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A força da internet na mobilização política

Uma onda eletrônica, forte e inesperada, varreu todo o Brasil e encaixotou os velhos partidos

André Mello - 08/10/2018 15h36

Uma onda eletrônica, forte e inesperada, varreu todo o Brasil e encaixotou os velhos partidos. Pulverizou ainda mais o Congresso. Sepultou o modelo de campanha com televisão, santinhos impressos e arrecadações milionárias. As camisetas, o ativismo nas redes sociais e a atuação dos comunicadores, definitivamente, mudaram a política brasileira.

A ONDA ELETRÔNICA
O Brasil, neste domingo (7), nas eleições federais e estaduais, inaugurou, com dez anos de atraso, a mobilização dos internautas na política.

O pioneiro foi Obama, em 2008. Derrotou Hilary e outros figurões do partido democrata, apostando nos jovens, na Internet e em uma nova identidade visual.

Bolsonaro e o PSL são politicamente diferentes de Obama, mas desbancaram o MDB, PSDB e DEM, tradicionais “donos da política”, com uma dinâmica muito parecida. A mensagem é diferente: mas as camisetas, os adesivos estilizados/personalizados, a descentralização e, principalmente, o uso massivo da Internet são os métodos parecidos.

GLOBO versus RECORD TV
Fora da Internet, a campanha de 2018 também inovou na polarização entre a Rede Globo de Comunicação e a Record TV, braço comunicacional da Igreja Universal do Reino de Deus.

Quando Edir Macedo decidiu pelo PSL e Bolsonaro, rompendo com Alckmin, a guerra offline, fora da Internet transformou-se, até mesmo, em uma entrevista exclusiva na Record, no mesmo horário em que os outros candidatos participavam de um debate na emissora rival. Macedo e IURD, com isso, aproximaram-se do restante do campo evangélico – uma vez que 50% dos eleitores evangélicos já tinham se decidido pelo PSL (17).

DERROTA NACIONAL E REGIONAL
Além do pleito nacional, é preciso notar que a Globo foi derrotada até mesmo no Maranhão (estado em que fez campanha contra o candidato do PCdoB). Os candidatos do PT, no Nordeste, também ajudaram a diminuir o papel da emissora líder no Brasil. O discurso de que PT e PSL são “dois extremos”, invenção da Globo, para emplacar uma terceira via, não deu certo.

Resultado prático: o Brasil vai para um segundo turno no qual a Globo não apostou em nenhum dos dois postulantes. Pelo contrário… a emissora dos Marinho perdeu parte de sua influência política. E assim, aderindo tardiamente à candidatura Bolsonaro (por causa de seu antipetismo) não será a protagonista.

COMUNICAÇÃO POLÍTICA – Em 2018, 450 comunicadores, da Record TV e de outras emissoras, tentaram eleições nas urnas. Sem dúvida, alteraram o quadro político.

Hélio Costa (PRB), o Datena de SC, é um exemplo. É possível até que Datena (se não tivesse desistido) também vencesse. Joice Hasselmann (PSL) e Jorge Kajuru (PRP) também são destaques. As articulações para que Luciano Huck entre na política apontam uma tendência. Saem os caciques e as famílias tradicionais (os maiores perdedores) e entram os “influenciadores”. A Internet é a nova TV para o povo.

AS PESQUISAS PERDERAM
Além da Globo e das famílias tradicionais, os institutos de pesquisa também perderam seu peso nas eleições de 2018. Erraram em todo o Brasil, na intenção de voto nacional, nos vários governos estaduais e na composição do Senado. Os casos mais emblemáticos aconteceram no Rio e Janeiro, Santa Catarina e Minas Gerais – mas há equívocos em todo o país. Ou melhoram a métrica, ou serão desprezadas pelos eleitores.

MINAS GERAIS
Em Minas, a entrada do candidato do NOVO, Romeu Zema, na frente do candidato do PSDB, Antonio Anastasia, foi tão surpreendente quanto a derrota de Dilma Rousseff. Todos os institutos de pesquisa colocavam Anastasia e Dilma na frente dos demais candidatos. Minas, porém, foi o único estado em que MDB, PSDB e DEM conseguiram resistir ao avanço da inovação política. Aécio Neves, mesmo votando debaixo de vaias, conseguiu se reeleger. O tradicionalismo mineiro surpreendeu as pesquisas, mas não abandonou seus grandes nomes.

SANTA CATARINA
Ao contrário de Minas Gerais, em Santa Catarina o eleitorado foi mais radical. O desconhecido Comandante Moisés (PSL) e o recém-eleito senador Jorginho Mello (PR) desbancaram os favoritos nas pesquisas e enterraram o MDB nas urnas. Sem dúvida, a conta do impeachment e do apoio a Temer chegou aos eleitores catarinenses. Aliás, 11 dos 18 ministros de Temer foram rejeitados pelo voto popular. Os conservadores, que não compuseram com o MDB, articularam-se em torno do senador Esperidião Amim e sua esposa Ângela. Eles sobreviveram ao maremoto, ao lado de Merísio. Amim e Merísio estão escorados em uma aliança de 15 partidos. São conservadores unidos contra o tsunami de Bolsonaro.

RIO DE JANEIRO
O Rio renovou mais da metade de seus representantes. O MDB e o PSDB foram os partidos que mais encolheram em relação às bancadas anteriores. E a maior novidade foi a polarização entre PSL e PSOL. O PSL terá a maior bancada na Assembleia.

Wilson Helio Fernando Barbosa Lopes (PSL) que gravou vídeo ao lado de Bolsonaro, na campanha, para defender-se de acusações de racismo, foi o deputado federal mais votado. E o segundo mais votado, por 3 mil votos, Marcelo Freixo. Pode ser que o PSOL venha até a substituir o PT no futuro, mas Boulos teve a pior votação nacional, menor do que a candidatura pioneira de Plínio de Arruda Sampaio. O Jornal do Brasil sintetizou o quadro em sua manchete de capa: Rio Vira à Direita.

WITZEL E AROLDE
A votação de Flávio Bolsonaro (PSL) já era esperada, mas a surpresa veio com a eleição de Arolde de Oliveira (PSD). Arolde teve sua imagem associada ao candidato Wilson Witzel (PSC) nas redes sociais e na Internet. Witzel, ex-juiz, chega ao segundo turno na frente da máquina política de Eduardo Paes (DEM). César Maia, que disputava a segunda vaga, foi ultrapassado por Arolde exatamente por causa da associação a Eduardo Paes. Não é só PT e PSOL que polarizam o Rio, também há forte rejeição ao grupo político de Sérgio Cabral. O PSL fez 13 deputados estaduais e o MDB encolheu de 15 para 5. O voto carioca mudou e dificilmente Eduardo Paes conseguirá reverter esse quadro.

TRINTA PARTIDOS
Os institutos de pesquisa afirmaram que uma “onda” motivada pelas redes sociais para liquidar a eleição no primeiro turno, com voto na legenda, explicaria as muitas surpresas. Porém, embora tais fatos sejam verdade, o eleitorado apostou na pulverização e na derrota dos líderes de bancada dos grandes partidos – Lindenberg Farias, Romero Jucá, Picciani, Cássio Cunha Lima e vários nomes de destaque afundaram.

O próximo presidente terá um Congresso com trinta partidos. PP (37), MDB (34) e PSD (34) partidos envolvidos em escândalos formam o centro político. PT (56) e PSL (55), com as maiores bancadas, formam os extremos. O atual congresso tinha 25 partidos. Com 30, ficou ainda mais difícil de administrar.

UM SENADO CONSERVADOR
A Câmara é mais pulverizada e conta com 79 representantes de esquerda, e com um centro conservador. O Senado terá 21 partidos e será majoritariamente conservador, com 81 senadores, a partir de 2019.

A esquerda tem apenas dez senadores (6 do PT e 4 do PDT) – e embora o MDB continue com a maior bancada, o atual presidente, Eunício Oliveira, não foi reeleito. Assim, apesar da renovação política, não mudou tanto. MDB, REDE e PP aumentaram o seu peso no Senado.

DACIOLO
O Cabo Daciolo, do Patriota, tido como folclórico por vários analistas, desbancou Marina, Meirelles, Boulos e Alvaro Dias. Ficou em sexto lugar. João Amoêdo (NOVO) ficou em quinto. Os dois juntos significam, ao lado do líder de votação, que 49% dos eleitores querem renovação política.

Geraldo Alckim (4%) e Marina (1%) foram os grandes perdedores. Encolheram em relação às eleições passadas.

BRANCOS E NULOS
Dez milhões de eleitores votaram branco ou nulo (8,8%). Quase trinta milhões (29.871.171) não compareceram (abstenções, 20,32%) . Ou seja, quase 30% do eleitorado brasileiro não conseguiu encontrar um candidato entre os nomes oferecidos. É muito. É preciso reformar e recuperar a política. Quem o fizer, mudará o Brasil.

André Mello é jornalista, tradutor, teólogo e cientista da religião.
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