O “miserê” de só ganhar R$ 24 mil por mês

"Conheci um homem tão pobre, mas tão pobre, que só tinha dinheiro"

Anderson de Alcantara - 24/09/2019 10h10

Você deve ter visto recentemente, aqui no Pleno.News, a respeito da fala de um Procurador de Justiça do Estado de Minas Gerais que reclamou da baixa remuneração que passou a receber em seu contracheque devido a alguns cortes no orçamento daquele órgão.

O áudio tem origem em uma reunião gravada e disponibilizada publicamente no site do MP/MG. Em um dado momento, Leonardo Azeredo dos Santos diz estar baixando seu estilo de vida para sobreviver: “deixando de gastar R$ 20 mil de cartão de crédito e passando a gastar R$ 8 mil”. Em seguida pergunta ”Como o cara vai viver com R$ 24 mil?”, se refere a esta quantia como um “miserê”, e alega que ele e vários outros colegas já estão vivendo à base de antidepressivos em função dos cortes de verbas salariais.

Esta fala gerou uma grande repercussão nacional; afinal, a grande maioria dos brasileiros tem o desafio de viver mensalmente com um valor bem menor que este todo mês. A renda per capita (rendimento médio domiciliar por pessoa) do Brasil foi de R$ 1.373, em 2018, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no início deste ano. A maioria dos comentários da população, que tem que viver com isso – ou até menos – todo mês, mostra um sentimento de indignação às frases do procurador mineiro.

Mas porque será que Leonardo se expressou desta forma? Quais seriam as verdadeiras razões por trás de um desabafo aparentemente absurdo?

Em primeiro lugar, é bom destacar o único ponto positivo nesse discurso: Leonardo foi sincero. Uma boa parcela da população brasileira, em especial na classe média alta, pensa exatamente dessa forma, mas não é capaz de expressar seu verdadeiro sentimento com em relação ao dinheiro, por medo da reação das outras pessoas. Partindo desta realidade vamos analisar o caso, de um ponto de vista macro/geral, pois o problema particular de cada indivíduo cabe exclusivamente a si.

À luz desta cena, meu colega Leandro Àvila do blog Clube dos Poupadores (recomendo!) resumiu que:

A ignorância financeira produz vítimas em todas as classes sociais e atinge pessoas com os mais diversos níveis de educação formal

Essa frase resume nossa grande mazela nacional em torno de questões relacionadas ao dinheiro. Por falta de uma educação financeira adequada, brasileiros em geral, independente do quanto ganhem por mês, sempre vai alegar problemas financeiros nas rodas de conversa com os amigos.

Mas, porquê?

O problema, já começa na origem: partindo da realidade descrita por Leonardo, de que “sempre foi acostumado a ter um alto padrão”, constatamos que o pensamento predominante da classe média brasileira atual é pagar boas escolas para os seus filhos no ensino fundamental e médio; na esperança que eles possam passar no vestibular para uma universidade pública gratuita; e na sequência saírem de lá diplomados e aptos a conseguir um bom emprego; que lhes garanta uma alta renda; de preferência em um cargo público onde se possa ganhar bem, trabalhar pouco, e sem a chance de ser mandado embora. À luz da economia e dos tempos atuais, nada poderia ser mais equivocado do que esta estratégia.

Então, lá atrás, sem saber porque nem para onde isto o iria levar, Leonardo foi inserido desde cedo no “Jogo da Vida” com esta única premissa: ter um emprego que lhe trouxesse uma alta renda; sem que para isso não importasse em nada sua missão de vida, realização pessoal, ou outros valores. Quem é meu leitor atento, sabe que eu já abordei esse assunto numa das minhas primeiras colunas aqui do Pleno.News (clique aqui para ler).

Na sequência, o pobre procurador (sim, pobre; pobre pessoa) ingressou automaticamente no estágio seguinte, que é o da “Maldição da Classe Média” (que também já abordamos aqui – clique aqui para ler) modelo no qual nos é ensinado – erroneamente – que durante a trajetória na qual o indivíduo vai se desenvolvendo, alcançando cada vez mais postos de trabalho melhores e consequentemente salários melhores acaba se tornando consenso que, conforme este indivíduo e/ou sua família forem melhorando a sua renda, “mereçam” também melhorar o seu padrão de vida. Incorporando, assim, cada vez mais gastos que agora podem ser mantidos através do novo patamar de renda conquistada.

O problema deste estilo de vida acontece justamente quando se dá um fator como este que vimos no caso do Leonardo: quando há uma redução brusca na renda da família, não é tão fácil cortar gastos da noite pro dia. E sem uma Reserva Técnica de Liquidez e Segurança (já falamos dela aqui, lembra? Clique aqui para ler) haverá uma incapacidade de se passar por um período de crise sem que haja um intenso desgaste emocional.

Casos como este só nos provam, cada vez mais, que os modelos e as certezas nas quais nossos pais acreditavam e nos passaram a respeito do dinheiro estão a cada dia se mostrando ultrapassados. Pela ausência de Educação Financeira no Brasil, vários mitos foram criados e predomina o sentimento do “Deixa a vida me levar” . Os únicos que ganham com a ignorância financeira de nosso povo são os bancos e financeiras, que a cada ano que passa batem cada vez mais recordes de lucros.

Há que se agir, urgentemente agora, para a geração atual e para as futuras em promover os verdadeiros pilares que podem ajudar a sociedade a estabelecer – para cada indivíduo, cada família – um padrão de gastos coerente e compatível com a sua realidade, e ainda construir sua liberdade financeira para o futuro. Os passos são bem simples:

1. Controle as entradas e saídas de dinheiro da sua casa;
2. Saiba com que você está gastando e estabeleça um orçamento para cada categoria de despesa;
3. Gaste menos do que você ganha;
4. Poupe uma parte;
5. Invista com sabedoria (e não como pensa a maioria).

Pois se hoje você ganha, talvez, R$ 2.000, por mês, e fica sonhando em um dia ganhar estes mesmos R$ 24.000, pois acha que assim seus problemas financeiros estarão resolvidos, lamento informar que, quando você chegar nesse ponto, fatalmente estará reclamando que nem o procurador mineiro…

Não é a quantidade de dinheiro que passa pela sua conta que lhe trará felicidade e saúde financeira, e sim seguir as etapas acima com serenidade e disciplina, ao longo da vida.

Por hoje é só. Caso você tenha alguma questão ou dúvida relacionada a Finanças Pessoais, envie-a para redacao@plenonews.com.bre eu terei o maior prazer em responder e tentar lhe ajudar.

Forte abraço, até semana que vem se Deus quiser, sucesso e fiquem na Paz!

Anderson de Alcantara é profissional do mercado financeiro há 30 anos, onde atua como como Planejador Pessoal; e é Professor Titular do Ministério Videira – Educação Financeira à luz da Bíblia.

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