Ciro e Marina juntam os cacos

As candidaturas de Ciro Gomes e Marina Silva naufragaram em uma eleição polarizada. Agora, reuniram-se para costurar uma frente de oposição a Jair Bolsonaro, sem o PT. Mas essa oposição prévia não seria mais uma radicalização? Teriam ambos o perfil para essa frente?

André Mello - 13/11/2018 15h48

MARINA FALA – Em entrevista para a Folha de São Paulo (09/11), concedida a Joelmir Tavares, na Sede Nacional da REDE, em Brasília, Marina Silva depois de um longo silêncio pós-eleitoral, afiou suas armas vocais em defesa “da transparência e dos direitos já conquistados” e na luta para “evitar toda e qualquer desqualificação da democracia”. Marina falou à Folha, logo depois de uma reunião de articulação política com Ciro Gomes, ex-adversário no primeiro turno da eleição de 2018.

FRENTE AMPLA E FUSÃO – Ciro e Marina estão costurando a formação de um bloco de oposição ao presidente eleito, Jair Bolsonaro, sem a participação do PT. A Rede, de Marina, forçosamente teria que se articular com alguém para sobreviver – pois o partido não alcançou o mínimo de votos nacionais e tem apenas 1 deputado federal. Para garantir o fundo partidário, o tempo de propaganda na TV e no rádio e, também, a sua existência, um partido precisava alcançar 1,5% dos votos para a Câmara, distribuídos em 9 estados e com mínimo de 1% dos votos em cada um deles (ou, então, eleger 9 deputados, em 9 estados). Antes da conversa com o presidenciável do PDT, a proximidade com Eduardo Jorge (vice de Marina em 2018) sugeria que a REDE construiria uma fusão com o PV – partido que lançou a candidata para presidente em 2010. O PSB também seria uma alternativa, pois Marina concorreu pelo partido, em 2014. A conversa de Ciro com Marina, porém, pode ter tido o efeito contrário… Vale lembrar que a cláusula de barreira prevê uma mudança gradual, que chegará à exigência de 2% de votos e 11 deputados eleitos em 2022 – e de 2,5% e 13 eleitos em 2026, até alcançar o índice permanente de 3% e 15 eleitos em 2030. Ou seja, a “costura” de uma frente ampla será mais do que necessária para que os líderes partidários mantenham suas agremiações vivas. Há, pelo menos, 15 legendas, além da REDE, que não sobreviveriam às cláusulas de barreira.

MARINA FICOU MENOR E MAIS LEVE – A Construção de uma frente, com partidos pequenos, vem sendo discutida pela REDE. Marina declara-se agora “plena para contribuir com a política, sem essa cobrança que de alguma forma tinha – ” em função dos “bônus eleitorais de 2010 e 2014”. Marina admitiu à Folha que “preferiu correr o risco de sair e pagar o preço a ter me omitido e ficar com a imagem de 22 milhões de votos”. Citando o livro de Jó, “Deus dá, Deus tira, louvado seja Deus”, a Marina “menor e mais leve” atraiu não apenas Ciro Gomes, mas também, tem sido lembrada, em tese, como o nome de articulação entre REDE, PV e PSB. Mas ainda é cedo para se afirmar que haverá fusão, ou apenas migração de parlamentares para outros partidos. Porque, afinal, os deputados e senadores também têm suas agendas e os interesses regionais – que aparecerão nas eleições municipais de 2020 – criarão uma nova dinâmica.

CIRO, PESADÃO – Se Marina ficou menor e mais leve, Ciro, por outro lado, vai ficando mais pesado. Além de articular com a REDE e com o PSB, Ciro está articulando com PSDB e com o DEM a formação de uma frente ampla de oposição, para provocar o isolamento do PT, ao mesmo tempo em que se “promove” como liderança da oposição. Ciro, que fez uma blitz de imprensa na semana passada, também concedeu entrevista ao jornalista Roberto D’Ávilla – na sexta- feira (09/11), na GloboNews. Ciro Gomes, em seu melhor estilo, culpou Lula e o PT pela eleição de Bolsonaro. Sua movimentação é fruto também de uma articulação pela sobrevivência política – e uma aposta para 2020.

CIRO, SOZINHO – Uma novidade que apareceu na GloboNews foi o discurso de Ciro Gomes contra a política identitária (que defende a articulação de minorias e a adoção de políticas públicas inclusivas), com isso o presidenciável distancia-se do PSOL e de várias correntes do PT, que consideram a ação afirmativa e a política identitária como prioridades. As críticas abertas a Lula e ao PT também lançam ao mar os projetos políticos que imaginavam Ciro-Haddad juntos na oposição a Jair Bolsonaro. No PT, Fernando Haddad já sinalizou, internamente, que prefere ocupar um lugar de estudos, na fundação educacional do Partido – e que não pretende disputar a primazia da oposição. Ciro, por sua vez, depois do silêncio do segundo turno, vem ampliando sua exposição. Aparentemente, a aposta de Ciro Gomes é que os eleitores fiquem com seu nome em mente para um possível “recall” – largando, dessa vez, de um patamar de 14 milhões de votos. Talvez consiga trazer para o seu barco o PSB, os partidos menores e a REDE, mas dificilmente conseguirá superar as ressalvas que sofre no DEM e no PSDB. Aliás, os movimentos internos de DEM e PSDB indicam que Ciro pode ficar falando sozinho… E que o PT continuará no lugar de oposição a Bolsonaro.

O PSDB DE DÓRIA – O Convite de João Dória para que Gilberto Kassab e outros ministros do governo Temer passem a compor o seu time no Governo de Estado de São Paulo, em 2019, anuncia um movimento claro – Dória mira no pleito de 2022. O ex-governador de São Paulo Alberto Goldman (PSDB), desafeto de Dória, acusou o golpe e declarou à Folha de São Paulo, que “o ciclo social-democrata passou”. Apostando em uma guinada do PSDB à direita. Dória, fortalecido pela eleição e pela máquina governamental, nunca escondeu que gostaria de ser candidato a presidente, no lugar de Geraldo Alckmin. Em contraponto ao “PSDB de Dória”, o ex-governador de São Paulo, e líder nacional do PSDB, Geraldo Alckmin, negou na noite desta segunda-feira, 12, que o partido dará uma guinada à direita. Apesar da resistência de Alckmin, é clara a articulação de Dória para que o PSDB lance seu nome como presidenciável para 2022. Logo, os movimentos de Dória, em articulação com o PSD e com o DEM, sabotam diretamente os planos atuais de Ciro Gomes. Não há dúvida: o PSDB continuará se articulando. E fará uma oposição, sem “frente ampla”, ao governo Jair Bolsonaro.

O DEM NÃO É DE ESQUERDA – Finalmente, precisamos falar sobre o DEM. Apesar do cortejo de Ciro Gomes e não obstante a palestra do empresário-príncipe Luiz Philippe Bragança – que viralizou na internet, com um powerpoint aos seus colegas de partido, encaixando a legenda no campo da “esquerda” – definitivamente, o DEM não é de esquerda. O partido faz parte do Governo Bolsonaro. E se, futuramente, o DEM resolver sair do governo, no qual estará presente – com Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e com a ministra da agricultura, Tereza Cristina (DEM-MS) – dificilmente será na direção prevista por Ciro Gomes. Não podemos esquecer que a “mosca azul” já picou vários líderes do DEM, incluindo o atual presidente da câmara, Rodrigo Maia – que chegou a lançar sua candidatura presidencial para 2018. Em resumo, Ciro Gomes e Marina Silva juntaram os cacos da eleição passada em uma reunião de prospectivas… Mas falta a ambos a “radicalização” necessária para anunciar, com força, uma oposição prévia ao governo Bolsonaro.

André Mello é jornalista, tradutor, teólogo e cientista da religião.

 


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