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Os crematórios da cultura nacional

Nossas instituições culturais e universidades sofreram vários incêndios e desmantelamentos nos últimos anos

André Mello - 19/09/2018 09h43

A destruição do Museu Nacional foi um crime mundial. A Wikipédia e o Brasil amargaram o luto. França, Alemanha, Unesco e o governo anunciaram a liberação de recursos. Mas o rescaldo do incêndio, mostra vários focos de incúria, má gestão e ignorância. Aprendemos algo? Talvez não…

CREMATÓRIO
Dentre toda as análises feitas sobre o incêndio do Museu, a mais cirúrgica foi a de José de Souza Martins, sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras, no Valor Econômico. Ele aponta, com precisão, que nossas instituições culturais e universidades sofreram vários incêndios e desmantelamentos: o hospital psiquiátrico do Juqueri (2005), o Memorial da América Latina (2013), o museu do Liceu de Artes e Ofícios (2014), o Museu da Língua Portuguesa (2015).

Incêndios: Memorial da América Latina (2013), Museu da Língua Portuguesa (2015), e Museu Nacional (2018) Foto: Montagem Pleno.News

“Vitimados”, diz José Martins, “por uma crônica falta de políticas de gestão na área da cultura, de uma rotina própria de preservação permanente dos acervos e instalações”. Assim, mais do que incêndios a destruição do patrimônio nacional é a cremação de uma má gestão do patrimônio cultural – que está morto, em vários lugares do Brasil.

MANIA DE FUTURO
A destruição do patrimônio histórico nacional não aconteceu apenas no Museu Nacional. No Brasil, cada novo governante e cada novo regime, continuadamente, aponta para o futuro, desconhecendo, derrubando ou, simplesmente, negando recursos para a manutenção de prédios e acervos cuja representação evoque o passado.

O público dos Museus também aponta isso: o Museu do Amanhã, obra faraônica erguida para a Olimpíada, no Rio de Janeiro, recebeu 1,4 milhões de visitantes (em 2016), que se espremeram debaixo do sol em gigantescas filas.

O Museu Nacional, com suas múmias, dinossauros e 20 milhões de peças arqueológicas, zoológicas e antropológicas, apenas 192 mil visitantes (também em 2016).

Como se vê tanto o público como os governantes amam as novidades e desprezam a antiguidade.

UNIVERSIDADE SUCATEADA
O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro defendeu, talvez em um rompante de indignação, que as ruínas do Museu Nacional fiquem como estão, como alerta para o futuro. Assim, segundo ele, as verbas da UNESCO, da Alemanha e da França – bem como as verbas prometidas pelo governo federal, que editou medida provisória, constituindo mais um órgão para cuidar dos museus – tudo seria empenhado na construção de um novo complexo.

Não custa lembrar que, perto do Museu Nacional, ao lado do Maracanã jaz o Museu do Índio, outro prédio histórico, transformado em ruínas. A destruição do Museu Nacional, porém, é mais do que uma ruína histórica, é a destruição de um modelo de universidade, no qual os programas permanecem integrados, formando centros de excelência e pesquisa. O Museu tinha programas de pós-graduação em Antropologia Social, Arqueologia, Zoologia, Botânica e Linguística. Sem esse polo de aglutinação, os pesquisadores e as pesquisas se espalham por vários campi.

A Universidade Federal do Rio de Janeiro, com vários prédios sucateados, espalhados pela cidade, é um exemplo da falta que um campus faz. Além de desagregar o projeto de Universidade, a fragmentação dificulta a gestão e favorece o sucateamento.

TEM MAIS
Há 30 unidades do Patrimônio Histórico Nacional no Rio de Janeiro.

O IBRAM, Instituto Brasileiro de Museus é a autarquia que administra lugares simbólicos, como o Museu Nacional de Belas Artes, o Museu da República, o Museu Histórico Nacional e a Chácara do Céu. Ficam, também, no Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional, a mais antiga instituição cultural do país e a Casa de Rui Barbosa – além do Museu da Imagem e do Som, que guarda o acervo da cultura musical e cinematográfica.

Quem fala em Lei Roaunet precisa saber que é um instrumento de renúncia fiscal, submetido a empresas, no qual os postulantes têm que ter em caixa uma porcentagem do valor pleiteado. Ou seja, os museus e centros históricos ficam dependendo, mesmo, é de editais – que precisam ser aprovados pelo governo. Teme-se, nestes centros, tanto o fogo, quanto a água. Ambos, podem destruir tudo o que levamos dezenas de anos para guardar. Se nada mudar, ainda veremos outros desastres. Infelizmente. E haverá barulho, passeata, culpados, mas não aprenderemos nada. Quem não sabe história, não aprende com o passado.

Incêndio destrói o Museu Nacional Foto: EFE/Marcelo Sayão

MINHA HISTÓRIA
Todo mundo tem uma história com o Museu Nacional. Conheci o Museu, ainda criança, levado pelos pais. Voltei outras vezes, como aluno do Colégio Batista e do Colégio Pedro II. Na pós-graduação, tive a oportunidade de estudar ali. Tornei-me linguista, ao perceber a importância que as palavras registradas pelo Museu Nacional tinham na história e na formação de nosso povo. Vê-lo arder em chamas de incúria e descaso provocou-me mais do que tristeza. Consegui entender o sentimento de Neemias, que chora, à distância, a degradação de Jerusalém. O Rio de Janeiro, o Brasil, mereciam um destino melhor. Como a Wikipédia e o mundo, há um grande luto. Aqueles que não entendem isso, infelizmente, ajudam a fazer desta nação um imenso cemitério.

André Mello é jornalista, tradutor, teólogo e cientista da religião.
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