Como lidar com a doação de medula óssea?

Leitor quer doar medula e questiona sobre mitos e verdades

Como Lidar - 01/05/2018 09h36

“Uma amiga muito próxima está com leucemia. Ela e a família dela têm pedido que amigos e familiares se cadastrem como doadores de medula óssea. Como é isso? Podem ser vários doadores? Outra coisa, comecei a ler sobre o assunto e encontrei informações muito diferentes sobre o assunto. O que é mito e o que é verdade na doação de medula? Gostaria de ajudar, mas por desconhecimento, não sei exatamente o que fazer. Como lidar?”.

Sérgio do Carmo, Belo Jardim, Pernambuco

Resposta:
Antes da doação da medula óssea, propriamente dita, é necessária a seleção e o cadastro do doador no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). A seleção do doador e o cadastro no Redome (banco de doadores) são feitos no banco de sangue de qualquer hemocentro. No Rio de Janeiro, além do Hemorio, o cadastro pode ser feito na unidade I do Inca, na praça da Cruz Vermelha.

O voluntário à doação deve se informar sobre o horário de funcionamento do banco de sangue do Hemocentro da sua região. Ao chegar ao local, deve se identificar como interessado na doação de medula. Ele deverá preencher um questionário igual ao da doação de sangue e, se for apto à doação, será coletada pequena amostra de sangue da veia do braço, como em um exame de sangue normal. Pronto!

Após os resultados dos exames realizados nesse sangue coletado, o cadastro no bando de doadores poderá ou não ser concluído. Agora, é só esperar alguém ser compatível com você e o Redome entrar em contato.

Caso esse contato seja feito, será iniciado todo o processo que pode levar ou não à doação da medula óssea. O processo compreende consulta com o médico do transplante, exames complementares para avaliar a saúde do doador e exames de sangue confirmatórios para avaliar compatibilidade com o receptor. Ao final, se a conclusão for positiva, a doação será autorizada.

Um banco de medula óssea nada mais é que um sistema de computador que armazena os dados do doador, como a tipagem HLA (a assinatura do DNA), e cruza com os dados dos receptores. Dessa forma, são identificados aqueles que são compatíveis para que sejam contatados e convidados a comparecer. Sim, convidados. Só doa a medula óssea quem aceita o processo. Não é porque o doador se cadastrou, um dia que não poderá mudar de ideia. Por isso, quando é encontrado algum receptor compatível com você, o Redome entrará em contato e fará o convite para comparecimento.

Agora, como você bem lembrou, existem mitos no processo de doação. Vamos a eles?

1. Só há uma forma de doação de medula óssea. Mito.
O procedimento pode ser feito de duas formas: diretamente da medula óssea ou no sangue periférico. A escolha será feita pelo médico transplantador na dependência de vários fatores, entre eles, qual a doença do receptor.

Se a doação for diretamente da medula óssea, o doador será levado ao centro cirúrgico. E, sob anestesia, será coletado sangue de dentro do osso do quadril com uma agulha especial para esse procedimento. Durante todo o processo, o doador fica sedado (“dormindo”) e, quando desperta, já está tudo terminado. Não há dor.

Já na doação da célula tronco pelo sangue periférico, há uma máquina muito parecida com a máquina de hemodiálise que é capaz de reconhecer o que é célula-tronco, separar numa bolsa, e devolver todo o restante do sangue para o doador. Chamamos esse procedimento de aférese. O doador dica acordado, deitado em uma cadeira de doação de sangue, confortável, com um acesso na veia do braço, aguardando o procedimento terminar. Enquanto está sendo feita a aférese, o doador pode ver televisão, mexer em eletrônicos, ler um livro ou até mesmo cochilar.

2. Amamentação, tatuagem, vacina e jejum não impedem a doação. Mito.
São muitos detalhes que tornam um doador apto à doação ou não. Por isso, é necessária a aplicação do questionário e a entrevista com um profissional de saúde no processo que precede o cadastro do doador. Mas, para facilitar um pouco, chamo atenção para alguns pontos importantes: a idade é de 18 a 65 anos. Doenças autoimunes ou qualquer tipo de câncer tornam o doador inapto, bem como o jejum, tatuagem recente, gestação, amamentação, vacina da febre amarela há menos de um ano, privação de sono, hepatite B e C e entre outros.

3. A doação de medula óssea deixa a saúde do doador debilitada. Mito.
Depois da doação, pode haver uma anemia transitória. Mas, como estamos falando de doadores, ou seja, indivíduos saudáveis, não há impacto algum na saúde. A própria medula óssea resolve essa anemia, que pode ter uma ajuda do uso de ferro oral por pouco tempo após a doação.

4. Qualquer pessoa que se cadastre no Redome se torna automaticamente um doador. Mito.
Antes de se voluntariar à doação da medula óssea, é importante saber que nem sempre será possível concluir o cadastro. O desejo de ser um doador nem sempre atende aos critérios para doação. E isso não é demérito. Os critérios utilizados para aceitar ou não um voluntário para doação são extremamente rigorosos e visam não apenas o cuidado com o receptor, mas, também, proteger o doador.

Lembre-se de que o receptor é uma pessoa com uma doença grave e que está totalmente vulnerável do ponto de vista de defesa. Sendo assim, algo que não traz qualquer risco para as pessoas saudáveis pode ser fatal para o receptor de medula óssea. Além disso, o doador é um voluntário saudável e, por isso, é inaceitável submetê-lo a riscos. Dessa forma, os critérios de avaliação devem ser seguidos à risca.

5. O receptor de medula óssea não tem pressa de receber a doação. Mito.
Todos os receptores, que podem ser desde um bebê até um adulto, têm doenças muito graves malignas ou doenças hematológicas benignas e não conseguirão viver muito tempo sem um transplante de medula óssea. São pessoas frágeis do ponto de vista de defesa. As principais doenças que precisam de transplante alogênico (ou transplante com doador) são leucemias, aplasia medular, alguns tipos de linfomas, entre outras.

6. Posso me cadastrar no Redome para fazer uma doação personalizada? Mito.
É importante saber que não é possível se cadastrar no banco de doadores (Redome) para uma pessoa específica. A busca é feita para todos os receptores que estão ali precisando de um doador.

Espero ter ajudado.

Luciana Conti Castilho é hematologista do Grupo Oncoclínicas, no Rio de Janeiro (RJ).

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