Partidos na TV, eleitores no Youtube e votos na urna

Os grandes partidos fizeram suas convenções, definindo seus nomes à presidência e vice-presidência, de olho na composição do tempo de TV

André Mello - 10/08/2018 10h52

Em uma campanha com 15 pré-candidatos, os grandes partidos fizeram suas convenções, definindo seus nomes à presidência e vice-presidência, de olho na composição do tempo de TV. O tempo de campanha televisiva definiu a eleição em 1994, 1998, 2010 e 2014. Mas perdeu em 1989. Será uma reprise? Ou chegamos ao tempo do Youtube?

TEMPO DE TV
Em 2012, Lula aliou-se ao adversário histórico, Paulo Maluf, de olho no tempo de campanha na TV para as candidaturas coligadas. Ganhou.

Em 2014, a articulação que levou Michel Temer à vice-presidência também levou em conta a coligação partidária no “horário eleitoral gratuito”.

No atual jogo político, repetidas vezes, esse é o jogo. E todos pagamos por isso…

GRATUITO, MAS COM DINHEIRO PÚBLICO
A propaganda partidária é feita, no Brasil, através de cotas de inserções publicitárias, proporcionais ao número de parlamentares, pagas com o fundo partidário (isso é, com o dinheiro dos impostos). É um sistema desenhado para manter quem está no poder – sem grandes mudanças. Quanto mais deputados e senadores existirem nas bancadas dos partidos, maior o tempo de propaganda.

Pela lei, no Brasil, não é possível fazer campanha com comerciais pagos por empresários, ou eleitores – como acontece nos Estados Unidos. Só existe o horário eleitoral “gratuito”, normatizado pelos TRES e pelo TSE. A Justiça eleitoral, nesse período, pode até multar, ou impugnar as candidaturas que infringirem as regras.

DOTES E VICES
Os partidos, beneficiados pelas leis que ajudaram a construir, aproveitam o percentual previsto de propaganda para apresentarem-se como “noivas cobiçadas”, com grandes dotes. Negociam as vagas de coligações regionais, suplências e “vices” – sempre em troca de uma coligação com mais tempo de propaganda.

A SUPERCOLIGAÇÃO
Uma coligação como a que foi construída por Geraldo Alckmin(PSDB), além de garantir uma “bancada de deputados para apoio ao governo” , também assegura que o candidato terá 44% da propaganda – com 12 inserções por dia. Corremos o risco de ver o Alckmin na TV mais do que o Neymar, em comerciais…

Na prática, os partidos utilizam esse tempo midiático, em estratégias de marketing político. O PSDB e a supercoligação formarão uma verdadeira máquina de notícias, à caça de votos.

TRINTA E CINCO DIAS, MAIS QUE A COPA DO MUNDO
Durante 35 dias, a TV e o rádio serão inundados por candidatos, coligados a Alckmin.

O eleitorado que pode, há anos, migra para a TV por assinatura e enche o carro de pendrives. Mas quem não pode – a maioria, que faz diferença na eleição – esbarra o tempo todo nos candidatos. No meio do jogo, da novela, pela manhã, no almoço e no jantar. Os institutos de pesquisa, IBOPE e DATAFOLHA, por exemplo, atestam que, nesse caso, a propaganda eleitoral obriga o eleitor a escolher seu candidato, abandonando a resposta espontânea inicial. E a propaganda pró-candidato é a que menos importa.

DEMOLIÇÃO MIDIÁTICA
Boa parte das estratégias de marketing eleitoral insiste em veicular a imagem positiva do candidato, mas uma estratégia, cada vez mais recorrente, consiste em escolher um alvo negativo. “Demolir” o adversário através da propaganda eleitoral gratuita, mesmo com eventual direito de resposta, tornou-se uma grande jogada – com spots de TV e rádio bombardeando, várias vezes ao dia, as fraquezas e os pontos fracos. Respostas emocionais dos eleitores, nesse caso, não podem ser vencidas pelo discurso dos candidatos.

MEDO E RAIVA EM CAMPANHA
Mobilizar o eleitor contra candidaturas, para que ele vá votar com medo, ou raiva (reativamente) é um dos segredos do marketing político.

Em 1989 e 2002, o “medo do PT” foi transformado em estratégia de mídia. E a TV é, em especial, a grande demolidora de imagens.

Em 2014, a propaganda do PT centrou fogo em Marina, para assegurar a vaga de segundo turno para Dilma – e as imagens mostravam a candidata ao lado dos que defendiam os banqueiros, enquanto a comida sumia da mesa.

Em 2002, o PSDB fez o mesmo com Ciro Gomes – aproveitando-se de alguns momentos de agressões verbais.

MARINA E BOLSONARO
Até o momento, Marina e Bolsonaro lideram as pesquisas por voto espontâneo – com Lula inelegível.

Marina terá um spot de 24 segundos, por dia; Bolsonaro, apenas 7 segundos (uma inserção a cada três dias). Por isso, ambos estão apostando em campanhas DE e PARA a Internet. Nas redes sociais e, em especial, no Youtube, começaram a aparecer campanhas impulsionadas (“promovidas”, na linguagem das mídias).

O problema, para o IBOPE, é que 60% dos eleitores informam-se através da TV. Assim, embora a Banda Larga tenha mudado o perfil de audiência dos mais jovens, boa parte da população não tem acesso a dispositivos (smartphones) e pacotes generosos de dados. Ou seja, será a primeira vez em que o tempo de TV será confrontado com outras mídias, nas eleições. Falar aos mais pobres é o grande desafio dos candidatos impulsionados por Internet.

VOX POPULI, CONTRA A TV
Marcos Coimbra, presidente do Instituto de Pesquisas Vox Populi, assegura que as convenções partidárias e as cúpulas políticas entraram nesse jogo, na retranca. Ele lembra que, em 1989, Collor não dispunha de um exército de prefeitos e venceu Ulisses Guimarães (que tinha um latifúndio de TV). FHC e Dilma, também, não teriam sido eleitos por causa da mídia, mas por fatores outros – como o Plano Real e o bolsa família.

Além disso, o pesquisador aposta que é preciso criar novos modos de comunicação com os eleitores, em sua maioria vacinados contra a “marquetagem”. Assim, a vitória de Alckmin, nas articulações pelas coligações é duvidosa. E, da mesma forma, as “derrotas” de Ciro, Bolsonaro e Marina são questionáveis – ainda que não tenham conseguido atrair blocos suprapartidários.

31 DE AGOSTO
O início da propaganda eleitoral no rádio e TV começa no último dia do mês de agosto. Então, na prática, o mês de setembro será o tempo de definir quem sai “vivo ou morto” dessa batalha entre as velhas e as novas mídias.

Como o primeiro turno ocorrerá em 7 de outubro, quem não conseguir melhorar a intenção de voto em setembro chegará às urnas sem força. Como o eleitor votará sem celular na urna e sem propaganda eleitoral na véspera, os especialistas apostam em uma campanha extremamente agressiva por parte dos maiores partidos.

Em resumo, teremos uma concentração partidária maior, com alguns nomes já conhecidos voltando ao parlamento.

BIPARTIDARISMO BRASILEIRO
Alberto Carlos Almeida, professor da UFF e cientista político, assegura, em seu livro O Voto do Brasileiro, que o segundo turno será entre PT e PSDB.

A razão, na prática, está associada ao tempo de propaganda (são os dois maiores) e à capilaridade, porque lançaram candidatos competitivos e com fortes alianças aos governos dos estados, câmara e senado.

Além disso, aposta-se que o sistema político brasileiro, ao contrário do sistema eleitoral norte-americano, é refratário aos outsiders. Trump jamais conseguiria dobrar as máquinas partidárias brasileiras, como aconteceu no partido republicano estadunidense. É, porém, uma tese a ser verificada.

1989, OUTRA VEZ
Os paralelos entre a eleição de 1989 e a atual empolgam aqueles que apostam em rupturas do bipartidarismo (PSDB-PT).

Em 1989, eram 22 candidatos. Os partidos mais antigos saíram das urnas derrotados. O PFL depois do desgaste político, chegou a mudar de nome. O PMDB rachou em várias partes. O PT associou-se à “mudança” que o eleitorado buscava – e enterrou a esperança de Leonel Brizola, mudando a face da esquerda brasileira. Collor e Enéas Carneiro (falecido em 2007) demonstraram, também, que um contingente expressivo do eleitorado não estava disposto a votar em partidos já estabelecidos. Enéas não ganhou a eleição, mas conseguiu juntar capital político para fazer-se presente nas eleições seguintes, inaugurando a alcunha de “mito” para políticos no Brasil. Jair Bolsonaro, há algum tempo, aproximou-se de Enéas e de seu eleitorado, inclusive homenageando-o oficialmente. Agora, o sucessor de Enéas nas mitagens da Web terá o desafio de reeditar uma propaganda sem tempo de TV, com as novas mídias em campo.

E aí, resta a pergunta: Conseguirá o Youtube derrotar a televisão?

André Mello é jornalista, tradutor, teólogo e cientista da religião.