilha sonora de cada um de nós.




