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Ainda sobre pesquisas: Números e tendências

A facada em Bolsonaro atingiu a metodologia das pesquisas? Quem diz "sim", duvida do crescimento. Quem diz "não", aponta para tendências

André Mello - 17/09/2018 10h46

Entenda a diferença entre os números das pesquisas e as tendências.

MARINA, VOCÊ SE PINTOU
A base de articulação de Marina Silva e a sua narrativa sempre estiveram associadas ao “politicamente correto”, ao voto pacifista, à neutralidade, ao voto feminino, mas também a algumas representações legítimas do povo brasileiro. Os “povos da floresta”, os seringueiros, os militantes ambientais e, especialmente, a população universitária formavam uma base sólida, a partir da qual a candidata falava como representante legítima. Dos primeiros, herdou a “florestania”; dos terceiros, o discurso sustentável; e dos últimos, uma base silenciosa que sempre lhe rendeu uma votação significativa. Também contava com a simpatia, por adesão, de mulheres evangélicas, por identificação de gênero.

Todavia, nessa campanha, a candidata parece ter cometido erros cruciais. Primeiro, partiu para o ataque – contrariando sua imagem consolidada. Reposicionamentos de imagem são complexos e, quando mal-sucedidos, costumam ser ruinosos. Marina “no ataque”, criou um discurso que não combinava com sua imagem. Tentou, conscientemente, mudar a imagem – inclusive ajustando a narrativa para se apresentar como “mulher forte”.

FACAS AMOLADAS
Antes de levar a facada de um “lobo solitário” (segundo a Polícia Federal), Jair Bolsonaro estava apanhando de todos os candidatos. Os ataques verbais aconteciam nos debates, nos programas eleitorais e, também, nas redes sociais. O atentado sofrido em Juiz de Fora (reduto da esquerda), porém, parece ter tido um efeito surpreendente nas pesquisas.

A equipe de Marina, parece, orientou a candidata a uma “campanha pela paz” que soou estranha neste momento – pois o eleitorado, à esquerda e à direita, não se sensibilizou com o apelo pacifista. Pior, a mudança confundiu o eleitorado de Marina.

Ciro Gomes foi quem melhor captou o que está acontecendo nas redes sociais. Apenas para usar uma das métricas (do Google), 40% das alusões ao atentado foram negativas, 30% neutras e 10% duvidosas. Ou seja, as pessoas não embainharam suas armas.

O tiroteio verbal que se seguiu à facada em Bolsonaro, demonstrou facas ainda mais amoladas. Assim, passar da “Marina da paz”, para “Marina guerreira” e, depois novamente, para “Marina da paz”, custou caríssimo. Se há algo que as últimas pesquisas do IBOPE detectaram é que Marina está em queda – e seus votos estão sendo distribuídos. Vai terminar a eleição menor do que começou.

TENDÊNCIAS
Bolsonaro conseguiu evitar, de acordo com as pesquisas, a sangria de votos que alguns especialistas (como Alberto Carlos Almeida) sugeriam que aconteceria. Ou seja, quem esperava que o início do bombardeio eleitoral arrancasse votos de Bolsonaro perdeu a aposta. Porém, seu crescimento ainda está dentro da margem de erro. A mesma coisa, aliás, pode-se dizer de Geraldo Alckmin e Ciro Gomes. Os demais estacionaram.

As pesquisas, realmente, definitivas acontecerão a partir do meio do mês de setembro. Até lá, os números são uma fotografia do passado e a única tendência, realmente, consolidada é a queda de Marina. Os comentaristas que gastam tinta e teclas falando de variações de dois, três e quatro pontos estão, até 14 de setembro, perdendo tempo. Afinal, os brasileiros sempre resolvem tratar de alguma coisa quando falta menos de um mês para o prazo.

E, aproveitamos para lançar um alerta: o último debate, da Globo (e suas famosas edições) sempre tem sido decisivo.

RESUMO
Os números das pesquisas têm uma variação de até quatro pontos, que pode ser considerada margem de erro, mas que também é fruto de metodologias. Entrevistas por telefone, sempre, têm resultado diferente de entrevistas de rua. Um modelo melhor, um pouco mais caro, combinaria as duas modalidades, com o mesmo questionário. Parece óbvio, mas custaria mais caro. Olhe o custo da pesquisa, então, para verificar sua confiabilidade. Os dados estão no TSE. Quanto mais caro, melhor. A soma das pesquisas formam tendências. As tendências atuais são: Bolsonaro consolidado, Marina em queda. Os demais flutuam. A partir de 14 de setembro, enfim, saberemos para onde vão os votos que eram de Lula.

André Mello é jornalista, tradutor, teólogo e cientista da religião.
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