Leia também:
X A mudança brusca na estratégia da esquerda brasileira

O conflito árabe-israelense após o Terror do TikTok

Jovens árabes gravaram vídeos provocando os judeus e postaram em suas redes

Bia Kicis - 02/06/2021 12h32

Israel Foto: EFE/EPA/ABIR SULTAN

“Só se ouvia, vinda do rádio no último volume, a voz profunda e áspera do locutor americano que eletrizava o ar frio da noite, ou poderia ser a voz do presidente da Assembleia, Oswaldo Aranha, do Brasil. Um depois do outro, ele lia os nomes dos últimos países da lista, pela ordem alfabética inglesa, e repetia imediatamente a resposta do representante ao microfone. […] Então a voz profunda, um tanto rouca, a estremecer o ar por meio do som do rádio anuncia o resultado da contagem num tom seco e áspero, mas com indisfarçável regozijo: ‘Trinta e três a favor. Treze contra. Dez abstenções e um país ausente da votação. A proposta foi aceita'”.

O trecho acima foi escrito pelo escritor israelense Amós Oz, em seu livro de memórias De Amor e Trevas. O autor narra, emocionado, suas lembranças do dia 29 de novembro de 1947, quando um brasileiro, Oswaldo Aranha, presidiu a sessão e anunciou o resultado da votação a respeito da partilha do território da palestina na recém criada ONU.

A ideia de um lar nacional para os judeus, até então espalhados, nasce ao final do século 19. Após diversos casos de perseguições, que remontam desde a Idade Média, e dos Pogroms (nome dado aos violentos ataques contra comunidades judaicas no leste europeu e em outros países) no século 19, os judeus, por meio do movimento Sionista, começam a retornar à terra de Israel.

Neste contexto, a região vivia sob o mandato britânico, o qual foi fruto da partilha do Império Otomano, após o final da Primeira Guerra Mundial. O território de domínio britânico abrangia o atual estado de Israel e o atual país Jordânia.

Nesse ínterim, ocorreu a fatídica Segunda Guerra Mundial, e os horrores do Holocausto chocaram a humanidade. O Reino Unido, desgastado pela guerra e sob pressão dos Estados Unidos, começou a fazer planos para se retirar da região. Já havia judeus e árabes convivendo no território, e os conflitos entre eles já eram frequentes.

A ONU, criada para substituir a Liga das Nações, com a devolução do território da Palestina pelos britânicos, encarregou-se de elaborar, por meio de uma comissão, um plano de partilha da região.

A partilha previa um território judeu, um território árabe, e Jerusalém como uma “zona mista” controlada pela comunidade internacional. A proposta foi aceita pela comunidade judaica, mas rejeitada pela Liga Árabe. Isto deu origem ao conflito que resultou, em 14 de maio de 1948, na declaração de independência do Estado de Israel.

Desde então, a região já presenciou diversos conflitos. Entre eles se destacam a guerra dos Seis Dias, de 5 a 10 de junho de 1967, na qual Israel venceu a Síria, a Jordânia e o Egito; e a guerra do Yom Kippur, que ocorreu de 6 de outubro a 26 de outubro de 1973.

Alguns grupos terroristas nascem nesse meio tempo (como o Hamas e o Fatah, o Hezbollah e a Jihad islâmica). E, entre conflitos menores e diversos acordos de paz e de cessar fogo, chegamos aos dias atuais.

Os últimos acontecimentos trouxeram à tona ao debate público o conflito árabe-israelense, mais uma vez. As coisas começaram a esquentar com o que ficou conhecido como “Terror do TikTok”, em que alguns jovens árabes gravaram, em seus celulares, vídeos provocando os judeus e postaram-nos em suas redes sociais.

Isso se espalhou, e, em poucos dias, todo o território de Israel se tornou palco de incidentes, o que revoltou grupos de jovens judeus, iniciando um clima hostil entre ambos.

Semanas depois, veio o resultado da longa disputa judicial das casas do bairro árabe Sheik Jarrah, um bairro judaico que foi dado aos palestinos pelos jordanianos durante a ocupação da guerra dos 6 dias.

A corte israelense deu seu veredito a favor dos herdeiros legítimos das casas do bairro. A corte alegou que as escrituras de compra dos imóveis, pelos judeus, eram válidas e que os árabes poderiam ficar no local desde que pagassem aluguel. Os árabes ocupantes se recusaram a pagar e, ainda por cima, aumentaram as construções ilegalmente. A corte, então, decidiu pelo despejo.

Esses dois motivos foram suficientes para encorajar o Hamas, grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza, a incitar árabes-israelenses contra o Estado israelense.

Foi o início de uma escalada de manifestações violentas e de confrontos com a polícia israelense, em alguns bairros e no Monte no Templo. O ápice do conflito ocorreu no Dia de Jerusalém, data festiva na qual Israel comemora a unificação da cidade sagrada sob controle israelense. No fim da tarde, o Hamas lançou foguetes de Gaza contra a capital Jerusalém.

Além de violentos conflitos entre grupos de árabes nos bairros mistos, Israel se viu arrastado para um conflito ainda maior do que o último, ocorrido em 2014.

O exército israelense atacou fortemente alvos terroristas na Faixa de Gaza nesses últimos 11 dias como retaliação aos mais de 4 mil foguetes lançados contra seu território – foguetes que teriam posto um fim à vida de milhares de inocentes, se não fosse o eficaz sistema de defesa aérea antimísseis, o Iron Dome.

É importante deixar claro que a guerra não ocorre entre Israel e os palestinos, e sim contra os grupos terroristas Hamas e a Jihad Islâmica. São inúmeros os casos de palestinos que sofrem abusos e, por vezes, são feitos de escudo humano pelo Hamas, na Faixa de Gaza.

Na última semana, entrou em vigor um cessar-fogo mediado pelo Egito, mas o cessar-fogo não é um acordo de paz. Acredita-se que é uma questão de tempo até que haja uma outra operação militar na Faixa de Gaza.

As causas dos conflitos na região são mais profundas do que apenas uma questão de demarcação de fronteiras, Israel luta pelo seu direito de existir; afinal, em 2018, o líder sênior do Hamas afirmou: a “Palestina é do mar mediterrâneo até o rio Jordão, e nós (o Hamas) nunca, nunca, nunca iremos reconhecer Israel”.

E não há nada mais cruel do que a declaração do mártir Iman Hasan al-Banna, na Carta de Fundação do Hamas, onde ele diz: “Israel existirá e continuará existindo até que o Islã o faça desaparecer, como fez desaparecer todos aqueles que existiram anteriormente a ele”.

Há duas declarações bastante atuais da primeira ministra Golda Meir que ajudam a lançar luz no papel de Israel nesse conflito. Uma declaração foi dada no Clube Nacional da Imprensa, em Washington, em 1957. Ela disse: “A paz virá quando os árabes amarem os seus filhos tanto quanto nos odeiam”. E a outra é a celebre declaração em que ela afirma: “Se os palestinos baixarem as armas, haverá paz. Se os israelenses baixarem as armas, não haverá mais Israel”.

O Brasil, nos últimos governos, infelizmente votava contra Israel na ONU. De forma diversa do que vinha sendo feito, o governo Bolsonaro tem se aproximado de Israel desde 2018, trazendo de novo a amizade e o respeito adquiridos pelos méritos de Oswaldo Aranha no passado.

Nós sempre reconheceremos o direito de Israel existir e de se defender.

Que haja paz em Israel e no Oriente Médio!

Bia Kicis foi procuradora do Distrito Federal durante 24 anos, ativista e atualmente é deputada federal pelo PSL/DF.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News.
Siga-nos nas nossas redes!
WhatsApp
Entre e receba as notícias do dia
Entrar no Grupo
Telegram Entre e receba as notícias do dia Entrar no Grupo
O autor da mensagem, e não o Pleno.News, é o responsável pelo comentário.