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Multinacionais da morte

Terrorismo, corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas associam-se a multinacionais da morte

André Mello - 17/07/2018 11h21

O último relatório da ONU – Relatório Mundial sobre Drogas (UNODC – United Nations Office on Drogs and Crime) aponta aumento da produção e consumo das multinacionais do crime. Ele traz dados alarmantes sobre terrorismo, corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. Essas questões estão ligadas à produção e ao consumo em todo o mundo. A questão é: Será que o Brasil consegue dar conta de sua demanda de problemas sozinho?

Vamos analisar algumas questões desse relatório.

OS BABY BOOMERS ESTÃO MORRENDO
Se, ao ouvir falar em drogas, você pensa em jovens e adolescentes, vítimas do tráfico, ou imagina gente jovem reunida em torno de um “baseado”, está certo. Mas também está errado. A ONU detectou um aumento no número de consumidores e um acréscimo considerável nas mortes por abuso de drogas ilícitas e remédios de uso controlado em uma faixa etária mais elevada. A geração nascida entre 1946 e 1964, os baby boomers, manteve o hábito, ou pode estar recaindo nele, agora na velhice.

Nos EUA, o número de consumidores de drogas com mais de 50 anos subiu de 3,6 milhões em 2006 para 10 milhões em 2016. Um aumento de 200%. E o número de mortes por uso de drogas também cresceu nas faixas etárias mais elevadas. A geração do “sexo, drogas e rock’n roll” é só a ponta do iceberg.

COCAÍNA E ÓPIO
Entre 2015 e 2016, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) detectou, além do aumento no consumo, um acréscimo relevante na produção global de cocaína, ópio e maconha. Cocaína (25% a mais) e ópio (65% a mais) são as drogas que lideram este movimento.

Os cartéis de traficantes colombianos são os principais produtores de cocaína e os talibãs do Afeganistão os maiores produtores de ópio. Além desses centros produtores, associados a grupos criminosos fortemente armados, há aumentos de produção e consumo de drogas nas versões medicinais. São, geralmente, medicamentos opioides, vendidos ilegalmente, sem prescrição. O uso não medicinal é responsável por 76% dos distúrbios relacionados com o uso de drogas. Fentanil (na América do Norte) e Tramadol (na África e Ásia) são os principais produtos traficados.

Esses são medicamentos vitais no tratamento da dor crônica, mas passaram a ser distribuídos ilegalmente. A ONU contabilizou o consumo de 10 mil toneladas de ópio e o “World Drug Report 2018” registrou a apreensão de mais de 91 toneladas de opioides em todo o mundo. Tal apreensão significa que um número bem maior circulou entre os usuários.

ADOLESCENTES, JOVENS E A PRÓXIMA GERAÇÃO
A maconha (cannabis) lidera o consumo entre os adolescentes, a partir dos 15 anos, e jovens, entre 18 e 25 anos. O relatório indica que “é uma droga de escolha comum pelos jovens; no entanto, o uso de drogas entre os jovens difere de país para país e depende das circunstâncias sociais e econômicas dos envolvidos. Há duas tipologias extremas de uso de drogas entre os jovens: drogas de clubes na vida noturna e recreativas entre os jovens afluentes; e o uso de inalantes entre crianças de rua para lidar com suas circunstâncias adversa”.

Em 2016, registrou-se 192 milhões de usuários de cannabis; 54 milhões de usuários de opiáceos e opioides; 34 milhões de usuários de anfetaminas e estimulantes; 21 milhões de usuários de ecstasy; 18 milhões de usuários de cocaína… Todos com acréscimos entre 10 e 15% em 2017.

Assim, se associarmos o quadro descrito como subnotificado e somarmos a epidemia momentânea entre os baby boomers, com as atuais tendências entre adolescentes viveremos em um mundo distópico em duas gerações?

POLÍTICAS DIFERENTES
O Instituo Igarapé consolidou os dados das políticas públicas em relação às drogas nas Américas. Alguns países continuam a “guerra às drogas”, outros, depois de verificar a “ineficiência” no combate direto, resolveram buscar novas formas de enfrentamento e tratamento.

A “maconha medicinal” foi adotada pelos seguintes países, com diversas regulações: Canadá, Estados Unidos, México, Jamaica, Colômbia, Argentina, Chile, Uruguai e Brasil (por orientação judicial). A descriminalização e despenalização vem sendo também discutida.

Costa Rica e Brasil adotaram penas alternativas para determinados grupos de usuários. Estados Unidos, Uruguai e Canadá adotaram programas de “redução de danos” com práticas que visam reduzir às consequências do uso de drogas sem exigir abstinência dos usuários (venda e uso controlado, por exemplo).

A ONU defende uma política global, com controle dos fabricantes e dos produtos em todo o mundo.

TRÁFICO, CORRUPÇÃO E TERRORISMO
As multinacionais do crime não andam separadas. O crime organizado tornou-se transnacional e as soluções precisariam ser coordenadas. A solução para o aumento da criminalidade que acompanha o tráfico transnacional implica também um enfrentamento da lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de armas – os quais alimentam o terrorismo.

Uma revisão da política prisional sugere que o encarceramento aumenta o número de usuários de drogas recrutados pelo crime organizado, amplificando o problema. No plano bancário e financeiro, o controle de divisas e o enfrentamento da corrupção deveria ser priorizado.

Sugere-se, ainda, o tratamento psiquiátrico dos usuários e a construção de um sistema penal internacional para os grandes traficantes. Um mundo em que terrorismo, corrupção e tráfico de drogas associam-se desafia os estados nacionais, cada vez mais frágeis. Como nas epidemias, sugere-se que somente um esforço mundial pode frear as multinacionais da morte.

BRASIL NA ROTA
Todas as rotas, de todas essas drogas e dos grupos multinacionais do crime, passam pelo Brasil. A dimensão continental e a fragilidade nos controles financeiros e de fronteiras tornam o país permeável. A população de 700 mil presos e a internacionalização das facções criminosas na América Latina também tornam a solução do tráfico internacional um problema complexo.

O relatório da ONU sugere que nenhum país pode resolver a questão de maneira solitária e descoordenada. Pensar em cooperação internacional é, porém, uma ação política. Política de Estado, maior que um partido, ou mandatário. Não dá pra ser a única casa iluminada em uma rua escura.

PODE CONFERIR
“O Relatório Mundial sobre Drogas de 2018 oferece uma visão global sobre a oferta e a demanda de opiáceos, cocaína, cannabis, estimulantes do tipo anfetamina e novas substâncias psicoativas (NSP), bem como sobre seu impacto na saúde. Ele destaca os diferentes padrões de uso das drogas e vulnerabilidades de determinados grupos por idade e gênero, bem como a mudança ocorrida no mercado mundial de drogas”.

Para ver relatório completo e conteúdo de mídia, clique aqui.

André Mello é jornalista, tradutor, teólogo e cientista da religião.