Opinião André Mello: A casa caiu

O desabamento de um prédio histórico de 24 andares, no centro da maior e mais rica capital da América do Sul traz alguns alertas para esse condomínio chamado Brasil

André Mello - 02/05/2018 12h12

Bombeiros fazem rescaldo de escombros de prédio que pegou fogo em São Paulo Foto: Agência Brasil/Rovena Rosa

A CASA CAIU
O edifício Wilton Paes de Almeida, que já foi sede da polícia federal – na qual ficou detido o juiz Nicolau dos Santos Neto – tinha 24 andares, estava situado estrategicamente, no centro da metrópole mais rica e mais densamente povoada da América do Sul. O prédio desabou, no feriado de 1 de maio, depois de um incêndio.

Junto com a queda do edifício veio abaixo a nave da Igreja Luterana Martin Luther, inaugurada em 1908 e considerada a primeira em estilo neogótico na capital. O desabamento foi causado por um incêndio – e também afetou prédios vizinhos. Estima-se que possa danos estruturais possam ter acontecido em outras edificações da região.

VINTE MILHÕES JOGADOS NO CHÃO
O prédio foi avaliado em 2017, em um leilão que não aconteceu, por mais de vinte milhões. Era um marco na arquitetura modernista de São Paulo e além dos 24 andares, tinha dois pisos de sobrelojas comerciais – com 11 mil metros quadrados de área construída. Foi ocupado por um grupo de sem-teto. E ninguém sabe por quantas pessoas. Fala-se de algo em torno de 90 a 120 famílias. Mas nem a prefeitura sabe, com certeza, quantas famílias utilizavam o local.

O pastor da Igreja Luterana vizinha, Frederico Carlos Ludwig, avalia que a frequência poderia ser maior. Ele relata que a Igreja fornecia alimentos e apoio espiritual para a população de rua. Também, guardava documentos, que podem ajudar agora nos cadastramentos que o poder público não fez. Ludwig dá o testemunho de que o esgoto corria pelo prédio e salienta que a inclinação da estrutura já o havia preocupado. Uma vistoria pública, porém, não chegou a grandes conclusões e não houve nenhuma reintegração de posse do edifício por nenhum dos governos. Desperdício e descuido, acumulados por anos.

RICARDO, DE QUÊ?
Não se sabe quantos podem ter morrido. Há 44 desaparecidos, mas já se constatou que um homem desapareceu, durante um resgate, na frente dos bombeiros, apesar do cabo de aço que os socorristas usavam para o salvamento. Os trabalhos de evacuação estavam em andamento quando, em cinco segundos, um homem e o equipamento foram arrastados pelo desabamento de diversas lajes de concreto fumegante. O nome do homem desaparecido é Ricardo.

Aparentemente, Ricardo tinha voltado ao prédio para salvar algumas crianças. Como não há um cadastro confiável dos moradores, ninguém sabe o sobrenome, nem a profissão dele. A falta de cadastro dos moradores é mais um sinal de que a ocupação era sinônimo de confusão.

Os vídeos do colapso e das labaredas lembraram o desastre do World Trade Center, de 11 de setembro de 2011, em Nova Iorque.

PAGANDO PRA MORRER
Os relatórios, as entrevistas e as notícias assustam mais do que o desabamento. Sabe-se, agora, pela mídia, que as pessoas pagavam algo entre 200 e 600 reais para morar em uma distopia: o elevador não estava funcionando e o fosso tinha virado uma chaminé de lixo – que segundo os bombeiros pode ter agravado o incêndio. Tapumes de madeira criavam “quartos” nos andares com vão livre, anteriormente ocupados por mesas do INSS, funcionários da Polícia Federal e agentes do Estado. O esgoto escorria pelos andares e, aparentemente, muitos moradores de rua usavam o local para dormir.

Até agora não apareceu o nome da “organização” ou grupo que cobrava essa moradia irregular. Mas sabe-se que algo em torno de 300 pessoas pagavam por insegurança.

CHAMA O SÍNDICO
Os dados estão disponíveis, para quem quiser ver. O Ministério do Planejamento informa que o Governo Federal tem 600 mil imóveis. Gasta-se, porém, um bilhão e seiscentos milhões para alugar imóveis de terceiros. Ganha-se, com aluguel, menos de seiscentos milhões. A conta não fecha. Nos três níveis, prefeituras, governos estaduais e o governo federal comportam-se como as piores imobiliárias e os mais ruinosos condomínios de que se tem notícia na história.

Um síndico honesto, que fizesse o feijão com arroz, já colocaria ordem na casa. Não precisamos construir mais, precisaríamos, apenas, administrar o que já temos. Aliás, o juiz Nicolau, que ficou detido no prédio desabado, ficou famoso por desvios financeiros durante a construção de novos edifícios. O Brasil precisa chamar, urgente, um síndico e uma imobiliária, para cuidar de seu patrimônio.

INVASÃO, OCUPAÇÃO E ENROLAÇÃO
As pessoas gostam de fermentar soluções mágicas para o que é simples. Grupos organizados e desorganizados têm invadido terrenos, prédios e casas desocupadas por todo o Brasil.

Vinte e cinco por cento da população do Rio de Janeiro moram em comunidades, cujo histórico está na invasão de propriedades da União e de particulares. Quinze por cento das comunidades de São Paulo têm a mesma história. As ocupações mais recentes, acompanhadas de mídia e militância sugerem uma distopia nacional. E os governos só assistem ao caos, apostando na desordem para dar continuidade a seus projetos pessoais.

Pior que isso, percebe-se que aqueles que têm poder investido, como o presidente Michel Temer, resolvem visitar a tragédia, com um discurso vazio. Dar bom uso aos impostos, cuidar do patrimônio bilionário, dar uma função a todos os prédios públicos, gerir a nossa imensa riqueza imobiliária e parar de enrolação. É só isso que precisamos.

Prédio desocupado, como mente vazia, é oficina de Satanás.

André Mello é jornalista, tradutor, teólogo e cientista da religião.