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Repórter veterana é demitida da Globo e desabafa em carta

Neide Duarte trabalhou na emissora entre 1980 e 1997, e depois de 2005 até o fim de novembro deste ano

Monique Mello - 06/12/2022 11h56 | atualizado em 06/12/2022 14h57

Neide Duarte Foto: Reprodução/TV Globo

A jornalista Neide Duarte foi desligada do Grupo Globo após um acordo que pôs fim à parceria de décadas. A veterana de 71 anos trabalhou na emissora entre 1980 e 1997, e depois de 2005 até o fim de novembro. Nesta segunda (5), ela deixou uma carta aos colegas de emissora, a qual o site Notícias da TV teve acesso.

– Não quero ser triste, nem dramática, mas vou morrer de saudade – disse a jornalista na extensa carta.

Neide estava no ar atualmente com o dominical Globo Rural. Ela já passou por diversos programas da emissora como Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Jornal Hoje e SP1. Além disso, destacou-se nesse período como repórter especial do Globo Repórter e do Fantástico.

No breve período em que esteve fora da emissora dos Marinho, a jornalista passou pelo SBT e pela TV Cultura de São Paulo. Os trabalhos nesta última lhe renderam prêmios como Líbero Badaró e Vladimir Herzog.

Neide foi demitida em meio a uma renovação na redação da Globo que ocorre desde o ano passado, que já culminou na demissão de nomes como Francisco José, Renato Machado, Isabela Assumpção, José Hamilton Ribeiro, Alberto Gaspar, Carlos Tramontina e Chico Pinheiro.

Na carta, a jornalista agradeceu aos colegas, incluindo o chefe Ali Kamel, atual diretor de Jornalismo da Globo.

Confira na íntegra:

Entrei na TV Globo de SP em 1980 como repórter. Saio agora, 42 anos depois ainda como repórter. Ser repórter foi sempre o que eu quis ser.

Assim como as abelhas novas, que ao sair pela primeira vez da colmeia, saem de costas e ficam paradas no ar por um tempo até guardar na memória o desenho da casa onde moram, para conseguir voltar depois, eu também fui saindo aos poucos, de costas, para guardar para sempre aquela imagem de alegria, excitação e entusiasmo, que enxerguei um dia na redação da TV Globo de SP.

A redação da Praça Marechal Deodoro, nos anos 80, foi das melhores em que trabalhei. Era uma concentração de talentos, jornalistas vindos de jornais impressos, de revistas e de outras emissoras de TV. Com eles aprendi a escrever. Aprendi que era melhor ser simples do que barroca, despretensiosa do que solene.

Aprendi a errar. Aprendi que está na rua a essência do ofício do jornalista.
Aprendi que repórter não trabalha para agradar ninguém, nem chefia, nem torcida. E assim nunca espera reconhecimento.

Aprendi que repórter não pode perder o rumo da matéria diante da euforia coletiva ou da tragédia. O que a gente leva dessas reportagens, para sempre, é a alegria ou a dor dos outros. E depois viramos outras pessoas, transformadas por aqueles acontecimentos. É um trabalho, mas parece com a vida. Aprender leva tempo e agora, depois de 42 anos, sinto que estou no caminho certo, pronta para continuar o aprendizado.

Não posso ir embora sem antes agradecer. E preciso agradecer a centenas de pessoas a quem devo tudo que aprendi e que espero não esquecer. Antes de tudo, agradeço a todos os repórteres cinematográficos com quem trabalhei. É com eles, na rua, que o repórter aprende a ser repórter e a encontrar seu lugar na equipe. Obrigada Hugo de Sá Peixoto, Marco Antonio Gonçalves, Nilson Araújo, Américo Figueiroa, Wilson Araújo, Caue Angelini, Ricardo Vital, Thiago Capelle, Douglas Campos, Jorge dos Santos, Francisco Mafezzoli Jr, Moacir Mendonça, Abiatar Arruda, Reinaldo Cabrera e outros tantos queridos…

Obrigada Anderson, Dantas, Marcão, Gentil e a todos os operadores de áudio.

Obrigada aos técnicos que carregavam os antigos Video Tapes pesadíssimos no tempo do U-matic, Santiago, Camacho, Niltinho Mochila, Claudinei, Luizinho, Francischetti, Reginaldo, Mustafá…

Obrigada Hildebrandão de Lima, Bigode, Valdir, Roque, Capacete, Maurício e todos os motoristas, diretores das nossas aventuras nas valentes Veraneios.

Obrigada João Paulada, resolvedor de todos os problemas da redação.

Obrigada a todas as secretárias, a todas as telefonistas do tempo em que ainda existiam telefones com fio. Obrigada a todas as mulheres e homens que, na redação, tiraram o pó das nossas mesas, deram brilho ao nosso chão.

Obrigada ao pessoal do departamento de Artes. Obrigada, Bira, Maurinho, Fabíola. Obrigada turma da apuração, da antiga rádio escuta. Obrigada Wagner Vallim. Obrigada ao pessoal do arquivo de imagens, aos antigos e aos novos zelosos guardadores da nossa história.

Obrigada aos produtores que germinam e geram as reportagens antes que elas existam. Obrigada Nélio Horta, Cris Angelini, Maurício Maia, Karina Dorigo, Adriana Caban, Mônica Pinheiro, Marcos Aidar, Ana Rita Mendonça, Assimina Vlahou, Elaine Camilo, Johnny Savalla, Dina Amendola, Maria Luíza Silveira, Marrey Jr, entre tantos outros maravilhosos produtores.

Obrigada a todos os editores de imagem com quem já trabalhei e que me ensinaram tanto. Obrigada Cebolinha, Juvenal, Joinha, Ronaldo, Zé Rubens, Toninho Asa, Dorival, Geraldinho, Borrachinha, Lima, Liminha, Orlando, Olímpio. Obrigada Josi, dos tempos da moviola e do filme 16 mm.

Obrigada a todos os editores de texto, que sempre me surpreenderam ao ver na ilha de edição o que eu não tinha conseguido ver na rua. Obrigada Marquito Moraes, Valdir Zwetch, Teresa Cavalleiro, Silvia Sayão, Luciana Bistane, Leda Pasta, Tonico Duarte, Rosane Baptista, Miloca Nagle, Benê Sousa, Theresa Pinheiro, Marislei Dalmaz, Cláudia Guimarães, Mariana Sabino, Fatima Ugatti, Bia Almeida, Anne Porlan, Ivone Happ, Paulo D’Arezzo, Maria Emilia Celestino, Renata De Luca, Virgínia Queiroz, Cintia Borsato, Wanda Alviano, Lucia Santana, Marilei Zanini, Maria Cleidejane, Teresa Garcia, Denise Sobrinho, Fatima Baptista, Ana Helena Gomes, Roberto Menezes e tantos outros.

Obrigada Walter Mesquita, o nosso Waltinho, obrigada Laerte Mangini, Fernando Coelho, Elói Gertel, Mari Marega e todos os chefes e subchefes de reportagem.

Obrigada Raul Bastos, Armando Nogueira, Alice Maria, Ali Kamel, Carlos Schroeder, Cristina Piasentini, Wianey Pinheiro, Jorge Escosteguy, Woile Guimarães, Celso Kinjô, Mariano Boni, Luizinho Nascimento, Hedil Valle Jr, Miguel Athaíde e a todos os editores chefes, chefes de redação e diretores de jornalismo.

Obrigada a tantos grandes repórteres que me inspiraram, no tempo em que foram repórteres: Lucas Mendes, Ernesto Paglia, Marcelo Canellas, Caco Barcellos, Tonico Ferreira, Sonia Bridi, Carlos Dorneles, Pedro Bial, Carlos Nascimento, Helena de Grammont, Nelson Araújo, José Hamilton Ribeiro, Isabela Assumpção, Ilze Scamparini, Graziela Azevedo, Edney Silvestre, Alba Carvalho, Glória Maria, Helen Martins, Maria José Sarno, Maria Cristina Poli, Alberto Gaspar, José Roberto Burnier, Sabina Petrovsky, Beatriz Thielmann, Mônica Waldvogel, Bruna Marin e tantos outros.

Passei por todos os programas de jornalismo da TV Globo: Bom Dia SP, Bom Dia Brasil, SPTV 1, Jornal Hoje, SPTV 2, Jornal Nacional, Jornal da Globo, Fantástico, Globo Repórter, em todos fui feliz, desesperada, entusiasmada, indignada, quantas vezes a repórter errada.

Nos últimos 5 anos fui parar no Globo Rural, onde a convivência ainda lembra a redação dos tempos da Praça Marechal nos anos 80: alegria, camaradagem, bom trabalho.

Obrigada Humberto Pereira. Obrigada Lucas Battaglin. Obrigada Maurino, Camila, Vico, Odair, Samuca e toda equipe do Globo Rural. Obrigada por me deixarem fazer matérias que nem eram tão rurais assim, mas um pouco mais parecidas com meu sonho feliz de reportagem.

Não quero ser triste, nem dramática, mas vou morrer de saudade.

 

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