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Banco Central dos EUA corta juros devido ao coronavírus

De acordo com o Fed, a doença mudou o cenário para a economia americana neste ano

Pleno.News - 03/03/2020 16h27

O Fed, banco central americano, surpreendeu o mercado nesta terça-feira (3) ao cortar a taxa básica de juros dos Estados Unidos em 0,50 ponto percentual para a faixa de 1% a 1,25% ao ano, o maior incentivo monetário desde a crise financeira de 2008. O movimento é uma resposta aos riscos econômicos que a epidemia de coronavírus representa.

Segundo o presidente do Fed, Jerome Powell, a doença mudou o cenário para a economia americana neste ano, aumentando, de forma concreta, o riscos.

– O coronavírus e as medidas utilizadas para contê-lo vão, certamente, pesar na atividade econômica dos EUA e de outros países por algum tempo. Estamos começando a ver os efeitos nos setores de viagem e turismo e estamos ouvindo reclamações de indústrias que dependem de cadeias de suprimentos globais. A magnitude e a persistência dos efeitos econômicos ainda é altamente incerta – afirmou Powell em entrevista coletiva à imprensa após o anúncio do corte.

Segundo o Fed, contudo, a economia americana continua forte com baixas taxas de desemprego, aumento do salário médio e aquecimento do setor imobiliário.

Além de vir de uma reunião extraordinária, o corte de juros também surpreendeu porque, nas duas últimas semanas, autoridades do Fed afirmaram que ainda não viam necessidade de uma resposta monetária.

Segundo Powell, o cenário mudou com a disseminação da epidemia do coronavírus pelos Estados Unidos. No país, já são mais de cem casos e seis mortes.

O Fed havia sinalizado na sexta (28) que poderia tomar medidas para minimizar o dano do surto da doença sobre a atividade econômica, após uma semana de forte queda das Bolsas globais e aumento do risco.

O corte de juros é uma medida de incentivo monetário à economia. Com juros baixos, fica mais barato tomar crédito e empreender e menos vantajoso manter o dinheiro em aplicações de renda fixa, tornando o mercado acionário mais atrativo. Como as ações são maneiras de se investir em empresas, a ida de investidores para a Bolsa também pode contribuir para uma aceleração da atividade econômica.

Logo após o anúncio, as Bolsas americanas, que operavam em queda, chegaram a subir 1,5%. Porém, cerca de uma hora depois foram à mínima do dia, com quedas de 1,5%. Por volta das 15h36, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq caem 2% cada uma. Na Europa, Bolsas fecharam em alta de cerca de 1%.

Investidores estão céticos quanto aos efeitos positivos de um corte de juros na economia e temem que o risco do coronavírus seja maior do que precificam.

– O corte de 0,50 ponto percentual não nos parece um movimento de proteção e sim de antecipação, sobretudo diante de um panorama onde os desdobramentos do coronavírus ainda não são completamente tácitos. O Fed acendeu a luz vermelha, passando muito abruptamente pela amarela e, novamente, tal gap na comunicação pode acabar sendo mais prejudicial que positivo ao mercado -afirma Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos.

André Perfeito, economista-chefe da Necton, também comentou.

“É uma atitude pueril do Fed que não deve ter efeitos maiores que a recuperação normal de uma correção como estava ocorrendo. O problema hoje não é monetário e o estímulo via juros não vai ter efeitos práticos na atividade. Esta ação me parece antes a ingerência da Casa Branca sobre a política monetária que tem que continuar ‘inflacionando’ ativos em ano eleitoral – afirma

Quando perguntado pelas constantes críticas e pedidos de Trump por juros mais baixos e sua eventual influência na decisão, Powell preferiu não comentar.

Economistas do Goldman Sachs disseram que a economia americana escaparia de uma recessão por enquanto, mas reduziram a zero a projeção de crescimento do PIB americano no primeiro trimestre, em termos anualizados. Antes, o banco estimava alta de 0,9%.

Já o economista-chefe do JP Morgan nos Estados Unidos, Michael Feroli, agora vê em 50% a chance do Fed se ver forçado a reduzir a taxa de juro americana a zero ainda neste ano. Uma semana antes, Feroli via essa chance em 33%.

Além do corte de juros, Powell disse que podem ser concedidos estímulos fiscais. O presidente Donald Trump também se mobiliza para incentivar a economia e afirmou que trabalha com o Congresso americano para viabilizar um fundo emergencial de US$ 8,5 bilhões (R$ 38,1 bilhões) para acelerar a resposta do país ao coronavírus.

Em comentário sobre a decisão de corte de juros pelo Fed, em sua conta no Twitter, o presidente americano afirmou que o Fed precisa se alinhar com outros países e pediu mais cortes de juros.

Na segunda, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) havia conclamado bancos centrais e governos a agir para evitar danos maiores à economia global. Antes dos cortes, a organização havia pedido que os BCs sinalizassem o compromisso de corte, caso necessário.

Nesta terça (3), os ministros de finanças do G7 discutiram ações conjuntas para minimizar os efeitos econômicos do coronavírus. Após o Fed, espera-se que o banco central do Canadá corte o juros locais em 0,50 ponto percentual.

O pânico sobre os potenciais danos à economia de um avanço do coronavírus se disseminou durante o período de Carnaval no Brasil. A disseminação da doença pela Itália, Coreia do Sul e Irã elevou a preocupação de investidores.

No Brasil, o Ibovespa passou de queda de 0,7% para alta de 2% após o anúncio do Fed, mas acompanha as Bolsas americanas e recua 0,3% por volta das 15h35. O dólar opera em alta de, a R$ 4,499 após tocar os R$ 4,511 antes do anúncio e chegar a cair R$ 4,457 após a decisão.

*Folhapress

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