Militares na Política: Bolsonaro diz que a chance de golpe é próxima de zero

Esqueça os tanques. A candidatura de Bolsonaro trouxe para as urnas soldados com título de eleitor. São mais de 70 candidaturas, de todas as patentes

André Mello - 11/05/2018 12h34

Jair Bolsonaro Foto: Reprodução/Facebook

A ELEIÇÃO TEM RISCO?
José Luiz Datena, apresentador e radialista, é pré-candidato ao Senado nas eleições 2018, pelo DEM. Talvez, por estar diretamente envolvido, com reais chances de ser eleito, o apresentador, em seu programa de rádio, na terça-feira (8), perguntou por três vezes, a Jair Bolsonaro:

– Há risco de um golpe militar em 2018?

Depois de defender o legado dos militares no passado, Bolsonaro assegurou a Datena que “o risco de golpe militar é próximo de zero”.

O MEDO DE JOAQUIM BARBOSA
A fala de Bolsonaro não foi só uma resposta a Datena, foi também uma reação às críticas do ex-ministro Joaquim Barbosa, que saiu da disputa presidencial declarando ter medo de Temer, de Bolsonaro e de um golpe militar.

Bolsonaro declarou ao Valor Econômico e ao Globo que a posição de Barbosa “é um atestado de completa ignorância política. Se ele não quer ajudar o Brasil, tudo bem. Estou sozinho nessa briga”. Mas será que está “sozinho”?

NEM TÃO SOZINHO
Bolsonaro, afinal, não está tão só. A “bancada da bala” que reúne; militares, ex-militares e parentes, incluindo membros das forças armadas e das forças auxiliares, como policiais e bombeiros; tem atualmente, segundo a agência pública de jornalismo, um total de 35 integrantes. Não é, realmente, uma bancada capaz de ganhar combates no parlamento.

A bancada sindical tem 43 parlamentares, a bancada evangélica tem 196 membros e as duas mais ativas, a Frente Parlamentar da Agricultura e a bancada dos Empresários, têm 207 e 208 integrantes, respectivamente.

Todavia, mesmo pequena, a “bancada militar” já tem marcado posição e influenciado assuntos que vão desde Segurança a Direitos Humanos.

VAI DOBRAR DE TAMANHO
Levantamentos feitos por vários veículos (e em especial pelo Estado de São Paulo e Valor Econômico), apontam de 70 a 75 candidatos.

O Valor aponta “71 postulantes, 25 a deputados estadual e distrital, 39 a deputado federal, dois ao Senado e três a governador (CE, DF e MA), além de Bolsonaro, que disputará o Planalto. O tenente coronel Arnoldo (PRP-DF) ainda não definiu o cargo. De olho em uma vaga na Câmara Distrital, a coronel Regina Moézia (PRP) é a única mulher na lista”.

Espera-se ainda, que o general Antonio Hamilton Mourão entre na disputa. Mourão filiou-se ao PRTB e é especulado como candidato a presidente em substituição a Levy Fidelix, que disputou o cargo pelo partido nas últimas duas eleições. Até agora, não houve declaração de Mourão nesse sentido. Se Mourão for candidato e o PRTB compor com o PSL poderá haver uma chapa 100% militar.

PODERÃO VOTAR E SER VOTADOS
Ao contrário de outras eleições, em 2018, os militares poderão votar e ser votados.

A mais recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a permitir que todos os militares, mesmo aqueles que estiverem em serviço no dia da eleição, possam votar em qualquer zona eleitoral. Sem dúvida, isso representa um incentivo aos integrantes das Forças Armadas. Somente no exército, são mais de 230 mil soldados votantes. Mas o maior incentivo vem da opinião pública.

BONS DE URNA E DE PROPOSTA
Pesquisa, publicada pela Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, apontou que as “Forças Armadas lideram confiança da população; Congresso tem descrédito”. Igualmente, o Pew Research Center, “Globally, Broad Support for Representative and Direct Democracy” (Globalmente, amplo apoio a democracias diretas e indiretas), publicado em outubro do ano passado demonstrou que a criminalidade (53%) e a corrupção (47%) tornam atrativas intervenções militares e saídas não convencionais para a democracia.

De fato, somente 8% dos brasileiros aprovam a totalmente democracia representativa e 38% consideram uma alternativa militar como positiva para o sistema político. Cinquenta e quatro por cento não confiam nas eleições e no voto eletrônico. Ou seja, as bandeiras de campanha dos militares estão sendo encampadas pela população. Há uma ressonância entre a opinião pública e os temas propostos pelos militares: em especial crime e corrupção.

OS GENERAIS ENTRAM NA BATALHA
Outro sintoma de que vivemos um momento especial é a articulação de generais e coronéis, no campo político. Na terça-feira (8), 30 militares reuniram-se em uma sala da Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana), na área central de Brasília.

O Estadão fez uma matéria descritiva, acompanhada de uma longa entrevista com o articulador da reunião, o general do Exército da reserva Augusto Heleno. Mesmo ausente, Bolsonaro foi lembrado.

Vale lembrar: tradicionalmente, oficiais de alta patente não se envolvem diretamente na batalha. Mas o momento parece ser propício ao movimento.

QUEM SÃO
O general de Exército Guilherme Theophilo de Oliveira, 63, filiou-se ao PSDB e deve ser o candidato ao governo do Ceará. Se isso acontecer, será o primeiro general quatro estrelas (maior patente militar em tempos de paz) a disputar uma eleição majoritária no Brasil.

Além de Theophilo, outros generais articulam suas candidaturas. O general Paulo Chagas (PRP), no Distrito Federal, e o general Girão Monteiro (PSL), no Rio Grande do Norte, são mais dois no front. O general Girão Monteiro, pré-candidato a deputado federal pelo Rio Grande do Norte, está atuando como organizador de encontros dos candidatos militares no país.

DA FUNAI PARA A CÂMARA
Em São Paulo, o general Sebastião Peternelli buscará, novamente, uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PSC. Peternelli quase chegou a presidir a Funai no início do governo Temer, em 2016, mas foi preterido após ataques da imprensa às suas posições sobre 1964. Diga-se, de passagem, que Peternelli tinha apoio da bancada evangélica, mas só isso não bastou.

Na mesma linha de frente, o ex-secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Norte, o general Eliéser Monteiro Filho pretende disputar o governo do Estado, provavelmente pelo PSL.

PSL, PARTIDO DOS SOLDADOS?
A legenda de Jair Bolsonaro, o Partido Social Liberal (PSL), concentra a maior parte dos pré-candidatos ligados às Forças Armadas; mais de 60 deles são filiados a legenda.

Militares ouvidos pela coluna renomearam o partido como “partido do soldado liberal”. Mas o PSL não está sozinho nesse front. Os militares vão lançar candidaturas em vários partidos: PSDB, PSC, PR, PEN, PRP, PRTB, Novo, Patriotas, DEM, PHS, PROS, PTB e PSD. E, várias patentes são encontradas, desde candidatos generais até coronéis, sargentos e capitães. Por enquanto, apenas uma mulher, a coronel da reserva do Exército Regina Moézia, de 54 anos, é candidata a deputada distrital, em Brasília (DF).

BANCADA DA FARDA
Vale a pena, depois de outubro, somar os militares das forças armadas, incluindo também policiais e bombeiros, para ver o tamanho da bancada da farda. Podem passar de pelotão a brigada. A conferir.

ORDEM DO DIA
A página do Exército Brasileiro deu um destaque ao movimento eleitoral. Sinal dos tempos. Acesse.

André Mello é jornalista, tradutor, teólogo e cientista da religião.